quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pobres Mulheres Livres


O casal estava sentado no ônibus conversando. Estavam cansados da longa jornada de trabalho. Interromperam a conversa ao entrar no coletivo três jovens, um deles era negro e os outros dois brancos. Ficaram com medo.

Muitas vezes grupos de jovens aproveitam que o ônibus não anda tão cheio por volta das dez e meia da noite no trajeto de Nova Iguaçu para o Rodilândia, bairro afastado do centro, e nesse horário acontecem muitos roubos. Não queriam ser surpreendidos por bandidos.

Mas, o curioso para o casal é que os jovens, embora vestidos com roupas folgadas, com muitas pulseiras e também muitos cordões nos pescoços, não eram bandidos. Muito pelo contrário, eram jovens trabalhadores. Trabalhavam no McDonald's em funções diversas que tinham em comum o fato de serem mal remuneradas.

Também curioso era a conversa que eles estavam tendo naquele momento. Os jovens estava falando de tempos de crise, e de que é muito difícil namorar em tempos de dificuldade financeira. Um dos jovens contava que tinha três namoradas e que tinha que fazer malabarismo para conseguir sair com as três durante o mês.

Ele chamou uma das namoradas para sair e ela disse que tava meio dura. Era final de mês e precisava primeiro receber o pagamento para depois ter dinheiro pra sair com ele. O rapaz continuou a contar para os outros rapazes que ela provavelmente esperava que ele a convidasse para sair, mesmo que ela não pudesse pagar por suas despesas.

Entretanto, ele disse: "Não, não, não se preocupa não. A gente sai depois que você receber seu pagamento!"

O marido esperou os garotos descerem do ônibus, eles desceram na estação de trem de Comendador Soares. Quando o ônibus seguiu viagem, o homem ainda olhou pela janela acompanhando com o olhar os garotos e estampando no rosto um sorriso.

- É, as mulheres sempre quiseram liberdade e a liberdade pra elas veio acompanhada de dupla jornada.

- Mô, escutou o que o garoto falou? Ele disse que tem três namoradas...
- E que o dinheiro que ele ganhava no trabalho não dava pra sair com as três meninas. A melhor coisa que inventaram pra ele foi a liberdade feminina. Elas são independentes e pagam suas próprias contas, e ele economiza seu dinheirinho pra sair com as três.

- Pobres mulheres livres, né? - Disse a esposa,pensando na janta que ia ter que preparar quando chegasse em casa.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Poe-Dia

Quero escrever poesia
Co'um Deus escreve os dias
E que a poeira ou a tristeza
Não escondam a alegria do meu dia.

Com'um poeta se debatendo co'uma rima
Meus problemas são desafios com'uns
Tão com'uns com'o as dúvidas
Com'uns com'o as dívidas
Que sempre temos
Com'a vida.

Quero escrever uma ode
Que rejeite co'um grito
Ou do jeito que pode
A insânia e'a futilidade
De entregar nossa vida, nosso rumo
Ao destino para colocá-lá no prumo.

Minha ode
Que nascerá co'um espasmo
Ou do jeito que pode
É um dia poético
Co'um P de profético
Com'um dia escrevendo um poeta
E não o cont'rário
Eu
Mesmo
Tendo
Nascido
Ontem
Pres'cindindo
Maiakóvski.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Harry Potter não é literatura


Na entrevista 50 anos de carreira de Ruth Rocha: “Harry Potter não é literatura”  de Cristina Da numa, a escritora Ruth Rocha fez as seguintes declarações:

iG: O que acha destes novos best-sellers, que misturam fantasia, com a presença de vampiros e bruxas? 

Ruth Rocha: Isto não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar. Criança deve ler tudo, o que tem vontade, o que gosta, mas eu sei que não é bom. O que eu acho que é literatura éuma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova. Esta literatura com bruxas é artificial, para seguir o modismo. Acho que o Harry Potter fez sucesso e está todo mundo indo atrás. 

iG: Então você não gosta de “Harry Potter”? 

Ruth Rocha: Não acho errado os livros fazerem sucesso. Eu gosto porque acho que as crianças leem, mas eu não gosto de ler “Harry Potter”, não acho que é literatura.

iG: Qual você acha que é um livro infantil de qualidade? 

Ruth Rocha: Eu, na verdade, leio muito mais livros para adulta. Todo mundo acha que eu ainda tenho criança dentro de mim [risos], mas na verdade sou adulta, até velha. Mas o ganhador do Jabuti de 2014 [“Breve História de um Pequeno Amor”, de Marina Colasanti] é uma obra muito bonita.

iG: Como você acha que é a melhor forma de incentivar uma criança a ler? 

