segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Feriado

O feriado

Existem pessoas que tem a invejável sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. É lógico que esta sorte a que me refiro não se trata de uma força que regula tudo o que acontece na vida, o destino, fado ou fatalidade. Apenas refiro-me ao mero acaso, puro e simples. O que domina o universo físico é o acaso, mesmo que na maioria das vezes que nos referimos a ele nós o chamemos de sorte.
Há, também pessoas que infelizmente têm, vez por outra, o desprazer de estar no lugar errado, na hora errada. “Má sorte”, para não dizer de forma direta, azar. Se nós generalizarmos, o que chamamos de azar não é outra coisa se não o próprio acaso.
Até este dado momento eu não sei em qual destes dois grupos me incluiria. Se no grupo dos sortudos, ou no grupo dos azarados. Talvez, nem bem em um, nem bem em outro, mas, entretanto, em ambos. Na verdade, eu estou mais para um terceiro grupo. O das pessoas que acreditam apenas no acaso.
No feriado de sete de setembro último, participei como coadjuvante de um acontecimento que chocou, pelo menos por uma semana ou no máximo um mês, todo o país. Forçando um pouco a memória, todos devem lembrar-se da tragédia do “Mine Markt” de São Gonçalo, pois foram feitas duas ou três reportagens que foram transmitidas no telejornal mais assistido do Brasil. Este caso foi até mesmo coroado com uma reportagem de dez minutos de duração ou mais no jornal de domingo de maior ibope no país. Hoje, quase um ano após, poucos são os que lembram-se com facilidade do ocorrido, exceto é claro, as pessoas envolvidas, seus familiares e conhecidos.
Hoje, quando levantei-me da cama motivado a escrever sobre este fato, não fui motivado por idéias sensacionalistas e me policiarei ao máximo para não escrever nem uma única linha assim, mesmo que seja difícil escrever um conto sobre uma história tão real quanto nós mesmos. Resolvi escrever esta história, que não sei até agora, enquanto escrevo, se será longa ou curta, desejando que ela sirva como humilde epitáfio aos que sobreviveram.
Como conheço praticamente todos os envolvidos pelo menos de vista, foi fácil conversar bastante com os “sobreviventes” e com pessoas de suas famílias e saber, por causa destas conversas, detalhes daquele dia trágico. Havia, entretanto, lacunas que precisavam ser preenchidas para o bom andamento deste relato, que pretende ser uma homenagem ou prova de respeito a todas as pessoas que sofreram e foram, de certo modo, marcadas por este acontecimento. Então, preenchi as lacunas por meio de minha imaginação.
Evidentemente, estas pessoas, que tentarei descrever com a máxima exatidão, não agiram e falaram religiosamente da maneira como descreverei, muito menos pensaram da forma como aparecerá nas páginas á frente, pois eu não almejo saber exatamente como pensam as pessoas, pois sei que o único que têm o poder de saber exatamente o que pensamos e faremos é Deus, e, mesmo assim, Ele não usa todo o tempo este poder por ter-nos dado o livre-arbítrio.



















O “Mine Markt” é uma mercearia de muito boa aparência em um bom ponto comercial de São Gonçalo. O local em que foi construída não é bem no centro de São Gonçalo, mas, no terreno ao lado foi construída uma sucursal de uma grande rede de lanchonete “fast food”, como se fala hoje em dia. Em frente, há a algum tempo, um grande posto de gasolina e ao lado do posto construíram, também, quase ao mesmo tempo da construção  da lanchonete, uma grande vídeo locadora que, em comparação com o “Mine Markt”, era muito mais bonita , a vídeo locadora era daquelas onde nós podemos, com toda certeza, encontrar até mesmo filmes antigos como “Cidadão Kane”, “Encouraçado Potenkim”, “Nosferatu”, “O Grande Ditador”, enfim  uma boa locadora, um bom ponto comercial, próximo mas não no centro e com muitas casas ao redor.
Na última reforma da o proprietário resolveu que deveria plagiar o modelo arquitetônico da lanchonete ao lado de sua mercearia. Tanto o prédio quanto o terreno ficaram muito semelhantes ao prédio e ao terreno que serviram de molde, exceto a cor e o jardim. Foi até mais ousada e criou jardins laterais, coisa inexistente na lanchonete.
Cinco pessoas trabalhavam para o Sr. Assis, o proprietário, mas, como o dia que nos interessa é o dia do feriado de sete  de setembro do ano anterior, precisamos falar apenas de dois deles que, excepcionalmente, trabalhariam no feriado. O primeiro trabalharia das sete horas da manha até o meio-dia, a este chamaremos de Anton, quando da chegada do segundo, que trabalharia até as cinco da tarde, hora que fecharia a loja e iria para casa, e que  conheceremos como Albert. Ambos eram bons funcionários. Albert era cristão, não o era apenas no sentido em que somos por viver num país católico, era de fato cristão praticante, já Anton não. Anton era uma pessoa destas que podemos chamar de despreocupadas.
Todos pensaram que não duraria um mês no emprego. Foi uma grande surpresa para todos, até para o Sr. Assis, ver o tempo passar e perceber que Anton se adaptava bem a rotina do trabalho. Anton já trabalhava a dois anos tendo, na época em que começou, dezessete anos e sendo, como todas as pessoas que o conheciam podiam comprovar, um funcionário diligente. Todos  dizem que sempre fazia tudo o que lhe mandavam fazer, mas, sabe-se que Anton trabalhou desde o início com toda empolgação pelo fato de o pai de uma namoradinha ter lhe dito que só haveria namoro caso Anton arrumasse um emprego. Anton arrumou então o emprego e, como acostumou-se com o ritmo do trabalho, continuou nele. Entretanto, um observador perspicaz nota com facilidade que Anton continua sendo o mesmo jovem despreocupado que era antes do trabalho.
Anton estava ansioso para chegar logo o dia do feriado. Havia marcado com Jane, sua nova namorada, uma festinha no amplo depósito nos fundos da loja, ou na sala do patrão aproveitando que todas as chaves estariam com ele até o meio-dia, se chegasse alguém na loja havia as câmeras do circuito interno de vídeo. No dia tão esperado para Anton quanto o dia do Natal, chegou pontualmente à hora marcada, limpou toda a loja como fazia diariamente e as oito horas em ponto abriu as portas da loja para algumas pessoas que já estavam esperando. Atendeu-as e ficou só até as nove da manhã, fazendo o balcão hora de tamborim, hora de travesseiro. Era feriado, nada mais natural que o movimento fosse pouco intenso, mas não esperava que seria tanto assim. As nove horas menos quinze minutos chegou Jane, mas não ficaram a sós pois, por aproximadamente uma hora, o número de pessoas que entravam e saiam da loja não foi grande mas sim contínuo. Este fato perturbou Anton já que ele tinha uma garota e a possibilidade de estar sozinho com ela, mas os fregueses serviam, pelo menos naquele momento, como empecilho apenas.
A manhã havia já perdido todo o frescor e cheiro agradável do orvalho, o sol começou então a mostrar à que veio, quando Anton e Jane encontraram-se sozinhos. Jane era de uma beleza fria, incapaz de causar palpitações  arrebatadoras, mais era bela a seu jeito. Tinha um rosto fino e pequeno, o nariz era reto como se fosse projetado à partir do desenho de um triângulo perfeito, os olhos de longe eram negros como seus cabelos, mas de perto eram castanhos e o brilho não era tão forte. Como se tivesse a idéia fixa de que não era bela. Jane era adolescente, tinha uns dezesseis ou dezessete anos, impossível ter certeza da idade correta apenas por olhá-la e, os adolescentes estão sempre errados quanto a idéia que fazem deles mesmos. Tinha um corpo perfeito e dentro de poucos anos tornar-se-ia uma mulher ainda mais bonita, se não tivesse dois ou três filhos antes dos vinte e cinco anos, como era muito comum acontecer com os jovens ali.
Anton era mundano e havia preparado com antecedência o escritório do patrão para aquele momento. Levaria a menina para lá e ficaria prestando atenção na tela da TV que mostrava todo o interior da loja, caso surgisse alguém, ele correria para despachar o quanto antes o visitante inoportuno. Mal começaram a beijar-se, surgiu um homem. O homem abriu a porta de vidro, foi até o balcão e quando já estava descendo a palma da mão direita sobre um pequeno sino sobre o balcão ouviu Anton perguntar-lhe do fundo da loja:
-O que o senhor deseja?
Antes de terminar completamente esta pergunta, ouviu-se o toque do pequeno sino: “plim-plim”. Anton surgira correndo de uma porta do fim do corredor principal por entre as prateleiras e não deu tempo do homem conter seu movimento. De onde se encontrava Anton reparou que o homem veio de carro e estacionara em uma das vagas do estacionamento da mercearia.
-Pensei que não havia ninguém atendendo, - disse o homem sorrindo cordialmente deixando que Anton visse o mais alvo de todos os sorrisos que vira até então – pensei que tinham abandonado a loja e num rasgo de patriotismo tivesse ido cantar o hino nacional em alguma praça pública aqui perto... - O homem pensou que seria entendido, mas, não foi.
Anton sorriu por sorrir, acreditava ser a amabilidade para com os fregueses uma das suas obrigações, não entendeu e justamente por isso não achou graça no “rasgo de patriotismo”, o homem percebeu que não foi compreendido mas não tentou explicar-se melhor, resignou-se a fazer suas compras calado.
-Tome uma cesta. – disse Anton sem, entretanto, olhar bem o rosto do homem. – Fique á vontade . – Completou.
-Obrigado.
 Anton ficou atrás do balcão desejando que o homem fosse embora o mais rápido possível, mas ele ficava passeando pelos corredores pegando um ou outro produto nas prateleiras das estantes de aço. Olhou para as roupas do homem. Sentiu inveja. Eram boas roupas e bons sapatos, o carro parado do lado de fora era novo, “deve ter dinheiro”, pensou ele. Olhou para o estacionamento no sol e viu também o sol refletindo no pára-brisa do carro. “Deve ter muito dinheiro”, pensou Anton ao fechar os olhos visualizando o que estaria fazendo neste momento se também tivesse dinheiro. Anton debruçou-se sobre o balcão deixando vagar o pensamento sem notar que o homem fora até o fim da loja pegar algum produto na seção de frios. Também não olhou na tela da TV sobre o balcão. Se tivesse olhado teria visto o homem entrar na porta que ia para o depósito e escritório nos fundos da loja. Exatamente quantos minutos ficou em devaneio, não sabe. Talvez uns cinco minutos, talvez um pouco mais ou quiçá um pouco menos. O fato é que pensou ter ouvido um grito e isso o despertou abruptamente para realidade. Olhou para a tela da TV, que estava dividida em quatro partes, cada qual mostrando um canto específico da loja de modo que nada escapava de sua vista. Não viu o homem em parte alguma. “Que droga! Isso não pode estar acontecendo!” Pensou que o homem dirigiu-se para o escritório, talvez para roubar, e deu de cara com Jane. Sentiu um calafrio, levantou-se sem pestanejar e coreu para a porta do depósito. Ao entrar recebeu uma pancada forte na cabeça e caiu, desmaiando instantaneamente.





















