terça-feira, 6 de setembro de 2011

No Trem Para Japeri 2


(J. C. Peu)



Ao correr para garantir um lugar sentado no trem para Japeri, pensava apenas em ir para casa sentado,  descansando, nada mais me ocorria. Da Central do Brasil até a estação de Comendador Soares  em Nova Iguaçu, para onde me dirigia, são aproximadamente 60 minutos, e mesmo num sábado á tarde,  o movimento de pessoas é bastante intenso.
            Consegui sentar e, logo que a voz um pouco metalizada do homem do auto-falante anunciou que aquele trem, parado na plataforma 8 linha H, era o próximo com destino a Japeri, todos os lugares vagos foram ocupados como num passe de mágica.
            Uma mulher, com não mais de 30 anos de idade, acompanhada de seu namorado e outro rapaz que, entendi depois, era seu sobrinho, sentou-se ao meu lado. O trem já estava lotado. Não havia lugar para os 3 viajarem sentados. O namorado ficou em pé na sua frente, enquanto o sobrinho ficou estacionado diante de mim.
            Eu tentava ler uma revista, mas a conversa do trio não me permitiu. Não tive culpa, e não posso ser acusado de bisbilhotar a vida dos outros. A mulher conversava em português com o sobrinho e, no meio da conversa, descobrimos que ela foi morar na Alemanha aos 16 anos, só depois disso prestei atenção em seu sotaque. Ele não correspondia a nenhum dos quais eu conhecia.
            Entretanto, com o namorado ela falava, ou traduzia o que o sobrinho dizia, em um idioma que, á princípio imaginei que fosse o inglês. Eu não sei falar inglês. Mas,  não tem como ter certeza, achei aquele inglês muito estranho. Ele não correspondia ao que eu conhecia do inglês das músicas dos Beatles, do U2 ou dos filmes legendados. Se fosse inglês, eu reconheceria uma palavra ou outra.
            Quando ela me disse que foi para a Alemanha aos 16 anos, decretei: “É o alemão!” Talvez não fosse. Não tem como ter certeza, os alemães do filme A Queda, ou A Vida Dos Outros, pareciam falar diferente. O alemão deles, dos atores dos filmes, não correspondia nos meus ouvidos com o alemão que a mulher falava com seu namorado, com seu sobrinho e com os demais passageiros do vagão, que não podiam ser acusados de bisbilhoteiros se era ela que falava alto demais.
            O namorado comentou segundo nossa tradutora, que estava espantado com o fato de uma cidade tão grande quanto o Rio ter tão pouco metrô. O sobrinho da moça em resposta disse: “Aqui no Rio o que tem o poder mesmo de unir a cidade é o trem.” Dificilmente se pode falar de periferia no Rio sem falar de trem. É o trem que liga a  Zona Oeste com a Zona Norte e o Centro. Liga, também, a Baixada Fluminense com as Zonas Norte, Oeste e a Leopoldina. Concordo com o rapaz, porém, acredito que o trem é muito mais que mera ligação entre regiões distantes entre si. Como mera ligação, existe o ônibus.
            Para usuários oriundos da Baixada, que não possuem a opção de passagens de ônibus a preços acessíveis, o trem é a melhor e mais barata opção de chegada ás regiões centrais da cidade do Rio. Uma passagem de ônibus de Queimados para a Central do Brasil, por exemplo, custa, em média, R$ Se a opção for por uma viagem mais rápida e confortável numa van ou num ônibus especial, a viagem fica ainda mais cara. Sem contar que em muitos dias, os engarrafamentos na Av. Brasil e na Dutra, principalmente na altura de Belford Roxo, podem fazer a viagem de ônibus durar quase o dobro do tempo de uma viagem de trem.
            Como tenho uma ligação antiga e sentimental com os trens urbanos, penso que os trens são quase como uma extensão da minha casa. Desde os 13 anos de idade minha ligação com os trens é praticamente diária. Quando passo alguns dias sem andar de trem fico doente.
            Meu pai era camelô nos trens para Japeri e Santa Cruz. Quando comecei a vender jornais aos 13 anos, pela Casa do Menor Trabalhador, retornava para casa no Japeri todos os dias por volta do Foi assim por 4 anos. Depois trabalhei muito em várias atividades diferentes entre si, a única ligação era o trem. Na faculdade o trem ainda me acompanhou. É como se os trens fossem minha segunda casa, e os usuários, os camelôs, os ‘rapas’, por mais estranho que possa parecer,  fossem meus parentes. Uns um pouco distantes, outros um pouco mais próximos, mas meus parentes.
            A mulher, o sobrinho e o namorado desembarcaram na estação do Engenho de Dentro. Seguiam para o Estádio Olímpico. Vestiam camisas do Botafogo. Neste dia, o Botafogo ganhou o jogo. Eu fiquei feliz por ter ganhado mais três parentes, mesmo sem saber em qual idioma a mulher e seu namorado se comunicavam. A revista que eu lia já não tinha tanta importância quanto dividir estas impressões da viajem no trem para Japeri.

2 comentários:

  1. "Dava para ler esta postagem ouvindo "Rodo Cotidiano" da Banda de Rock Carioca O Rappa.
    Parabéns.

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