Ruth Rocha: A criança tem que ser estimulada. Você tem que conversar com a criança, cantar muito com ela, ensinar versinhos, contar histórias desde que nasce. Porque a leitura é um complexo que compreende de ler, escrever, entender. É importante criar a criança para ler bem. Ter vários livro no alcance da criança. Vejo muita gente comprar um celular para a criança, que custa cerca de R$ 1 mil, mas nunca vi um pai gastar R$ 1 mil em livros. Outra coisa muito importante a ler é o evento. A criança passa muito tempo brincando de ser grande. De ser bombeiro, médico… Elas imitam os adultos, então é importante que em uma casa as pessoas leem, que cultivem a cultura. Agora se ela vai ler mesmo, eu não posso garantir [risos]

Não vi nenhuma explicação concreta do motivo de Harry Potter não ser literatura. Concordaria com ela se dissesse que não é grande literatura por ser mal escrito, ou por seus personagens não possuírem profundidade, mas do jeito que foi, parece que ela é apenas mais uma pessoa que gosta de diminuir o trabalho dos outros e pronto.

Muitas vezes já ouvi pessoas comentando que livros de fantasia, ou ficção científica, não são literatura. Ou que o gênero tal é mais importante que aquele outro. Enquanto alguns escritores alimentam estes debates, os leitores fazem suas próprias escolhas. E, eles gostam muito de Harry Potter, fantasia e ficção científica.

Química

Química
Mercúrio cromo
Átomo de carbono
Qualquer poeta medíocre
Vale vinte químicos medianos.

Mistura homogênea
Solidificação
Evaporação
Rimando funções quimicas
Só para achar a solução
Que possa trazer
Uma molécula de esperança.

Elétron
Neutron
Um sopro de vida
Mercúrio cromo
Átomo de carbono
Proton, proton, proton,
Poesia.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Chove-não-molha

Chove chuva,
Chove chuva,
Vai enchendo o Rio.
Gota d'água,
Gota d'água,
Pingo,
Pingo,
Pingo.
Cada gota me pergunta:
"Você ama?"
"Você ama?"
Queria dizer sim.
Mas, você chuva,
Você chuva
É prática.
Eu sou teórico.
Mas, você chuva,
Você chuva
Chove.
E eu, chove-não-molha.
Eu chove-não-molha.

Eu Mesmo

A vida é difícil
Pode acreditar
Mas a gente é forte
A gente sabe levar.

A gente leva os menores pra escola
Leva pau no vestibular
Leva tudo na brincadeira
A gente sabe brincar
Leva esporro dos mais velhos
Pedindo pra parar
Mas se parar não dá
Não dá pra parar.

Eu saí pra dar uma volta
Volto já
Ei mãe, por favor
Não espera eu voltar
Não espera eu chegar
Não me espera pra jantar, não.

Eu já falei mais do que devia
Já me escondi mais do que podia
Já te expliquei bem mais do que sabia
E não consegui dizer o que eu queria
Escute o que tenho a dizer
Meu bem, eu não consigo ser eu mesmo
Quando estou perto de você
Eu não consigo ser eu mesmo
Eu não consigo ser eu mesmo
Eu não consigo ser eu mesmo, não!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Deserto

É aqui que a estrada começa
E os problemas acabam
Esvazie a cabeça
Pegue o volante
E pelo menos por um instante
Não tente pensar em nada
A não ser em não voltar tão cedo para casa.

Olhe a estrada deserta e
Aceite o convite
Pise cada vez mais fundo e
Veja outra cidade ficar pra trás
Mas cuidado com a curva perigosa
Nunca se sabe o que há
Do outro lado.

Quando você está sozinho se esquece dos problemas
Então ligue o rádio no último volume e
Ouça os sons do silêncio
O barulho da solidão e
Talvez isso lhe faça bem ao coração.

Não se preocupe com o perigo
Pois o farol ilumina a escuridão e
Estará sempre á sua frente
Continue dirigindo e
Vá sem direção e
Talvez isso lhe faça bem ao coração.

Então siga seu rumo incerto
Neste caminho deserto
Talvez isso lhe faça bem ao coração.

Então siga seu rumo incerto
Neste caminho deserto,
Deserto.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Solitário

Eu não tenho tempo pra nada
A minha vida anda muito agitada
Eu não tenho tempo nem pra amar...

E dizem que sou o culpado
Mas eu te digo: "Isso é papo furado."
História de quem não tem o que inventar...

Eu não tenho culpa
Se o mundo gira ao contrário.
Eu não tenho culpa
Ele me fez solitário.

Eu passo o tempo
Olhando para o relógio.
A vida passa e eu
Querendo me encontrar...

Me perguntam por onde tenho andado
Eu respondo que estou "meio parado".
Como uma ilha que ninguém
Consegue mais encontrar...

Eu não tenho culpa
Se o mundo gira ao contrário.
Eu não tenho culpa
Ele me fez solitário.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tempo

Eu deixei a TV ligada
E sai pra procurar
O que nunca tive a chance de perder
E me sai bem, eu encontrei você
Mas, você não quis vir comigo
Me disse não quando lhe ofereci abrigo.

Eu preciso de um tempo
Pra curar a dor.
Eu preciso de você
Pra ser o meu amor.

Quando penso em voltar
Fico pensando se,
Já não tomaram meu lugar
Que eu tinha aí.
Se você vai estar me esperando,
Ou se eu vou estar me enganando.