Ao abrir os olhos novamente Anton percebeu que tinha sido amarrado e arrastado até o escritório e viu em  um dos cantos em posição fetal Jane, que estava semi-nua com as roupas rasgadas, o canto da boca inchado, possivelmente o resultado de um soco, o olhar arredio, amedrontado e envergonhado de uma mulher que acabara de ser violada. Seus olhares pareciam mostrá-la coisas distantes, que de tão impalpáveis, tornavam-se irrelevantes.
Não era necessário perguntar nada, sabia o que tinha acontecido e sentia-se também envergonhado por ter planejado que Jane estivesse ali e foi invadido pelo sentimento de culpa, ainda mais por estar amarrado e impotente. Seu olhar percorreu todo o ambiente do pequeno escritório, não viu o homem. Seu nariz foi invadido pelo cheiro putrefato da desonra e sentiu uma grande aversão pela própria vida, vergonha de ser um homem, vergonha de ser um ser humano, ente capaz de patrocinar  indignidades vergonhosas para si mesmo e para outros seres  humanos.
O homem ao perceber que a porta que levava ao escritório  e ao depósito estava aberta, resolveu entrar pois imaginou que não havia mais ninguém na loja e por notar que Anton estava sonolento o bastante para permitir isso. Não procurava por alguma coisa específica, por nada em especial, quando encontrou uma moça com pouca roupa deitada em um lençol forrado no chão. A moça ao vê-lo puxou o lençol para si objetivando esconder sua nudez e deu um grito. Ele deu um soco no rosto da moça que caiu desacordada viu pela tela da TV que Anton acordara, foi para trás da porta com uma barra de ferro que encontrara num canto, quando Anton entrou, golpeou-lhe a cabeça por trás. Pensou que Anton estivesse morto, verificou. Não estava. Procurou uma corda e ao encontrar, amarrou Anton de modo que ele não poderia fazer nenhum movimento. Revistou seus bolsos à procura da chave da loja, não a encontrando deduziu que estava no balcão. Foi até lá e, após ema breve procura, encontrou-a. Saiu e fechou a porta atrás de si. Entrou no carro e pôs as mãos sobre o volante. Tremia. Ficou pensando no motivo de ter agido da maneira como agiu e não conseguiu encontrar motivo algum. Sabia que muitas vezes as pessoas tomam medidas desesperadas, mas pensava que mesmo essas tais medidas desesperadas, com toda certeza, deveriam ser motivadas por algum motivo sério, muito sério. Ia ligar o carro para ir embora da loja e, entrou novamente em seu interior. Olhou para a rua para ver se vinha alguém, não viu nenhuma alma viva. Fechou a porta á chave e dirigiu-se para o escritório. Ambos, Anton e Jane, ainda estavam desacordados. Havia corda de sobra para amarrar Jane, mas ela estava deitada no chão de maneira que lhe permitia ver suas partes pudendas, tinha um corpo absolutamente desejável...
Quando o homem retornou estava portando uma arma de fogo, e falou copiosamente sobre pacto social, sobre um acordo, um trato, e sobre soltar Anton para ir abrir a loja e atender as pessoas que eventualmente aparecessem. Anton não aceitou, fora perda de tempo ter falado tanto de pactos e acordos, Anton simplesmente não entendeu nada. E não estava disposto a fazer acordo algum com um bandido.
-Vou mata-la se você não for lá para loja e atender as pessoas como se nada tivesse acontecido. Na primeira tentativa de bancar o herói, mato-a.
O rosto sereno do homem, servia como garantia de que ele, de fato, faria tudo que se propôs a fazer.
Anton reclamou bastante mas não havia como resistir à força de um homem armado e com uma garota em seu poder. Foi desamarrado e pediu para ir ao banheiro, lavou o rosto e os cabelos, sentiu um grande galo quase na nuca, procurou alguma coisa que pudesse ser usada como arma e não encontrou. Pensou em fugir, mas, percebeu que a vida é bem diferente dos filmes de ficção. Foi para o balcão e ficou pensando que poderia sair da loja e chamar policia, seria fácil, porém trágico para Jane. Caminhou impávido até a porta e a abriu. Ficou parado por quase um minuto pensando em Jane, ela já sofreu tanto, que um sofrimento a mais outro a menos não faria diferença substancial. Quando estava pronto a dar o primeiro passo para sair, ouviu a voz do homem que saia do alto falante que se usava para comunicação interna. A voz era máscula e forte, sem deixar, entretanto, de ser doce e meiga tendo o poder de evocar instantaneamente a visão da figura janota que estava neste momento com a arma apontada, quiçá, para a cabeça de Jane. A voz que ouvia era a voz da superioridade. Anton nunca antes ouvira uma pessoa falando tão bem, de forma tão bem articulada.
O homem parecia ser muito inteligente, não apenas por estar bem vestido e usar óculos, mas também, pelas coisas que dizia. Anton não entendia quase nada das suas digressões, o que tinha um impacto ainda mais forte em seu subconsciente, posto achar que este tipo de atividade e comportamento não combinassem com a sua pessoa. Achava que apenas pessoas de sua classe social fossem capazes de praticar violência. Pessoas tão estudadas,  tão eloqüentes, não podiam praticar tais atos. Não sabia que todos os seres humanos, independente de sua classe social e grau de instrução, são dados a praticar atos desumanos, animalescos.
-Vou matá-la neste instante se você não fechar a porta. – Disse o triste som da realidade.
Anton não entendeu nada além de “vou matá-la” e “fechar a porta”. Seus pensamentos estavam em ebulição e se misturavam com os sons ambientes o empurrando para o interior da loja, fechando a porta atrás de si. Na realidade, não sabia explicar o motivo de ter entrado novamente na loja, nem saberia, também, definir seus sentimentos naquele instante. Sabia, porém, que não havia retornado motivado por dores morais. Achava que moral era apenas o nome de uma força que pessoas das classes superiores utilizavam para manter todas as outras em seu devido lugar. Evidentemente, não saberia formular este conceito em palavras, justamente por isso o formulava em ações não tendo, por exemplo, nem um único pingo de vergonha por ter planejado desvirginar uma jovem garota em seu local de trabalho, além de ter  pensado seriamente em a abandonar à sua própria sorte.
Anton postou-se por trás do balcão e ficou a esperar que entrasse alguém. Olhava, nervoso, de um lado para outro na expectativa de fugir. Passaram-se alguns poucos minutos que, devido ao nervosismo e ansiedade em que se encontrava, imaginou terem sido trinta minutos ou mais. Não conseguia cochilar por sobre o balcão como em condições normais conseguiria. Suava fartamente e molhava com o seu suor toda sua camisa pólo, até mesmo as palmas das mãos estavam suadas, como sempre acontecia em momentos de nervosismo  e medo extremos.
O fato de Anton ser uma pessoa acomodada era confundido pelas pessoas ao seu redor, que achavam que ele era um tipo calmo. Longe estavam todos eles da realidade. A calma é uma virtude dos sábios e, nem por conhecimentos teóricos, nem por conhecimentos empíricos, podemos domá-la. Definitivamente, Anton não era o que poderíamos chamar de sábio.
Anton estremeceu ao ouvir a porta da loja ranger ao ser friccionada ao chão com força pra ceder passagem a duas mulheres que entraram com ar decidido como se não tivessem tempo a perder. Ao entrar, uma delas disse:
-Eu vim dez minutos antes e a porta estava fechada, algum problema?
Anton titubeou e quase gaguejando disse não haver problema algum.
-É, por que a gente fica preocupada, né? Dizem que tem dois caras rodando o bairro. Assaltaram a drogaria, a padaria, pra assaltarem vocês não custa. Ainda mais num feriado.
Anton apenas olhava e balançava a cabeça de modo afirmativo implorando que a mulher lesse em seus olhos não apenas desinteresse, mas também as palavras “cai fora!”. A mulher grávida, enquanto a outra conversava, foi pegar alguns pacotes de biscoitos e um pote de 400 gramas de doce de leite pastoso, ela estava com vontade louca de comer doce de leite com biscoito “cream cracker”, e neste momento já estava com o dinheiro na mão para pagar suas compras. “Menos mau, a grávida saindo é cada um por si.” Pensou Anton, enquanto empacotava as mercadorias.
-Está com pressa?  - Perguntou a mulher grávida.
-Não é pressa, é eficiência. – Disse Anton de forma amarga, fazendo com que a mulher percebesse que havia algo de errado acontecendo.
A grávida pegou suas coisas e saiu, imaginando que mesmo que uma pessoa fosse obrigada a trabalhar num feriado, deveria tratar bem os clientes da loja, pois, eles não tinham culpa alguma pelas injustiças que ocorrem no mundo do trabalho, na relação empregado-empregador.
A outra mulher depois de algum tempo, veio até o caixa com a cestinha cheia de produtos, colocou produto por produto sobre o balcão e ficou olhando o semblante descaído de Anton absorto na tarefa de registrar na máquina os preços dos produtos.
-Você não está bem. Dá para notar que alguma coisa o está incomodando.
Anton pensou em sair da loja junto com a mulher, mas como explicaria ao Sr.Assis a morte de uma jovem de 17 anos no seu escritório. Seria mandado embora na justa causa, sem direito trabalhista algum. Não podia se dar ao luxo de perder desta forma a oportunidade de ganhar dinheiro, ainda mais um dinheiro que é seu por direito. Ademais, não seria fácil conseguir um outro emprego com uma justa causa lhe servindo de companhia. Sem contar que havia também a possibilidade de ser acusado de ter facilitado as coisas para o bandido. “Tô ferrado!” pensava ele todo o tempo.
Entravam e saiam a intervalos de tempo quase regulares pessoas apressadas, pessoas carrancudas, pessoas calmas, enfim, várias pessoas e nenhuma delas, após a mulher que entrara junto com a grávida, perguntou se havia algum problema. Anton achava melhor que não lhe perguntassem a todo o momento se havia algum problema. Não queria mentir. Não por considerar a mentira como um desvio do ideal da moralidade, não queria mentir apenas para não se desgastar psicologicamente, já que para ele a mentira era um recurso válido somente quando a pessoa estava descansada e com força o bastante para sustentá-la se houvesse tal necessidade.
O que aconteceu de bom foi que o alto falante não emitia nenhum único ruído a mais de uma hora. Era bom não ser lembrado que havia um homem armado e beligerante que, de certo modo, tolhia a sua liberdade e tinha a previdência de saber mais do que ele próprio se podia considerar-se vivo ou morto. Isso, entretanto, não o tranqüilizava, muito pelo contrário, o fazia tamborilar nervosamente o balcão com os dedos. Estava numa expectativa devastadora e não conseguia concentrar-se no que acontecia no interior da loja.
Foi despertado do estado singular que se encontrava por um grito estridente vindo do alto falante:
-O rapaz de camisa pólo vermelha e bermudão escondeu algumas barras de chocolate dentro da camisa e você não vai fazer nada? Vai deixá-lo sair?
O rapaz assustou-se tanto quanto Anton e correu para a saída, abriu a porta e avistou do outro lado da rua no posto de gasolina uma viatura policial parada e dois policiais do lado de fora do carro em  uma conversa animada um com outro.
Certamente pensou que era melhor devolver o roubo e tentar conversar com o homem que falou ao microfone, que devia ser o dono da loja. Talvez ele não acionasse a polícia. Voltou para o interior da loja e viu que Anton, apesar de assustado, não saiu do lugar de onde estava para persegui-lo.
-Coloque as coisas que  roubou sobre o balcão e venha aqui atrás no escritório.
Os olhos de Anton queriam avisar para o rapaz loiro, bem vestido de no máximo dezesseis anos, que não fosse, mas os olhos não falam frases audíveis aos ouvidos, apenas ao coração. E o rapaz que fora pego em flagrante não conseguiu ouvir aviso algum. Anton sentiu-se um covarde em deixar que o rapaz fosse para o fundo da loja, mas, pensou que assim seria melhor, pois ele serviria de companhia para Jane, “é bem provável que ele será apenas mais um refém”. O garoto demorou algum tempo indeterminado no escritório junto de Jane e com homem que o havia chamado, e quando saiu tinha o rosto ruborizado e tentava impedir Anton de perceber que chorara. Não conseguiu, pois qualquer pessoa notava sem esforçar-se que não apenas tinha chorado, mas havia levado pelo menos um murro no rosto. Em um dos cantos da boca um pequeno ferimento acompanhado de um leve inchaço era bastante visível. Sem pedir licença foi para trás do balcão e sentou-se no chão, Anton não opôs resistência, imaginava o que ocorrera no escritório e sentia num cantinho oculto bem no fundo do seu coração uma enorme vergonha que preenchia todo os espaços em volta do cantinho e crescia mais. Veio, então, uma vontade insana de gritar e chorar, Anton segurou com força no balcão e por pouco não desmaiou. O rapaz poderia sair da loja, mas, sentia muita dor, medo e vergonha por ter sido estuprado.
Eram quase onze e meia da manhã quando o homem do escritório começou a discursar sobre propriedade privada, capital, lucro, Estado e, por fim, sobre o roubo e o furto de lojas. Explicou e exemplificou como as lojas pagam roubos e furtos, e como os clientes pagam por meio de preços mais altos e perda da liberdade individual por meio de rígida vigilância ao entrarem nas lojas. Estava falando sobre a impotência do homem moderno em meio ao aumento da vigilância e a perda da privacidade na sociedade panóptica na qual vivemos, quando Albert entrou na loja e cumprimentou Anton. O auto-falante parou de falar, sempre que chegava alguém, o homem que falava pelo auto-falante parava de falar, continuando seu discurso após a saída da pessoa, mas, pela familiaridade do cumprimento de Albert ele deduziu que este seria um outro funcionário da loja.
-Albert, tem um maníaco no escritório com uma garota, ele me bateu e ameaçou matá-la caso eu saísse para buscar ajuda ou falasse para alguém sobre o que está acontecendo. Aqui atrás do balcão sentado no chão tem um garoto, ele provavelmente bateu no garoto e o ameaçou, ele já está sentado a meia hora e não falou nada, apenas chora. Acho que você não tem nada a ver com isso, então, deveria sair e procurar ajuda. Ou caso julgue ser impossível simplesmente ir embora, não vá para os fundos da loja, por nada nesse mundo.
Albert olhou atrás do balcão e viu o garoto arranhando o chão com toda a sua força. Albert sentiu calafrio ao ver que havia sangue escorrendo nas pontas do dedo do garoto, pela fricção contínua com o chão. Não podia sair depois daquela imagem. Albert sabia que não há imparcialidade no mundo em que vivemos, não havia nenhuma chance dele sair da loja, tentando manter-se neutro e usando como desculpa o argumento de que iria buscar ajuda, e não sofrer emocionalmente caso algo pior acontecesse com aquelas pessoas. Seria muito melhor sofrer junto com outras pessoas um sofrimento físico, e até psicológico, do que sofrer um tormento moral, emocional e de princípios.  Seus pais haviam lhe ensinado que a dor que dói mesmo é a dor de consciência.
As pessoas continuavam entrando e saindo da mercearia e ninguém desconfiava de nada. Eu estive na loja neste momento e sai pouco antes das duas horas, quando o sol estava em seu máximo, sendo justamente por este motivo que não notei nada estranho em ver a ambos os rapazes suarem fartamente. Não vi o garoto que estava sentado no chão por dentro do balcão. Fui um imbecil, não percebi nada. Às duas horas da tarde, dois homens entraram na loja e anunciaram um assalto. Anton estava em seu lugar atrás do balcão e Albert retirava produtos do lugar, limpava a prateleira e arrumava-os novamente cada um em seu lugar.
Todo o dinheiro deveria ser entregue. Anton deu a um dos assaltantes uma chave e disse que era do escritório atrás da loja, mas, não o era. Mentiu. Um dos homens foi até o escritório e o outro continuou no interior da loja apontando uma arma para os dois funcionários e ao mesmo tempo vigiando o lado de fora. Era arriscado para todos, mas, Anton pensou que, talvez, esses assaltantes poderiam substituir a polícia.
Foi ouvido um disparo, o homem que havia ficado no interior da loja dirigiu-se para o escritório. Anton ligou para casa do senhor Assis, que era próxima dali, mas na pressa não explicou detalhes, desligou e ligou também para a polícia. Outro disparo foi ouvido e o homem que saiu pela porta não era nenhum do dois assaltantes que havia entrado a pouco. O homem apontava sua arma para Anton e gritava todo o tempo. A idéia que Anton teve, desde o princípio fadada ao fracasso, não deu certo. E, mesmo se desse, os bandidos sairiam do escritório enfurecidos.  Naquele momento, por agir precipitadamente, Anton condenou várias pessoas à morte. Ele nunca, mesmo depois de muitos anos, conseguiu entender o motivo exato de ter feito o que fez.
Assis, que morava perto de sua loja, chegou antes que a polícia. Parou o carro e entrou na loja empurrando com força a porta, nem bem se encontrou dentro da sua loja, o homem causador de toda esta tragédia fazia mira em seu rosto. O diálogo neste momento foi simples, banal, e não acrescenta muito à nossa narrativa. É importante dizer que o Sr.Assis num momento em que o homem virara seu olhar para Anton, segurou na arma e no braço do homem jogando o peso do seu corpo sobre ele. Ambos caíram e rolaram pelo chão numa luta rápida que terminou ao som de um disparo, o terceiro disparo do dia num intervalo pequeno de tempo entre o primeiro e o segundo. O segundo e o terceiro.
Seria algo feliz dizer que quem levantou-se do chão foi o Sr. Assis, mas infelizmente quem levantou-se foi o homem. Entretanto dava para ouvir, e ver pela vidraça a chegada de muitos carros da força policial. Ao ouvirem o primeiro disparo os vizinhos do mercadinho ligaram para a polícia, e em  poucos minutos, o mercado estava cercado.
O homem andou para um lado e para o outro, viu policiais armados descendo dos carros e imaginou que vários deles já estavam naquele momento rodeando a loja. Olhou para Anton com desprezo, viu que Anton estava de pé apenas por estar se apoiando sobre o balcão. Sabia que a polícia o mataria em alguns minutos, muito antes da chegada da imprensa. Levou a arma ao ouvido e disparou. Anton e Albert viram de duas posições espaciais diferentes o mesmo evento conseqüente a todos os homens, sobrevir a seu patrão e a seu algoz. Viram como um corpo cheio de vida e de movimento pode numa fração de segundo tornar-se inerte, e viram também como um corpo cai pesado ao chão muito semelhante a um saco de cimento solto no ar, quando uma bala atravessa sua caixa craniana.
O saldo do feriado foi macabro: cinco mortos (quatro homens e uma garota) e três feridos.
O motivo que levou a este acontecimento provavelmente jamais saberemos. Ficamos sabendo depois, apenas o nome do homem que trouxe tanto terror a um feriado nacional, seu nome era Guy... Guy de Maupassant.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Juiz

O Juiz
            Deixa eu passar esse vacilão. – Dizia num tom de clemência um garoto que tinha não mais que treze anos de idade, ao dizer estas palavras, não estacava para ouvir o som de sua própria verberação, ao contrário, gesticulava com uma pistola na mão direita, apontando hora para o rosto de Rogério, hora para os céus, hora para o chão.
 Ao mesmo tempo, um outro garoto, apenas um pouco mais velho que o primeiro, aproximou-se de Rogério e disse ao seu ouvido numa altura suficientemente boa para que todos os outros ao redor ouvissem:
              -Você está com medo? Você tá tremendo? Na hora de fazer besteira tu não pensou, otário!
Um outro garoto dizia querer dar um tiro em cada uma das mãos de Rogério, e pedia permissão a um homem que dividia com Rogério o centro das atenções. Sentado num banco de madeira em baixo de uma árvore no terreiro de uma casa modesta no alto de um morro, tal homem representava para os ali presentes o papel de juiz. Não portava nenhuma arma, mas, dois dos vários homens que o rodeavam, eram seus seguranças.  Portavam pistolas e fuzis e eram seus protetores. Braço direito, braço esquerdo.
Alguns não rodeavam Rogério, ficavam de longe olhando e comentando. Falavam alto, falavam baixo. Uns diziam que seria melhor matá-lo, outros diziam que uma surra bastava, mas como todo júri que se preze, não havia apenas duas opiniões. Mesmo sendo estas duas as opiniões mais encontradas, havia presente cidadãos que acreditavam que Rogério não merecia punição alguma. Havia presente cidadãos que acreditavam que quem deveria levar uma surra, e até mesmo ser morto, era o acusador de Rogério. Destarte muitas eram as opiniões quanto ao futuro de Rogério, lamentavelmente, as opiniões mais favoráveis a ele eram as que tinham menos acólitos.
Rogério estava de pé no meio de várias pessoas. Vários homens, vários garotos. Havia fora desta roda principal algumas garotas que olhavam curiosas para saber o que aconteceria com ele. Rogério era negro. Mas hora ficava amarelo, hora ficava azul. Suas pernas tremiam, sentia gotas de suor escorrendo por elas, devido ao nervosismo extremo que esta situação provocava, e devido ao calor de um sol de quarenta graus, que era elevado à décima potência por vestir calça “jeans” e camisa pólo. O incômodo era grande, daria qualquer coisa para poder abaixar uma das mãos e coçar as pernas, mas temia que qualquer movimento inesperado que fizesse poderia causar reações ruins. Melhor que morrer era poder sentir esta agonia de gotas de suor descendo pelas pernas. Pareciam pequenos insetos descendo lentamente suas pernas. Qualquer coisa era virtualmente melhor que ser morto por tiros de fuzis.
Rogério descobriu que chamavam seu juiz de Azul. Azul era mais que um mero apelido, era a esperança de redenção, ou quiçá de punição. A vida de Rogério dependia de Azul ter tido uma boa noite de sono e estar de bom humor, pois o tratamento dado a ele, Rogério, recrudescia cada vez mais. Alguns dos ali presente  apontavam armas para a cabeça de Rogério e clamavam: “Azul, deixa eu dar um tiro na mão desse cara”, “Azul”, “Azul”, “Azul”. Azul mantinha-se impassível a todos os pedidos que lhe chegavam aos ouvidos. Olhava para Rogério e tentava avaliar não a verdade, pois para ele, a verdade era irrelevante e opunha-se quase sempre à realidade observável. Azul achava que toda forma de poder deveria criar suas próprias verdades se não quisesse perder suas bases de sustentação. Pensava nos resultados que sua decisão poderia causar em sua força e liderança. Se não fizesse nada com Rogério poderia ser considerado um homem fraco, o que faria seus próprios seguranças voltarem-se contra ele na primeira oportunidade, mas se fizesse a vontade desta ala mais radical de seu bando, poderia fortalecê-los de tal forma que depois não conseguiria controlar os arroubos de suas vontades. Azul olhava para Rogério, mas sem vê-lo. Estava só com seus pensamentos tentando prever os resultados de seus atos. Nem mesmo duas bacantes quase nuas que se aproximaram e se enroscaram em seu braços conseguiram desviar sua atenção da figura de Rogério.
Rogério da mesma forma que era objeto de estudo para Azul, estudava, também, as expressões dos homens que o rodeavam. Não havia nenhum conhecido seu entre eles, mas, quem sabe um deles poderia sentir sua inocência e aflição, e comprar sua causa. Mas não conseguia pensar direito. Sempre era interrompido por vozes, de vários rapazes dizendo-lhe ao ouvido: “Está com medo?” “isso é pra você aprender”, “vou te dar um tiro”.
“Ninguém vai ouvir minha versão?”, Perguntava-se Rogério. Uma sensação de impotência o invadia e foi tomando conta de suas mais íntimas esperanças. Neste momento ele não pensava no futuro. Que futuro poderia haver para pessoas que não possuem o controle de suas próprias vidas? O que era, e onde se escondia neste momento a tão falada liberdade? “Na favela, a única liberdade que existe é a liberdade para morrer”, pensou Rogério, amargurado com o fato de que não existe liberdade, não no pleno sentido da palavra. Não havia futuro para Rogério nem para milhões de pessoas no mundo que estão, de uma maneira ou de outra, frente à frente com a morte. As pessoas estão morrendo mundo à fora. E enfrentam a morte tão impotentes quanto Rogério, e enfrentam a morte tão resignados quanto Rogério.
O juiz quebrou seu silêncio e perguntou ao menino, pois mesmo que o chamemos de traficante, bandido, marginal, menor, ou qualquer outra alcunha que reflita nosso medo e preconceito, era apenas um menino, apesar da pistola na mão direita:
            -Menor conta pra nós o que aconteceu.
A voz era límpida e máscula, falou a gíria “menor” com certa relutância como se soubesse que o “menor” não era um “menor’ e sim uma criança, semelhante a todas as outras crianças, exceto pela arma que pendia de sua pequena e delicada mãozinha. Qualquer pessoa que prestasse atenção notaria que não era acostumado a falar gírias e que se as falava, era para que não fosse considerado diferente dos demais. Sua voz era pronunciada com uma firmeza que explicava por que estava na posição de juiz.
E o garoto com a pistola na mão direita, foi para o centro da roda que havia se formado originalmente em volta de Rogério e, com as pupilas dilatadas, começou a contar sua versão da história.
          -Azul, eu estava no meu posto na entrada da favela e esse vacilão tava me encarando, fui perguntar qual era a dele e ele já veio me batendo, me esculachando, sorte dele que eu tava na mão, se eu tivesse trepado tinha dado um tiro na cara dele.
        -Mentira! – Gritou Rogério com um olhar transtornado que mirou quase ao mesmo tempo o menino, seu algoz, e o seu juiz. Eram, em verdade, as duas pessoas mais importantes em sua vida naquele momento, mesmo que Rogério não soubesse sequer seus nomes verdadeiros.  Dependia mais deles do que de seus entes queridos.
Ao ouvir o grito de Rogério desmentido sua versão do incidente, o menino que não passava de um menino, o menino que não passava de um homem, bateu com força no rosto de Rogério. Um tapa estrondoso que substituiu um beliscão na tarefa de comprovar que Rogério não estava sonhando.
Os seguranças apontaram suas armas para o menino e Azul disse irritado e com alta voz:
          -Você tá maluco menor? Tá maluco? Você diz que o cara te bateu, e só porque ele não concordou com tua história tú bate na cara dele? Quem deixou tú fazer isso? Tirem a arma dele, tá muito valentinho. – A pistola foi retirada do menino, que por muito pouco não caiu no choro.  -Ai cara, fica na moral, alguém deu permissão pra tú falar? Então só fala quando eu mandar. Continua menor.
           -Era só isso só, esse cara me bateu sem mais nem menos, ele merecia ser colocado no pneu. – Falou o garoto esforçando-se para conter as lagrimas. Tinha medo de que o chamassem de criancinha, filhinho da mamãe, bebêzinho. Era já um homem, não convinha ser tratado como criança, por este motivo, era violento. Queria que o respeitassem. Deveria segurar o máximo possível o choro, não era apenas um menino chorão. Era um homem.
Dirigindo-se para Rogério, Azul mandou que contasse a sua versão da história e acrescentou o que foi entendido como uma brincadeira, “aproveita que hoje eu tô bom!”, disse Azul sem rir nem demonstrar nenhuma outra reação que comprovasse que estava realmente bom.
         -Moro aqui perto, na rua tal, isso a bem mais de quinze anos. Estava no Bar do Bigode tomando uma cerveja com uns amigos como faço todo sábado. Nunca me preocupei com nada, sempre deixei celular sobre a mesa, carteira, mochila, nunca nenhum moleque roubou nada, nem meu nem de meus amigos. Hoje, esse moleque pegou meu celular, que estava, como nas outras vezes, sobre a mesa do bar, e saiu correndo aqui pro morro. Eu sabia que se ele entrasse aqui eu nunca mais veria meu celular. Não pensei em nada, corri atrás dele como um louco, esbarrei em pessoas que passavam calmamente na rua e não tive tempo pra pedir desculpas, mas, consegui alcançá-lo antes da primeira entrada, tomei o celular dele e dei uns dois ou três cascudos bem dados, pois achei que era muito desaforo. Nesses quinze anos que moro neste bairro nunca fui assaltado por ninguém do morro e agora, um moleque, me rouba e corre pro morro, não, é desaforo!!!
Vários dos ali presentes faziam seus próprios julgamentos sobre o que acabaram de ouvir. Uns diziam entre si que Rogério deveria ser liberado, uns diziam entre si que o menor deveria receber uma lição. Os que achavam que Rogério deveria receber uma lição não falavam nada pois sabiam que agora eram uma minoria constituída, especificamente, pelo menino que roubou Rogério e por outros poucos que faziam o mesmo que ele, ou seja, roubar no entorno do morro e contar com a proteção do tráfico para ficar impune.
          -Continuei com meus amigos tomando cerveja, - Rogério continuou sua narrativa encontrando cada vez mais ouvidos receptivos à sua causa. – e uns quinze, vinte minutos depois, chegou um cara com duas pistolas na cintura por baixo do blusão e disse que eu teria de subir o morro porque você queria falar comigo, eu tentei explicar toda a história, mas o cara disse que eu não tinha outra escolha a não ser subir com ele. Um dos meus amigos queria subir comigo, mas o cara não deixou, então ele disse que iria falar com um primo dele para tentar aliviar a minha situação.
Nem bem Rogério acabou de falar, uma perua com os vidros escuros se aproximou da casa e desceram homens armados, quase tão bem armados quanto os homens de Azul, a diferença maior entre os que saíram do carro e os que já estavam no julgamento era que estavam em menor número, eram apenas quatro ou cinco homens. Um deles desceu do carro desarmado e com um sorriso de um canto a outro do rosto, parecia que estava chegando em casa após uma longa viagem. Ao vê-lo Azul sorriu um sorriso gostoso, desses que guardamos para nossos melhores amigos depois de uma longa temporada sem vê-los. Azul abriu os braços e caminhou em direção do homem que descera do carro sorrindo. Alguns de seus homens apontaram suas armas para os homens que acompanhavam o conhecido de Azul, mas estes, fingiram que não viram pois não apontaram suas armas em revide.
          -Qual é Doda, meu parceiro! – Disse Azul abraçando calorosamente o recém chegado ao julgamento. – Quanto tempo parceiro!
          -Ai Azul, vim te pedir um favor, tá ligado! Vim pedir pra tu liberar  o cara que bateu num menor lá no pé do morro.
         -Ele tá ali. – Azul apontou com a cabeça para Rogério. – Agente tava falando dele agora mesmo, neste instante, quando tú chegou.
          -Azul, libera o cara, quebra essa pro teu parceiro!  Ele é trabalhador, mora aqui no pé do morro, é amigo dum primo meu que me garantiu que o cara é gente boa. Tu sabe que se eu não tivesse certeza disso eu não viria aqui me intrometer nos teus assuntos. O cara nem é usuário de nada. Quebra essa pra mim cara.
         -Não esquenta Doda, tu torna as coisas mais fáceis para mim parceiro. – Virou-se para os seus homens e deu o veredicto, rápido, firme, forte e seco. – Liberem o cara e bota o menor no pneu já que foi ele que deu a idéia. Avisem pra todo mundo que quem roubar na favela ou em volta dela vai rodar, não quero nem saber, vai rodar. Pode ser meu irmão, vai rodar. – Abraçando Doda e conduzindo-o para sua casa, Azul continuou, - Tu não sai daqui sem tomar umas cervejas.
Foram caminhando, conversando e sorrindo, sorrisos como o de garotos que fizeram um gol depois de uma tabelinha de toques belos e harmoniosos, levando seu time à vitoria. Comeram e beberam, conversaram e sorriram até altas horas da noite, despediram-se e foram dormir felizes por terem um ao outro como amigos, verdadeiros amigos.
Feliz, também, foi a noite de Rogério. Desceu correndo os becos e ruas baixas do morro. Abraçou a todos os seus entes queridos como se fosse a última vez. Beijou sua namorada e sentiu a sua pele cálida e macia. Sorriu para todos e para a vida. Contou mais de dez vezes em uma hora a sua história. Quando tarde, muito tarde, deitou-se para dormir, não conseguiu. Esqueceu que no mundo havia injustiças, não pensou em liberdade, nem em democracia, nem que neste momento, em que rolava de um lado para o outro da cama, pessoas morriam mundo à fora. Não pensou no menino que, provavelmente, morreu chorando, só, completamente só, exatamente como morrem todas as pessoas, quer seja um homem ou um menino.  Pensava apenas que era muito bom viver e passou toda a noite com um sorriso nos lábios.  