Eu preciso de um tempo
Pra curar a dor.
Eu preciso de você
Pra ser o meu amor.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Os Dez Mandamentos

As horas passam e eu não durmo
Pensando no que aconteceu.
Mas, se o homem não foi feito pra derrota,
Essa guerra você ainda não venceu.

O que é certo já não faz sentido.
O que é errado já é tão normal.
E hoje o dia não é tão bonito.
A nossa vida chega a ser banal.

A nossa vida anda tão sem graça.
A nossa história está faltando sal.
Tem gente até pensando em suicídio.
Ah! Como é chata essa vida real...

O que é certo já não faz sentido.
O que é errado já é tão normal.
E hoje o dia não é tão bonito.
A nossa vida chega a ser banal.

Você já não é mais a mesma.
Seu riso já não é igual.
Se bem que tudo é diferente,
De tudo o que era tão normal.

O que é certo já não faz sentido.
O que é errado já é tão normal.
E hoje o dia não é tão bonito.
A nossa vida chega a ser banal

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ser Sem Estar

Não diga adeus,
Diga até já.
Vi que fostes embora,
Mas, sei que vais voltar.
Sei o que quero,
O que não quero um dia saberei.
Maldita hora que nosso amor morreu.
Não tenho pá para enterrar o que sinto.
E, o que sinto, sei que existe pois o sinto.
Grandiosa pequenez do humano,
Você sai pela porta,
E eu tento ver se dá pra
Ser Sem Estar.

sábado, 18 de abril de 2015

Construção Civil

Perguntei se ela me amava
Ela disse que seu amor
É vermelho tijolo.
Vermelho tijolo,
Eu pensando que fosse
Vermelho paixão.

Ela não me ama.
Mas, isso não é problema algum,
Eu também não me gosto tanto assim.
Certamente me gostaria mais
Se ela estivesse comigo.
Não está.
Castigo.

Ela não me ama.
E o que sinto é um vazio,
Uma fome, uma sede, uma dor,
Um aperto abrasador
No peito nú.

Raios de sol queimando o dorso,
Mas, eu não falo.
Vermelho tijolo,
Amor de construção civil.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Os Operários

Os operários constroem um prédio
Com cimento e tijolo.
Muitos não sabem escrever
Cimento e tijolo.
Mas, vão utilizando
Cimento e tijolo,
Vão falando
Cimento e tijolo,
Vão construindo a vida
Com cimento e tijolo.
E sabem que são operários
Mesmo sem saber interpretar a
Representação gráfica
O-PE-RÁ-RI-OS.

Os operários são mais que proletários,
São homens.
O fato de sentirem-se inferiores
Só existe pois outros homens,
Homens, HO-MENS,
Se acham melhores
Do que o saco
De merda que são.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Erros De Novo

Na realidade, ou irrealidade,
Eu não acredito na humanidade.
Não é da derrocada das utopias que falo,
Apenas não acredito em mim.
Sei o quanto sou mentiroso,
Por mais que prometa mil coisas,
Sempre repito meus erros de novo.

Não me faça discursos vazios de significado.
Não diga que precisamos
Reconstruir o que foi desconstruído.
Eu acredito na igualdade.
E, se todos são iguais a mim,
Sei o quanto sou orgulhoso,
Por mais que prometa mil coisas,
Sempre repito meus erros de novo.

Não estou falando de estado de natureza,
Nem de estado de guerra.
Apenas de como é fácil
Maltratar a quem nos ama,
Ou enganar quem não engana.
Falo com a autoridade de quem
Conhece bem a peça.
Sei o quanto sou rancoroso,
Mesmo que peça desculpas,
Sempre repito meus erros de novo.

E de novo,
E de novo,
E de novo...

terça-feira, 14 de abril de 2015

Humanidade

Pensar
Repensar
E fazer tudo errado de novo.

Criar
Recriar
E por engano ou desengano
Dar vida ao inconcebível
Só para que nossa cria
Pegue uma faca e corte uma fatia
A mais tenra e macia
Do nosso coração.

Construir
Desconstruir
E ver se dá para se esconder
E sobreviver nos escombros.

Escrever
Reescrever
Só para ter o prazer
De ser outra pessoa
E ter uma nova chance de recomeçar.

Tentar
Sentir
Sem ressentimento
Ser humano
Apesar de tantos atentados
À nossa humanidade.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Sobre os livros que li - O Cavaleiro Inexistente

Li recentemente O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino. Me pareceu que esta história queria questionar a todo instante o que era ou não real. Evidentemente havia humor em como foi estruturada.

Um cavaleiro que não possuía um corpo sob a armadura, e que talvez fosse melhor cavaleiro que todos os demais. Um louco sem nome, posto que na multidão de nomes que possuía era como se não tivesse nome algum, que existia mas não se dava conta disso. Uma mulher que desprezava os homens que eram de carne e osso correndo atrás do homem que não existia.

Mais do que nunca antes nós precisamos de uma identidade que parece nos escapar, principalmente quando precisamos responder a pergunta sobre quem nós somos.

Me parece que Calvino sabia que a modernidade acentuaria ainda mais esse sentimento de estar perdido quando a questão é dizer quem realmente somos.