domingo, 7 de setembro de 2014

Como se Prepara um Marinheiro

Como se Prepara um Marinheiro



João Antônio era marinheiro da marinha mercante brasileira. Por isso, viajava Brasil à fora e América Latina à fora também. Geralmente não demorava nos portos em que aportava, mas em algumas cidades ficava muitos dias, em outras ficava mesmo meses. Seus amores eram como se fossem uma extensão natural do seu trabalho, havia vezes que amava alguns dias um amor tão avassalador e profundo que só era esquecido com a chegada, numa outra cidade, de um outro amor avassalador e profundo que duraria por sua vez, até o recebimento de nova designação no trabalho.
João Antônio já estava acostumado com a fugacidade de seus amores. Fora amado e amara uma mulher chamada Rose em Salvador, outra que chamava-se Cláudia em Porto Alegre, Conceição no recife, Amélia em Santos, Núbia em Natal, Carolina no Rio de Janeiro, et cetera, que pensara saber todos os meios possíveis e impossíveis de se abandonar uma mulher, sem com isso sofrer emocionalmente. Pensava ser um mestre na arte de terminar um relacionamento amoroso sem nenhum revés emocional.
Anotou certa vez em sua agenda uma frase: “como se prepara um marinheiro”, achava que deveria existir um livro com este título que ensinasse homens a porem fim em relacionamentos mal sucedidos ou não.
Estava tão seguro de si, que não esperava encontrar dificuldades para terminar com Dorinha, mulher que conheceu em Sepetiba e que amou mais do que amara até então  qualquer outra mulher. Seu amor por Dorinha estava durando mais do que o tempo previsto para a estada naquela cidade. Dentro de uma semana teria de fazer as malas e embarcar num navio rumo aos braços de outra cidade, e por extensão, de outra mulher.
Mas a danada da Dorinha não facilitou as coisas para nosso amigo João Antônio. Era uma guria de cabelos longos e encaracolados e sua pele tinha cor de jambo, seu sorriso melífero atraia outros sorrisos a si como, na primavera, as flores atraem as abelhas vindas de todos os cantos atraídas pela promessa do néctar. Seu todo era formado pelas mais divinas partes, tornando-a a mais perfeita realização da natureza, suas pernas e braços, bustos e quadris pareciam terem sido arrancadas à força das mais lindas mulheres apenas para comporem aquela Vênus suburbana. Entretanto, não possuía  apenas  dotes estéticos, era uma ótima cozinheira, sempre preparava os mais exóticos e gostosos pratos para o deleite de João Antônio, que se não estivesse preso pelo jeito meigo de sorrir e pelas belas formas da morena, certamente havia de ficar preso a ela, Dorinha, “pelo estômago” como nos diz esta frase clichê que, neste caso, corresponde a mais justa medida.
Dorinha além de muito boa cozinheira era também dona-de-casa exemplar. Sempre mantinha a casa limpa e as panelas brilhando. Pode parecer fácil, mas manter as panelas brilhando não era tarefa facilmente realizável por qualquer pessoa. Sua mãe tinha uma pensão acolhedora e que por isso atraia muitas pessoas. A comida da mãe de Dorinha era ainda melhor que a dela, e era tanta que apenas panelas enormes podiam dar conta de tanta comida, de tanta procura. E acabava ficando com Dorinha a maior parte do trabalho.
Dorinha era desejada por todos os homens de seu bairro e adjacências, quando à sete meses João Antônio aportou em Sepetiba tornou-se o mais invejado de todos os homens, por ter conquistado a mulher mais linda e difícil da região. Diziam que ela era bastante geniosa, orgulhosa e cabeça dura e que era por isso que não namorava com niguém.
Sempre que retornava das viagens, João Antônio, mostrava para seus amigos as fotos que tirara ao lado da mais belas mulheres e tornava-se ainda mais popular. Não era isso o que queria. Ser popular era algo que acontecia quase naturalmente, por ser bonito e por ser uma pessoa que tinha a estranha capacidade de ser transparente e natural, evocando nas pessoas ao seu redor estas mesmas qualidades, atraía a si outras pessoas. Era como se João Antônio tivesse em mãos uma longa corda e uma caçamba e a usasse para descer esta caçamba ao mais profundo âmago dos sentimentos humanos e puxar para fora as melhores qualidades de cada pessoa. Eis a verdade: João Antônio sabia fazer as pessoas ao seu redor sentirem-se bem.
Desde que sua mãe falecera sentira-se abandonado. Um abandono real que, entretanto, não queria se reconhecer como abandono e era sempre afogado nos braços dos amores fugazes que lhe caíam no colo em cada bar que parava para matar a sede, em cada restaurante que parava para matar a fome ou em cada ponto de ônibus onde estacionava na espera de um ônibus que, às vezes, demorava para passar.
João Antônio procurava nas mulheres o que tivera apenas na imagem de sua mãe. Não preocupava-se com beleza física, era a beleza que se aproximava dele e como era cômodo esta situação, deixava ela continuar pois sabia que ela não iria durar. A beleza é ainda mais fugaz que o amor. Em verdade, João Antônio procurava uma mãe. Uma mãe que estava morta e enterrada havia muito tempo. Nunca tivera um relacionamento com uma mulher que fosse uma boa dona-de-casa e cozinheira até o momento que conhecera Dorinha, todas as outras eram lindas, mas não possuíam qualidades desejáveis em uma mãe.
João Antônio olhava fixamente para o calendário, constituindo-o em objeto de culto. Reparava que o tempo é um amo inflexível que nos expulsa de seus territórios de forma brusca e com mãos de ferro nos impõe seu domínio hora após hora no decorrer dos anos. Faltava então uma semana para o dia marcado para zarpar de Sepetiba. Seu coração estava dorido por pensar que em poucos dias abandonaria a mulher que potencialmente seria o maior de seus amores, o portal para o paraíso.
Sentado à mesa na modesta cozinha da casa de Dorinha, João Antônio saboreava com prazer inaudito um prato composto de arroz, feijão, arraia ensopada e um pirão feito com o caldo do peixe. Ele comia e olhava, vez por outra, de soslaio, para Dorinha, que impaciente perguntou-lhe:
-Fala o que você tem João, quando você fica me olhando assim de rabo-de-olho, alguma coisa tem!
-Nada, eu to maravilhado com sua comida, esta maravilhosa!
-Você não me engana homem, desembucha logo!
“Até nisso ela é parecida com minha mãe”. – Pensou ele – “com este seu jeito de olhar, parece ler meus pensamentos”.
João Antônio sorriu, um sorriso vencido, envergonhado de sua fraqueza, baixou a cabeça desviando seus olhos dos olhos perscrutadores de Dorinha, que cruzava os braços, como se em tal posição seus ouvidos funcionassem melhor, era simplesmente impossível esconder seu segredo por mais tempo ou mentir.
-Vou viajar Dorinha, vou novamente para Natal.
-E você está estranho assim por causa disso? Você só vive em viagens homem, não precisava temer me contar nada.
Um silêncio desagradável caiu naquela cozinha que não tinha azulejos nas paredes sobre o reboco. João ainda desviando seus olhos dos de Dorinha, denunciou que devia haver mais coisas a dizer. Dorinha, deixando de levar a comida á boca, mas mastigando levemente o garfo, esperava ouvir mais algumas palavras que elucidassem mistério do silêncio que atrapalhava seu jantar e tornava a comida preparada com todo carinho uma mistura intragável. Esperou em vão.
-Tu vais demorar em Natal? – Perguntou Dorinha com uma angústia que crescia na garganta, uma secura, um nó que era o sintoma físico de uma angústia emocional por temer a resposta de sua pergunta.
-Vou demorar alguns meses, lá tem muito trabalho.
Passado uns três minutos disse Dorinha quebrando um novo silêncio  que intrometera-se na conversa:
-Eu não poderia ir com você?
Passando a mão direita nos cabelos, João Antônio relutava em dizer que, provavelmente, não veriam-se nunca mais após sua partida. Não precisava dizer nada, Dorinha sabe, apenas sabe que é isso o que João intenciona.
-Vou embora na próxima segunda-feira, não tem como você ir... pelo menos não agora.  Quem sabe depois de um tempo...
O jantar havia terminado mal para Dorinha, pois sabia com um saber profundo que mal também terminara seu próprio relacionamento. Nunca amara tanto a um homem e nunca antes havia confiado em levar para sua casa uma pessoa do sexo oposto. Sabia o quanto a língua dos vizinhos pode arruinar a reputação de mulheres solteiras que não tomam cuidado com isso. Não queria que a pequena pensão de sua mãe fosse comparada com um estabelecimento vulgar. Os dias até a viagem de João Antônio passaram-se chochos, arrastados, sem muita conversa entre os dois. Dorinha já não sorria nunca e quando se via sozinha em casa  chorava copiosamente. João Antônio por sua vez, também estava triste. Só em pensar que iria ficar distante, muito distante de Dorinha, já sentia saudades. O coração apertava e algumas poucas lágrimas involuntárias surgiam nos cantos dos olhos. Onde encontraria outra mãe? Já perdera uma mãe, perderia também outra? Sentia-se fisgado de tal forma que decidiria não mais ir a Natal. Pedira demissão, comprara uma aliança e no dia marcado para viagem, pediria Dorinha em casamento. Sabia que isso era uma loucura, mas, o amor em si é uma loucura, um tipo de sentimento que nos faz perder os sentidos e agir, muitas vezes, como loucos. No dia da viagem na hora da despedida pediria Dorinha em casamento. Seria romântico, como nos filmes.
João Antônio e Dorinha conversaram pouco nos dias seguintes à noite da  revelação de que João iria partir. Nem mesmo olhavam-se nos olhos quando se dirigiam um ao outro. João Antônio sentia uma vontade infinita e crescente de terminar sua farsa e dizer a Dorinha que não iria jamais afastar-se de seus olhos, de sua pele cheirosa e macia, de seus abraços apertados e seus beijos de mel. Igual ao infinito universo em expansão no qual existimos como entes, esta vontade crescia e avançava para o nada e, quase fez com que João Antônio contasse a verdade para Dorinha, quando ela perguntou-lhe, no dia anterior ao marcado para viagem, se não havia mesmo como adiar sua partida.
         -Não, não há como adiar a viagem. Você sabe que preciso deste emprego... se eu não for posso ser dispensado. – Disse João Antônio, antes de explicar que o seu era um bom emprego e que se saísse dele, poderia ser muito difícil arrumar um outro emprego. - Tentei falar com meu chefe, mas ele nem deu ouvidos à minha proposta. – Verdade. – Falou que todo dia havia uma fila de pessoas pedindo uma vaga. – Mentiu, mas tão mal que não convenceria nem mesmo uma criança. – Há um verdadeiro exército de reserva, o que faz com que até empregos ruins sejam encarados como um tipo de artigo de luxo.
      -Tá bom, isso tudo eu sei, mas ainda  não entendo o motivo de não continuarmos nosso relacionamento mesmo com a viagem. – Disse Dorinha em algum ponto não determinado entre confusão de espírito e queixa.
      A vontade, a mesma vontade de dizer a verdade logo de uma vez, sem titubear, e que crescia mesmo que paradoxalmente já fosse infinita, veio à boca de João e foi contida apenas por ele ter cerrado com força os dentes num ato de puro reflexo. Mas, impertinentemente, a verdade ficou em sua boca trancada e João Antônio não conseguiu pronunciar nenhuma palavra. Porém, não suportaria continuar por muito tempo como alvo dos olhares esquadrinhadores de Dorinha. Tinha de falar alguma coisa, pois era isso o que ela esperava naquele momento, e João, como todo homem, apenas faz o que as mulheres esperam que eles façam, mesmo que às vezes não sejam compreendidos. Então, falou:
         -Eu não acredito em relacionamentos à distância. Amor à distância é tão real quanto Paris é real para mim ou para você que nunca fomos e, talvez, nunca iremos até lá.
          Estas palavras foram pronunciadas por João Antônio com uma voz que não era a sua, é bem provável que foi por este motivo que elas saíram de forma brusca e rude, ácidas e ignorantes. João falou assim, por entre os dentes, para não permitir a fuga da vontade de dizer a verdade que ainda estava em sua boca, que ele juntou com grande quantidade de saliva e engoliu de uma única vez transpondo a soleira da porta, ao sair para rua em busca de um abrigo algures, que o protegesse dos olhares de Dorinha que comunicavam com mais vigor que qualquer palavra o grau de seu desapontamento e agravo.
        Eram já altas horas quando João Antônio retornou. Dorinha dormia trancada no quarto. João dormiu na sala e, mesmo desconfortável no pequeno sofá, sonhou sonhos bons. Acordou com uma estranha certeza de que a vida seria muito melhor para os dois e para o mundo. Se a felicidade está na forma como vemos o mundo, não seria difícil alcança-la, pois seus olhos viam tudo com mais cor e clareza.
          Era um perfeito dia de primavera. Dorinha não estava nem triste nem alegre. Pediu para João Antônio ir até o sacolão comprar legumes e verduras, os quais precisava com urgência. Disse num tom de voz seco que se ele não quisesse ir, ela mesma iria sem problemas. João Antônio foi e não demorou na rua como, às vezes, costumava fazer. Ao voltar as gigantescas panelas já esperavam limpas. Haveria muita comida, cozida da forma especial como só Dorinha sabia fazer. João ainda ajudou a picar cebolas, tomates, pimentões, salsa, cebolinha, coentro, descascar batatas mas, não havia carne para tanto tempero. Perguntou se havia necessidade de ir até o açougue. “Carece não homem. Por que está tão prestativo se você já vai embora?” Foi a resposta com o mesmo jeito seco e indiferente que ela sabia tão bem ostentar.
            -Vai me ajudar com o cosido?
            -Vou.
           -Então bebe esta vitamina e come este pão, que eu preciso de um homem forte para me ajudar com as panelas, já que vai ser a última vez.
            Enquanto comia e bebia, João pensava: “Vou ajuda-la até tarde; fingir que esqueci o horário da viagem e quando ela perguntar se não vou, vou até o quarto e falo que  buscarei as malas. Volto com a aliança e peço-a em casamento.” Ao acabar de comer João sentiu-se tonto e desmaiou. Dorinha pegou uma faca amolada e cortou a barriga de João, colocando seus órgãos internos numa panela, gordura em outra e, ainda em outra panela coletou um tanto de sangue. Cortou um tanto de carne que dava para fazer um cozido para muitas pessoas, misturou com outros ingredientes do cozido, vinagre, pimenta do reino, alho e sal. Temperou e levou para o fogão, cozinhando em fogo brando.

sábado, 6 de setembro de 2014

Feliciano Eustáquio de Souza

Feliciano Eustáquio de Souza



Se alguém perguntasse a meu querido avozinho qual era o seu nome, ele não se contentava em responder apenas Feliciano ou senhor Feliciano. Sempre respondia seu nome completo: Feliciano Eustáquio de Souza. O nome era como se fosse um troféu para ele. Sempre dizia que era pobre sim, mas, tinha o nome limpo, limpo como o céu dos dias de dezembro e que a única coisa que tinha na vida era o seu bom nome. Eu sempre retrucava de forma irônica que se Feliciano Eustáquio fosse um bom nome, eu tinha um nome de rei. Eu não zombava do vovô por não gostar dele, muito pelo contrário, eu implicava com ele com ciúme do meu irmão mais velho que era o queridinho do vovô  e recebia dele muito mais de seu carinho e atenção que eu.
Meu avô foi roupeiro do Botafogo por muito mais de vinte anos e não havia nada no mundo que ele gostasse mais que futebol. Ele falava demoradamente de nomes como Ademir da guia, Dada Maravilha, Rivelino, Pelé e por ai seguia numa longa lista de nomes que nunca fizeram nenhum sentido para min.
Eu ficava rindo, por isso ele tornava dura a expressão do seu rosto e me chamava de debochado, mas bem que eu gostava de ouvi-lo. Meu irmão sempre ganhou mais presentes do vovô do que eu e minha irmã. Toda vez que ia lá em casa vovô levava alguma coisa para o meu irmão, que depois ficava zombando de mim. Houve até discussões entre mamãe e vovô por este motivo. Mamãe dizia que se um fosse receber presente os outros tinham de receber alguma coisa também, pois se eram três crianças, deveriam ser três presentes, ou então, se não houvesse condição financeira, e nunca havia, para comprar um presente para cada criança, pelo menos a cada visita deveria ser um presente para cada uma das crianças. Isto seria justo. Mas vovô nem queria saber, sempre trazia presente apenas para o meu irmão.
  Meu irmão, oportunista como ninguém mais, ficava puxando assunto com vovô fazendo-lhe perguntas sobre futebol. Se eu fechar os olhos posso vê-lo com tanta nitidez, que chego a esquecer que ele faleceu a mais de cinco anos. Camisa xadrez, calça social clara, formando um tipo de uniforme padrão que associado a um jeito de andar com os ombros meio curvados como a indicar que carregara as dificuldades da vida neles por muito, muito tempo. Meu avô era um aposentado comum, destes que abundam no bairro do Engenho de Dentro.
Meu avô tinha os cabelos bem branquinhos, a boca pequena perdida num rosto largo e os olhos eram glaucos, escondidos atrás dos óculos de modelo antigo, e usava chapéu, em suma, era um típico avô não devendo nada a nenhum outro avô.
Certa vez vovô contava com empolgação para meu irmão que Zico era chamado de galinho de Quintino não apenas por ser franzino e ter o nariz adunco, mas porque ele na frente de Garrincha era um jogador muito inferior, “É pinto! É pinto!” dizia o vovô. Dizia que de pinto para galinho era “coisa poca”. Meu irmão ouvia tudo isso e fingia interesse, sempre pensando no presente que ganharia na próxima visita e como eu não tinha nada a perder, ficava rindo tanto que chegava a chorar de rir.
Eu gostava de ouvir rock’n’roll, mas quando o vovô chagava lá em casa, tinha de desligar o rádio ou o velho toca-discos, pois vovô ficava repetindo de forma incansável enquanto eu não desligasse o aparelho de som: “Rock é coisa do diabo!” e eu dizia só para perturbá-lo ainda mais:
- Velho, ele põe o dedo em tudo que há no mundo, veja só as guerras. É só ligar a televisão.
Ele não acreditava, e, eu sabia que ele tinha muitas superstições, então, lhe dizia que ter superstições evidenciava influência maligna na vida da pessoa. Ele ficava com ódio de mim, falava de mim para meu pai e para minha mãe e ficava com cara feia para meu lado por muito tempo. Era hilariante.
Uma outra vez quando estava pensando em abandonar o curso técnico que fazia paralelamente ao segundo grau, vovô me chamou e disse que queria me contar uma história.
- Neto, disse ele, vou lhe contar uma história que meu pai me contou quando eu tinha mais ou menos a sua idade, mesmo que ele tenha contado em outro contexto e com outra finalidade, creio que você vá entender a moral da história.
Vovô deu uma longa pausa, ajeitou os óculos, respirou fundo e por um instante percebi que ele gostava muito de min e que se ele não demonstrava este sentimento mais vezes, a culpa era toda minha e das minhas brincadeiras de mau gosto.
- Numa rua comum como esta, arborizada e movimentada durante o dia, mas deserta á noite, passava todos os dias uma menina muito bonita, que despertava olhares dos mais singelos aos mais biltres. Ela estudava e trabalhava consumindo assim todo seu dia. Passava toda manhã vinda de sua casa com passos rápidos e cabeça baixa, sem nem mesmo reparar nas pessoas que passavam por ela ou que ficavam das janelas, dos portões, dos bares, atirando olhares curiosos e/ou maliciosos. Toda noite ela retornava para sua casa cansada, muito cansada, de cabeça baixa mas com passos lépidos apesar do cansaço.
A rua desta história podia facilmente ser esta, dr. Leal. Você sabe que há horas, quando escurece, que ela fica deserta e, em certos pontos, as árvores escondem por trás de suas folhas a luz dos postes, fazendo com que certos pontos sejam de escuridão quase abissal, atenuada apenas pelos faróis dos carros que, às vezes, demoram a passar.
A moça sabia que havia muitos olhares que eram bons, e o que era pior sabia que havia alguns que traduziam desejos e pensamentos mais sórdidos e que poderiam estar ali  no escuro, escondendo-se atrás de uma árvore esperando sua passagem.
Pena não haver um namorado, irmão ou pai para lhe fazer companhia nestes retornos. Não estava sozinha, havia Deus, então, rezava! – Dizia vovô sem conseguir perceber em meu rosto sinais de cansaço com aquela narrativa longa que até este momento não me interessava, mesmo que eu não demonstrasse isso.
- Seus receios eram válidos pois a escuridão realmente ocultava um homem que nutria pensamentos maus para com a pobre moça. Todos os dias ele a esperava passar pela rua e ficava a observá-la escondido. Se as pessoas pudessem ser julgadas pelos pensamentos que nutrem, este homem simplesmente não teria coragem de falar nada do que pensava.
Certa noite a moça retornava para sua casa, como nos outros dias, quando o estuprador gentil deixou que ela passasse então saiu de seu esconderijo e caminhou rápido atrás da moça e a ultrapassou. Ao passar por ela, ele disse discretamente:
- Boa noite.
Não houve resposta alguma da parte da menina. Na noite seguinte, aconteceu o mesmo. O homem ao passar apressado pela moça disse-lhe:
- Boa noite.
Não houve resposta da parte da menina que, novamente, estava tão assustada e desconfiada que abaixou ainda mais a cabeça. No terceiro dia ao cumprimentar a moça com o mesmo “boa noite” de sempre, seu coração quase parou quando a menina, sem saber das verdadeiras intenções do homem, respondeu de modo tímido mas audível:
-Boa noite.
Esse acontecimento fantástico, na óptica do homem, aconteceu numa quarta-feira. Na quinta e na sexta, a moça cumprimentou o homem como se ele já havia muito tempo fizesse parte de seu cotidiano. Na segunda-feira da semana seguinte, ao ver o homem se aproximar a menina sentiu-se aliviada por ter alguém para lhe fazer companhia e antes que o homem se afastasse, ela perguntou-lhe:
- Moço, desculpe o incômodo, mas o senhor vai para tal lugar?
- Sim, vou para tal lugar.
A moça conversou bastante não apenas nesta noite, mas também nas noites seguintes onde esta mesma cena se repetiu por muito tempo.
O homem não era velho e, igualmente, não era feio. Conversava bem e, decididamente, era gentil. Não demorou e eles estavam, namorando. Com o tempo, noivaram e depois casaram. São hoje felizes depois de 10 anos de casamento e criam um casal de filhos muito bonitos.
Neste ponto desta narrativa tosca, eu não consegui mais agüentar e comecei a rir de maneira descontrolada. Aproveitei para chateá-lo ainda mais e comecei a rolar no chão fazendo gestos espalhafatosos. Vovô ficou, num primeiro momento, ruborizado, depois o vermelho de seu rosto era apenas de raiva. Começou a chamar-me de peralvilho e se eu não me afastasse dele, certamente me arrancaria fora uma das orelhas. Eu de fato, não era um bom neto. Nunca soube qual era a moral da história.
Coitado do vovô!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Sonho

O Sonho

Acordou assustado com o rosto molhado  de suor. Com o esforço que fez para acordar, levantou com tanta força e velocidade que jogou longe o lençol que o cobria e fez a cama lançar um lamento esganiçado. Tomou fôlego, parecia muito cansado, deu uma olhada a sua volta e viu que estava em seu quarto. Só podia ser o seu quarto pois tinham os mesmos móveis, os mesmos quadros na parede e até da mesma cor era a tinta que revestia o reboco. Então, por quê por mais que tudo seja familiar, é também diametralmente estranho não só para seus olhos, mas também seus outros sentidos? Não sabe.
Um grito estridente rompe o torpor em que estava envolto e chega até seus tímpanos trazendo-o de volta à realidade. Era o bebê. O bebê chorava praticamente vinte e quatro horas por dia, raro era não ouvir seu choro. Esperava ouvir o próximo grito, o da mãe mandando-o levantar-se e ir comprar pão. Respondeu mecanicamente, pegou o dinheiro abriu a porta e deparou-se com o mato, que estava quase da altura da casa. Não dava para passar.
Em seu esforço para transpor a muralha de capim elefante, chegou a padaria todo cortado pelas laminas do capim. E voltou pelo caminho mais longo pensando em como conseguiria entrar em casa. Pensou também que teria de foiçar o mato e capinar todo o terreno. Entretanto uma lembrança que esvanecia-se  rapidamente lhe dizia que no dia anterior ele já tinha limpado todo o terreno, mas não havia como ter certeza de que a lembrança de fato aconteceu ou era apenas um sonho. Como uma bruma ela em pouco tempo não mais existia. Pensou nisto por alguns instantes e no momento em que chegaria à conclusão que de fato capinou todo o terreno, a lembrança sumiu por completo e simplesmente esqueceu-se deste pequeno detalhe.
O caminho mais longo da padaria até a sua casa era, curiosamente, o único caminho que existia. Mesmo que pelo caminho as casas, as árvores  e os postes pareçam ser diferentes, são sempre os mesmo, sempre iguais. Era comum que ele achasse que o novo dia seria cheio de novidades, que faria coisas diferentes e que encontraria o real significado da vida. Mas, a cada passo dado era mais certo, se não para ele para o universo, que tudo o que faria era viver sua vidinha mediocre.
Ao chegar em casa a mãe não esperou nem que ele entrasse em casa começou a gritar:
- Marco capina este mato! O mato está entrando dentro de casa Marco.
O mato estava entrando  na varanda. Entrava também sorrateiramente pelas janelas e basculantes como um visitante indesejável, daqueles que entram sem pedir licença, joga-se no sofá de forma brusca, colocam os pés sobre o sofá e atacam a geladeira sem receber nenhuma permissão para isso. O mato entrava por todos os buracos que haviam na casa, até mesmo pelo da fechadura. Em certa ocasião, teve de abraçar-se com toda sua força ao abajur da sala para evitar que este fosse levado pelo mato, que vez por outra carregava para si algo de que gostava na decoração.
Ao entrar em casa, nem bem traspassou a porta foi assaltado pelo choro do bebê. Tomou café dividindo a atenção dispensada aos pães, bolos, sucos e frutas de sua farta mesa com os gritos histéricos da mãe e o choro estridente do bebê. Nunca vira uma mesa tão cheia de comida. Tentou ler o jornal que comprara, mas não conseguiu. As letras dançavam frente aos seus olhos. De qualquer maneira, parecia adivinhar as notícias. Não eram nada boas. Nunca eram boas. Cansou de forçar a vista na tentativa de fazer as letras pararem de dançar e pareceu que no mesmo instante seus ouvidos ficaram mais aguçados, ouvindo com maior nitidez tanto o choro como os gritos:
- Marco! Marco! Como é que é? Não vais cortar o mato?
Levantou-se e foi. Cada golpe que desferia no matagal com a foice, uma lágrima escoria por sua face sofrendo o efeito da lei da gravidade e chocando-se com o chão. Depois de alguns golpes Marco chorava copiosamente de maneira que nem cinco dedicadas mães corujas seriam capazes de consolá-lo. Não sabia o motivo de seu choro. Chorava, eis tudo. Chorar não deveria ser algo que fazemos sem ter um motivo, por isso, ele associou o choro ao mato e começou a pensar “Maldito mato! Maldito mato!”. À medida em que trabalhava golpeando o mato cada vez com mais fúria, não mais pensava, mas gritava a plenos pulmões  “ Malditos! Malditos!”. Findas algumas horas havia terminado o trabalho. O quintal estava totalmente livre do mato. Caminhou em direção da porta da sala e ao traspassa-la viu o bebê e sua mãe rindo folgadamente, como se tivessem ouvido uma piada muito engraçada. Não perceberam sua chegada e continuaram a rir por mais alguns instantes. Marco tentou articular algumas palavras, tentou gritar mas não conseguiu. Ficou totalmente paralisado, apenas via e ouvia esta cena que tornava-se patética de tão longa. Ele ficava sempre em silêncio frente a todas as arbitrariedades que praticavam contra ele, e tudo ali era arbitrário demais.
O bebê, depois de certo tempo, olhou para Marco e continuou a sorrir, não o sorriso belo e inocente de uma criança de poucos meses, mas sim um sorriso sarcástico e maquiavélico que lhe fez o sangue gelar nas veias. Era totalmente insana a expressão facial do bebê. Os risos da mãe e da criança pararam e ambos ficaram olhando imóveis para ele sem dizer nenhuma palavra. A mãe olhava para Marco com um olhar que não transmitia nem afeto nem desafeto, já o bebê o encarava com ódio numa expressão facial mais de adulto mau e perverso que de inocente criança. Era certamente o olhar de quem o culpava por ter-lhe infligido uma grande tristeza. O bebê começou então a chorar e se debater, o mato começou a crescer à medida que a criança chorava e, em um minuto, já estava tão grande quanto pela manhã.
  Nunca pensara até então que poderia estar vivendo num pesadelo, mas, sentiu uma angústia tão grande que começou a gritar, mesmo que não saísse som algum de sua garganta, e a sacudir sua cabeça como se estivesse no auge de um surto psicótico. Definitivamente enlouqueceria se não acordasse. Acordou.
Acordou assustado com o rosto molhado de suor. Com o esforço que fez para acordar levantou com tanta força e velocidade que jogou longe o lençol que o cobria e fez a cama lançar um lamento esganiçado. Tomou fôlego, parecia muito cansado, deu uma olhadela a sua volta e viu que estava em seu quarto. Só podia ser o seu quarto pois tinha os mesmos móveis, os mesmos quadros na parede e até da mesma cor era a tinta que revestia o reboco, só podia ser o seu quarto. Mas, como explicar então que por mais que tudo lhe fosse familiar era também diametralmente estranho não só para seus olhos, mas também para seus outros sentidos? Não sabe.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cicatrizes

Cicatrizes



Era inevitável que olhassem para ele em todos os lugares onde ia. Tiquinho tinha  centenas de cicatrizes por todo o rosto e seus braços estavam tão lacerados que não se pareciam com braços de um homem. Alguns achavam que sofrera uma grande queimadura, outros diziam que era o resultado de um grande acidente rodoviário. Não imaginavam que tantas marcas podiam ser o que restou de dezenas de cirurgias estéticas.
Sua aparência instigava pena e a pena fazia com que nunca o chamassem por seu nome de batismo, nem mesmo ele lembrava-se de seu nome todo o tempo. Se alguém perguntasse como chamava-se, respondia sem pestanejar, “Tiquinho”.
Era um jovem amável apesar de sua aparência repulsiva. Conversava sobre qualquer assunto que se possa imaginar e os mais velhos não cansavam de dizer que ele tinha uma boca de ouro. Não ficava, pelo menos aparentemente, chateado quando sentia que alguma pessoa não queria se aproximar dele talvez por pensar que suas cicatrizes eram resultado de alguma doença contagiosa. Lutava contra o preconceito ou apatia com bom humor e geralmente se saia vencedor.
Uma estratégia geralmente eficaz que Tiquinho usava para fazer novos amigos era contar como ganhara suas cicatrizes, na verdade, sentia um incomensurável prazer nisso. Muitos dos seus amigos já ouviram esta história umas cem vezes.
“Eu sempre fui menor em comparação com outras crianças da mesma faixa etária,  esta é a gênese do meu apelido. Minha mãe sempre dizia que eu era um pedacinho de gente e de pedacinho para Tiquinho foi um pulo. Eu não gostava de ser chamado assim,  mas, quanto mais eu protestava mais ela me chamava de Tiquinho. E todo mundo a acompanhava nisso. Os garotos riam muito de min e logo aprendi que se há uma coisa que as mães fazem muito bem, é envergonharem seus filhos.
“Eu era o mais raquítico de todos os meninos da rua, tinha o pior dos apelidos e a mãe mais super protetora de todas. Não demorou para que me fizessem o alvo de todas as piadas de mau gosto e zombaria em geral. E, todos sabem que nada é mais cruel que uma criança, a não ser, um grupo de crianças.
“A uns quinze anos atrás  este bairro era muito diferente do que é hoje. A única rua asfaltada era a principal, que nem se quer era asfaltada e sim calçada de paralelepípedos, para dizer a verdade. Nas outras ruas que não tinham calçamento, todas as noites era uma algazarra só, os pequenos brincavam de todos os tipos de pique que se podia imaginar, além de terem a liberdade de inventarem novos piques só para fugir da mesmice. Os maiorezinhos brincavam de taco ou queimada e os quase adultos jogavam pelada na rua. Eu passei por todas estas fases, era engraçado, os pequenos não brincavam com maiorezinhos e estes por sua vez não brincavam com os quase adultos. Evidentemente, esta secessão não provinha nem agradava os mais novos, mas era da vontade dos mais velhos, tudo para garantir o status.
“Nesta época, quinze anos atrás, quando eu tinha precisamente  dez anos de idade, costumava brincar com outras crianças nas proximidades do velho matadouro desativado e que foi demolido a algum tempo. Certa noite, contávamos quase vinte meninos, brincamos até as onze horas da noite, quando as mães começaram a gritar seus filhos chamando-os para se recolherem. Eu e mais quatro outros meninos não fomos para casa, dirigimo-nos para o matadouro. Tínhamos o costume de pular o muro dos fundos, entrar no matadouro e tentar atravessá-lo de ponta a ponta sem sermos vistos pelo velho vigia que junto com dois dobermans tomava conta da propriedade.
“O matadouro tinha muitos setores, em alguns deles nós nunca fomos pois, muitas portas e grades se conservavam trancadas, mas, uma rota que havíamos aprendido era a que passava pelo escritório, este era composto de amplos cômodos que iluminados apenas pela luz da lua que entrava pelas pequenas janelas eram convite a aventuras, mais ainda pelo fato dos cômodos parecerem dispostos com a finalidade de se fazer um labirinto.
“Naquela noite pulamos o muro e corremos em direção à porta dos fundos que dava para o corredor que terminava no escritório. Para a nossa surpresa o vigia trocou o cadeado antigo, que servia apenas de enfeite pois se forçássemos um pouco ele abria, por um novo e grande cadeado. Poderíamos ter pulado o muro e ir para nossas casas, este era meu desejo mas zombaram de min quando propus isto, disseram que eu estava com medo e que era o filhinho da mamãe, as piadas venceram minhas resistência.
“Pulamos facilmente uma janela e começamos nossa incursão pelo matadouro abandonado. Estava mais escuro do que habitualmente, não conseguíamos enxergar um palmo à nossa frente e, como eu fui o último a pular a janela, me vi só no cômodo escuro. Os outros garotos haviam saído em disparada logo se viram dentro do prédio. Senti medo de ser pego e tive a sensação de que havia algo ameaçador no escuro, que estava prestes a esticar as mãos e me deter como seu prisioneiro. Fui guiado pela fraquíssima luz que vinha de uma porta e pelos gritos de meus amigos chamando-me. Corri para a porta me deparei em um longo corredor assustadoramente mal iluminado. No fim do corredor vi meus amigos correndo e dobrando para outro vão. Continuei sempre a correr mas era impossível alcançá-los, eles estavam muito na frente e eu, como já disse, era o menor deles. A distância entre nós aumentava, mas eu sempre conseguia vislumbrar pelo menos um dos garotos que corriam à minha frente segundos antes dele desaparecer no fundo do corredor, o que me dava a falsa impressão de que não estava sozinho, enganava-me, nunca estive tão só em toda a minha vida.
“Continuava sempre a correr como louco, chegando nos próximos cômodos apenas a tempo de ver o último dos meus amigos saindo. Devo, entretanto, ter-me cansado e quando cheguei no quinto cômodo do trajeto não vi ninguém dobrando à minha frente. Chequei à porta e tive que escolher que rumo tomaria minha fuga, direita, esquerda ou á frente. Tentei apurar os ouvidos para me guiar pelos gritos, mas foi em vão, havia os gritos dos meninos, mas eles formavam ecos que não serviam para indicar uma direção correta. O caminho que deveria ter escolhido era o da direita, mas ele pareceu-me menos iluminado que os demais, então fui em frente. O próximo cômodo que entrei era uma sala gigantesca iluminada parcamente pela luz da lua que entrava por atravessar o vidro muito sujo de uma janela. Não mais ouvia a gritaria dos meninos e senti-me só, mas continuei a correr. No outro cômodo que entrei vi que não estava só pois os dois dobermans  aguardavam-me para fazer-me companhia.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Eulália

Eulália

Feitosa é como será chamado a partir do momento que vestir pela primeira vez o uniforme cinza da policia militar, não responderá quando o chamarem de Leonardo.
Soldado, cabo, sargento, tenente, ele têm uma longa carreira pela frente, e muito entusiasmo para compensar a falta de status da corporação. Têm também uma namorada bonita, de uma beleza dramática e teatral que a tornam perfeita para interpretar heroínas Shakespeareanas. Pena ela não fazer teatro. Em verdade sua namorada, Eulália, nunca entrara em um. Era apenas muito bonita.
Antes de conhecer Eulália, Feitosa sonhava conquistar uma linda namorada, arrumar um emprego qualquer para, com o tempo, casar, engordar, ter filhos, envelhecer e morrer tudo na mais perfeita monotonia. Os dois primeiros ele já conseguiu realizar falta apenas casar, engordar, ter filhos, envelhecer e morrer na mais perfeita monotonia. Ou seja ele precisa apenas de tempo para tornar-se um homem plenamente realizado.
-Em quanto tempo você compra um carro amor?
-Eu estou calculando um ano ou quem sabe um ano e meio.
-Mas, você não acha um ano muito tempo? O Tel comprou um carro zero em três meses...
-Eu sei mas, o Tel é da Federal e eu sou militar, tem muita diferença.
Eulália finalizava sempre o assunto dizendo com voz lânguida e insinuante:
-Eu não vejo a hora de você comprar um carro só seu para nós ficarmos andando, andando... Dá pra namorar bastante...
Eulália antes de terminar esta frase fechou os olhos e jogou um pouco a cabeça para trás, não havia ninguém mais na varanda, já era tarde mas, se houvesse, adivinharia o que pensava aquele esboço de heroína Shakespeareana, Feitosa adivinhou. Daquela noite em diante ter um carro se tornou um sonho, uma obsessão para ele. Tinha que ter um carro, de qualquer maneira! Lançaria mão de meios lícitos ou até de meios escusos para ter um carro, não para si ou por si, mas para e por Eulália!
Por benevolência, ou quiçá ironia, do destino Feitosa foi designado para trabalhar na Rocinha. Lá existem dois DPO’s, um na entrada e outro no meio da comunidade. Foi-lhe explicado que ambos trabalham sob o sistema de férias e o DPO da entrada da favela têm além do sistema de férias, o direito a bote.
No sistema de férias os policiais do DPO recebem uma féria do tráfico para ficarem de férias, ou seja, não fazerem nada. No sistema de férias com direito a bote, os policiais não perturbavam os pontos de venda de drogas, mas, se os traficantes “dessem mole” eles dariam o bote neles e ficariam livres para barganhar sua liberdade.
Feitosa foi escalado para trabalhar no DPO no coração da favela. A cada plantão em que trabalhava recebia duzentos reais para não incomodar o trabalho dos  vendedores não autorizados  de psicotrópicos. Ficava sentado bem á vontade com as pernas esticadas e pés cruzados sobre a mesa pensando na vida. Em verdade este pensar na vida significava pensar em Eulália. Nenhuma ocorrência para atender. Era o tráfico que resolvia as coisas dentro da comunidade.
Nos primeiros dias de trabalho assustava-se  quando traficantes armados de pistolas e alguns até de fuzil entravam dentro do DPO para beber água gelada no bebedouro, mas os outros policiais acalmavam-no e o explicavam  que isto era normal, pois na casa ao lado do DPO funcionava uma drogaria e pelo vai-e-vem de pessoas nunca tinha água gelada na geladeira. Nessa condição, nada mais normal que os “parceiros” bebessem água aqui no DPO, pois um dos atributos principais da polícia é servir. “Além disso”, diziam os policiais, “os caras são parceiros”. Em contrapartida os traficantes respondiam “É nós na fita mano!”
Como disse anteriormente, Feitosa tinha tempo de sobra para pensar e se o tempo fosse algo palpável, sólido, concreto, ele teria um caminhão de seis eixos cheio de caixas e mais caixas de tempo. Mas, como o tempo não é facilmente palpável na vida real como o é em uma figura de linguagem, Feitosa carregava consigo para cima e para baixo um enorme sentimento de que poderia estar fazendo mais para conseguir realizar mais rápido o sonho de Eulália de ter um carro tão bonito quanto ela.
“Todo  tempo do mundo é pouco para quem não sabe esperar” diz, ou deveria dizer, o ditado. Feitosa pediu transferência para o DPO da entrada da favela, imaginou que lá poderia ter mais oportunidades de conseguir rápido uma verba para concretizar os planos de Eulália.
Passou cinco meses estudando sua situação, conhecendo seus colegas de trabalho, fazendo amizades, pesquisando os vendedores do mercado informal de drogas mais rendosos em caso de bote, enfim: trabalhando duro. Até que se sentiu pronto para agir.
Conhecia a comunidade com a palma da mão. Sabia onde ficavam os olheiros, os aviãozinhos. Sabia que eles não eram lucrativos em caso de bote. Sabia que havia as sardinhas e os tubarões e, era de um tubarão que ele precisava. Mas Feitosa sabia, também, que tinha de pensar em tudo sozinho. Não podia deixar que nenhum outro colega soubesse de seus planos, pois poderiam dar o bote no malandro antes dele. Feitosa estava sozinho. Ele sabia muito bem que não podia confiar na polícia.





Certo dia deu um bote em um certo Bolívar, que pensava não ter inimigos entre os “vermes,” maneira um tanto quanto desrespeitosa, mas de certa forma amigável, de chamar os policiais em geral, e que andava despreocupadamente nas proximidades do DPO.
Bolívar ofereceu-lhe seus cordões e pulseiras de ouro, Feitosa aceitou sem se fazer de rogado mas não liberou o malfeitor como seria de se esperar. Considerou aquilo como um mero presente. Afinal, se Bolívar não os desse, ele tomaria.
Mandou que Bolívar telefonasse para seus comparsas e pedisse quinze mil reais, que seria o preço de sua liberdade. O traficante protestou mas não houve negociação alguma, Feitosa não aceitaria em hipótese alguma menos de quinze mil reais. Chegou a ameaçar que mataria o traficante e, pareceu que o faria de fato, assustou até o outro soldado que estava ao volante da viatura.
A negociação foi longa. Pois os traficantes não estavam dispostos a pagar quinze mil por Bolívar. Ele ainda não era um grande e não valia tanto dinheiro. Os traficantes barganharam, pechincharam e chegaram a conclusão que pagariam até cinco mil reais para que Feitosa libertasse Bolívar. Feitosa bateu o pé e não reduziu seu preço.
Toda esta negociação ocorreu desde ás dez ou dez e meia da manhã até por volta das quatro horas da tarde. Toda esta negociata estafou os traficantes que já não mais agüentavam ouvir a voz de Feitosa. Um deles teve a idéia de telefonar para o disque denuncia e partilhou sua idéia com outros. Ligaram para o disque denúncia e contaram toda a história.
Em pouco tempo, Feitosa ficou sabendo via rádio, que cerca de quinze policiais da polícia civil se dirigiram para a Rocinha para averiguar a denuncia de que dois policiais que trabalhavam nesta comunidade, seqüestraram um traficante de “relativa” importância para o tráfico de entorpecentes local.
Desesperadamente Feitosa e seu companheiro discutiram se deviam matar o homem em seu poder ou se deviam liberá-lo. Deliberaram que seria menos comprometedor se liberassem o meliante. Assim o fizeram.
Ambos ficaram tristes é verdade, mas, Feitosa ficou inconsolável. “Nem cinco nem quinze”, pensava ele lamentando-se por não ter aceitado os cinco mil reais que lhe foi oferecido.
O restante das horas que faltavam para terminar o plantão foram agitadas. Muitas explicações pedidas, muitas desculpas esfarrapadas inventadas, a certeza da impunidade. Mas o tráfico não perdoa e no dia seguinte em várias paredes por toda a comunidade havia avisos de que os soldado Feitosa e Souza seriam executados assim que entrassem na comunidade. Os avisos foram escritos com spray cor vermelha, talvez os traficantes nem mesmo tenham pensado nisso, mas esta cor infundiu maior temor nas pessoas que liam o aviso. Todos previam uma guerra.
Bolívar e alguns outros líderes do tráfico redigiram uma longa carta que foi xerocada e enviada aos dois departamentos de polícia além de serem coladas em quase cinqüenta postes da comunidade. A carta continha entre outros pontos um que dizia que toda  as conversas dos traficantes com os policiais haviam sido gravadas e copias da fita estavam prontas para serem mandados para as polícias civil, federal e para a imprensa. A carta dizia, também que não seria dado mais nenhum dinheiro a policiais.
Todos os policiais dos dois departamentos estavam com muita raiva de seus dois colegas responsáveis por uma possível perda de renda. Muitos chegaram a dizer que se o tráfico não os matasse, eles próprios matariam. Lamentavam-se pensando no dinheiro que deixariam de ganhar. Era um dinheiro mole que eles estavam vendo escorrer por entre os dedos.
Nenhum dos dois policiais voltaram a pôr os pés na Rocinha novamente. Ambos foram transferidos para o interior do estado, Feitosa, por exemplo, foi  transferido para Cachoeiras de Macacu, cidadezinha aconchegante e pacata com um ritmo de trabalho e vida totalmente diferente a tudo que ele estava acostumado. Alugou uma casa a cinco minutos de caminhada da delegacia e acostumou-se em poucos meses a ir na casa dos pais apenas de quinze em quinze dias ou até uma vez por mês.
O que doía mais era ter perdido Eulália, a mais linda mulher que Feitosa namorou em toda a sua vida. Ficou sabendo em uma das visitas que fez à casa dos seus pais, que Eulália estava namorando com um estudante de medicina dono de um sedã de luxo. “Ela merece muito mais”, pensou ele sem nenhum pingo de rancor, apenas tristeza. Ficou sabendo também ao telefonar para um dos policiais, que  ainda continuou seu amigo, que tudo na Rocinha continuou como antes, apenas não mais tinham direito a bote, os policiais do DPO da entrada da comunidade. Era muito mais lucrativo para todos os envolvidos que não houvesse uma guerra e que tudo continuasse com a mesma tranquilidade de antes.
Nunca mais Feitosa se envolveu  em um esquema de corrupção que precisasse de mais elaboração que um almoço. Não que o incidente tivesse o poder de realizar uma grande mudança em sua personalidade. Ele não tornou-se mais honesto, apenas um pouco menos ganancioso. Se algum colega insistisse ele virava as costas e o deixava sozinho, dizendo baixinho o que achava ser um ditado popular: “falta do que fazer é um problema sério”.










terça-feira, 2 de setembro de 2014

Spike e a Liberdade

Spike e a Liberdade



Um amigo de escritório falou pilheriando: “Está pensando na morte da bezerra Francisco?” E, de fato, Francisco estava com um olhar fixo, demorado, para todas as coisas. Estava reflexivo a ponto de fazer com que uma mera assinatura de  recibos se tornasse o evento filosófico do ano. Estava totalmente entregue as abstrações. Tudo por causa do seu cachorro que havia rompido a coleira e ganhado a rua naquela manhã.
Não deu ouvido nem a esta nem a outras piadinhas ditas quase a todo instante por seus colegas, afinal, todos escritórios são assim. E, ele mesmo zomba bastante de seus colegas de trabalho vez em quando. Certo dia, inspirado por um tal sentimento inominável, juntou-se a um grupo que zombava de um subgerente e sua serventia. No meio de todos e em voz alta, dirigiu-se  ao subgerente e disse-lhe:
-Ora, ora, gente! Não é verdade dizer que o Alberto não serve para nada. Ao menos ele serve de chacota!
As gargalhadas soaram estridentes e foi mesmo difícil fazer com que todos parassem de rir e voltassem ao trabalho. Só mesmo o gerente com seu rosto carrancudo e jeitão autoritário, depois de esbravejar bastante, conseguiu restabelecer a paz na repartição. O subgerente não mais suportando o assédio moral de seus colegas pediu transferência para uma outra seção onde não mais seria subgerente. Preferia isso a ter de continuar sendo importunado todos os dias.
Por este caso, e por outros patrocinados por ele, Francisco Gomes era conhecido por seu espirito brincalhão. Não se preocupava com zombarias, justamente por este motivo, elas não vingavam com ele.
Todos achavam estranho este fato e pensavam que algo realmente sério acontecera, se não, Francisco jamais estaria assim tão calado. Porém, ninguém queria ser o primeiro a perguntar qual o motivo de tanta solenidade nos movimentos, temendo ser inconveniente. Ficavam olhando de soslaio e pensando com seus botões o que teria acontecido.
Inesperadamente, o primeiro a perguntar alguma coisa foi justamente o chefe, o gerente da seção. Com aquela sua cara de poucos-amigos, bigode grosso e grisalho, como também seus cabelos, um metro e noventa centímetros de altura e mais ou menos uns cento e vinte quilos e uma barriga que justificava o apelido que recebera de seus subordinados, “Barriga de Chope”, o gerente intimidava a todos com sua presença. Logicamente ninguém chamava-o assim em sua presença. Mas, quando não estava fisicamente presente, era “Barriga de Chope” para cá, “Barriga de Chope” para lá. Então, “Barriga de Chope” disse com sua voz grossa e gutural:
- Estás diferente hoje Francisco, o quê houve?
“Estou com medo da solidão”, pensou o interpelado em uma fração de tempo menor que um milésimo de segundo. “Estou com medo de ficar sozinho naquele casarão enorme. Os cachorros  são uma ótima companhia para pessoas que moram sozinhas, muitas vezes eles são melhores que pessoas. Por exemplo, eu preferia mil vezes estar neste instante conversando com ele, do que conversando com o senhor. Mesmo que ele não entenda nem a metade das palavras que lhe falo, prefiro a companhia dele à sua. Embora, muitas pessoas nos entendem muito menos do que um cachorro ou qualquer outro animal.” Evidentemente, apenas pensou estas palavras. As que disse foram outras totalmente diferentes, sem o tom beligerante de seus pensamentos e nem sequer uma faísca de ironia ou sarcasmo.
-Não houve nada de grave, - disse ele encolhendo o ombro - apenas estou  com uma dor de cabeça chata, pequenos problemas domésticos, o senhor sabe como é... –Seu rosto esboçou um inicio de sorriso que implorava condescendência.
“Barriga de Chope” foi complacente e sorriu timidamente, afastando-se sem dizer mais nenhuma  palavra. Gomes compreendera que tal atitude fora até mais do que seria de se esperar do chefe. Da mesma forma que  Francisco não importava-se com seu chefe, ele também não importava-se realmente com Francisco, perguntara por sua saúde apenas para fingir preocupação e não ser considerado uma pessoa má e insensível.
Para Francisco o fato de seu chefe ter procurado saber sobre o motivo de estar preocupado não mudara nada. Continuava pensando o que aconteceria se, ao chegar em casa, descobrisse que nenhum dos vizinhos encontrou Spike e o prendeu na coleira. A possibilidade de prenderem o cão era grande, pois, todo o dia passeava pelas ruas do bairro onde morava com o cão na coleira. Era, um fila brasileiro, manso, muito manso, que parecia sorrir quando os vizinhos do Gomes, que já estavam acostumados com ele, passavam a mão em sua cabeça. Certamente alguém o reconheceu e o prendeu. Certamente.
Francisco achou que o dia demorou um século para passar. O dia inteiro trabalhou pensando se alguém encontrou o pobre do cachorro que se soltou da corrente que o prendia e naquele exato momento devia estar perambulando por algum lugar, se é que algum desconhecido não o pegou para si.
Evidentemente que poderia comprar um outro cachorro caso o seu não mais aparecesse, ou, quem sabe, um gato. Mas, Spike era mais que um cão, era um amigo, e amigos não são descartáveis. Não são coisas ou objetos que podemos facilmente esquecer apenas porque podemos  conseguir outros com facilidade.  Um sofá, um aparelho de jantar, um celular, e milhões de outras coisas podem ser facilmente substituídas, mas não há lojas vendendo amizades verdadeiras.  Assim como não se vendem fé, ética ou amor. E, Francisco na sua preocupação  em se alguém recolheu seu cão da rua, quase não ia meditar nesse ponto.
Pensou de relance no fato de poder comprar um novo cão e ia começar a pensar em outras coisas, mas voltou muito rapidamente a esta idéia, da mesma forma que nós voltamos rapidamente nosso olhar para algo que só depois de um segundo é computado como importante. Podia comprar um outro cão mas não um amigo.
-Não podemos comprar amigos. – Disse ele de si para si, achando confuso o fato de que as frases tão certas de antigamente soarem tão sem sentido hoje em dia.
Os minutos e as horas passaram arrastados até o momento de assinar o folha de presença. Esta era, definitivamente, a melhor hora do dia e hoje ela era aguardada com mais ansiedade que nos outros dias.
Diferente do que sempre fazia em dias comuns, hoje, foi direto para casa. Não parou no bar da esquina, nem na padaria próxima a sua casa, para tomar um cerveja. Fazia isso quase todos os dias, mas, hoje não o fez. Também não teve olhos para as moças que cruzavam seu caminho. Uma delas, já tinha, até mesmo, marcado o horário que ele passava em frente a loja em que  era vendedora. Ficou olhando para ele com um interesse nunca antes demonstrado, mas ele passou absorto em seus pensamentos e nem sequer olhou a vendedora, bonita, muito bonita, que o seguia com o olhar. Ela ficaria muito triste se soubesse que fora preterida por um cão.
Assim era Francisco Gomes: um homem triste e solitário, que, entretanto, vivia em roda de amigos, no escritório, contando piadas e fazendo os outros rir. Ninguém acreditava que Francisco era triste e solitário, todos estranhavam o fato de Francisco não ser casado, apesar de ser um rapagão bem apessoado e ter um emprego razoavelmente bom, mas, daí a ele ser triste e solitário não, não dava para acreditar. Tanto não acreditavam como sequer imaginavam isso.
Ao chegar em casa, algum tempo depois, Francisco ficou ainda mais triste. Ele havia imaginado que ao abrir o portão de casa, trombaria de frente com Spike. Spike balançaria o rabo como um louco, correria de um lado para o outro, festejaria feliz da vida a chegada de seu dono. Seu olhar melancólico iria desaparecer por um pouco de tempo ao ver seu dono entrar pelo portão. Infelizmente este quadro foi apenas um imagem mental, igual aquelas que vez por outra fazemos quando nos ocorre algo triste, que é a porta-voz de um pensamento que nunca nos abandona em momentos de ansiedade: “diga que não é verdade!”, grita este pensamento.
Mas a realidade é dura. Spike não havia retornado. Francisco tomou então um banho, e saiu com intuito de procurar pelo cão na vizinhança. Havia um lugar certo para procurar, devia ir direto à casa de Aninha, uma senhora de seus sessenta e poucos anos, que gostava de brincar todo dia com Spike, nas horas em que Gomes o levava para passear. Certamente Dona Aninha viu Spike vagando pelas ruas, reconheceu-o, e está apenas aguardando que seu dono venha buscá-lo. Isto parece tão certo que Francisco anda rápido e chega a ostentar um sorriso de satisfação no rosto. Mas Spike não está com Dona Aninha, que diz não vê-lo desde a tarde anterior.
Desanimado Francisco continua a procura pelo seu cachorro. Vai até a pracinha umas duas quadras à frente, nem sinal do Spike. Caminha até a veterinária, como vez por outra leva o cão para tomar alguma vacina ou para alguma consulta, quiçá Spike tenha fugido para lá. “Idéia idiota. Onde já se viu um cachorro fugir para uma veterinária.” Pensou ele, logo após receber informação de que nenhum cachorro fugitivo aparecera na veterinária.
Francisco foi até um campo de futebol, um “pet shop” e a um terreno baldio onde algumas pessoas depositam gratuitamente seus lixos e entulhos e não encontrou seu cachorro nestes lugares.
Não havia mais onde procurar, então, Francisco resolveu voltar para casa. Mesmo assim ele ainda continuava com a certeza de que encontraria seu cachorro, é claro que esta certeza já não era tão forte e, evidentemente, se parecia mais com aquela contínua teimosia que vulgarmente chamamos esperança.
Ao retornar para casa, porém, resolveu tomar um caminho diferente  e não utilizar o mesmo itinerário que o fizera chegar ao terreno baldio. Dobrou à direita e depois à esquerda, seguiu em frente uns duzentos metros e chegou até a calçada da pista do canto da  Av. Brasil em direção ao centro da cidade, e continuou a caminhar pensando no cão, nele  próprio, nos carros que passavam em grande velocidade, nas amizades que poderia fazer, enfim, naquele momento pensava na vida, única e exclusivamente na vida.
Avistou o grande letreiro de uma lanchonete “Fast Food” do outro lado da Av. Brasil e começou a salivar e a sentir fome. Atravessou a passarela, foi à lanchonete, comeu, pagou e saiu já bastante conformado com a situação em que estava. Era um homem sozinho no mundo, como antes de ter seu cachorro.
Estava no meio da passarela, bem em cima do vão central, quando ouviu uma freada brusca, o canto de pneus sendo arrastados com violência sobre o asfalto e uma forte pancada. O sangue em suas veias ficou gelado em uma fração de milésimos, o coração começou a bater acelerado e as pernas ficaram paralisadas, além de um arrepio frio ter percorrido toda a sua espinha e seus ossos, e o que é pior, tudo isso aconteceu ao mesmo tempo. Teve o reflexo de olhar para trás pensando estar em perigo, só depois lembrando-se que estava no alto de uma passarela. Olhou para baixo ainda á tempo de ver alguns detalhes do acidente. Um cachorro foi jogado a dezenas de metros de distância, um carro amassou bastante a frente e parte da lateral esquerda foi danificada após colisão com a mureta do vão central , parando no acostamento  a aproximadamente trezentos metros da passarela. O cachorro atropelado era realmente muito grande e pesado.
“Ainda bem que não foi uma pessoa”, pensou ele, indo juntar-se a alguns curiosos que olhavam o corpo do cão que jazia numa poça de sangue. Alguns dos que viram todo o acontecido, contavam para os que não viram sobre como o cachorro foi atravessar correndo as pistas, a velocidade elevada que o carro estava, o prejuízo que o dono do carro terá se o seguro não cobrir este tipo de acidente e todas as outras especulações comuns em locais de acidente rodoviário.
Francisco foi aproximando-se sem nem mesmo lembrar-se que retornava de uma procura justamente por um cão. Apenas começou a ligar uma coisa com a outra quando chegou perto e viu bem a pelagem de cachorro atropelado, idêntica a pelagem de seu cachorro.
Aproximou-se ainda mais e percebeu na coleira, a medalhinha de metal onde havia escrito Spike. Seu rosto mostrava para todos que estava consternado, as pessoas que estavam mais próximas chegaram a pensar que choraria em mais um minuto ou dois. Suava e chegou a cambalear, procurando algum ponto de apoio onde pudesse segurar-se por um instante.
Um rapaz notando toda a aflição de Francisco perguntou-lhe:
          - O cachorro era seu?
Francisco olhou para o rapaz e pensou em como seria trabalhoso enterrar aquele cachorrão, além de poder ser responsabilizado pelo acidente. Poderia ser obrigado a pagar o conserto do carro avariado. Não podia titubear. Esboçou um sorriso e respondeu-lhe:
          - Não, não! Eu apenas fico um pouco nervoso quando vejo sangue.
Virou-se e continuou a caminhar para casa pensando no cão, nele próprio, nos carros, nas amizades que poderia fazer, no outro cão que poderia comprar, em fim, pensando na vida, úprio, nos carros, nas amizades que poderia fazer, em fim, pensando na vida,  única e exclusivamente na vida.