quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Minipéia

(Alexandre Lessa)

Nascemos
Vivemos
Morremos

De um sebinho
À vida.
De uma vida
A adubo.

Da fétida gênese
Às pútridas histórias.
No final...
Bosta.

BALUARTE DO AMOR

(Dhiogo Caetano)

        No coração, na alma ou no corpo...
        Quanta ilusão, sem um reflexo de compaixão.
        Isolado assim estão meus versos e poemas.
        Por que!
        Se nada vem de mim...
        Existo somente pra ti!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 3.

(J. C. Peu)

Sozinha com o seu medo, ela andava olhando para frente ou para baixo, nunca olhava para os lados, pois evitava olhar para o interior das casas ou para os rostos das pessoas. As portas abertas das casas sempre desvelavam o que deveriam ocultar. Eram mulheres descabeladas que passavam todo o dia cuidando das crianças e das demais tarefas da casa vestidas o dia inteiro com suas roupas de dormir. Homens sem camisa e com bermudas sempre caindo, em resultado de usarem números mais altos que os seus. Crianças sempre sujas que pareciam multiplicar de número a cada vez que desviava o olhar. E, o que era o pior de tudo, homens com bermuda caindo revelando seus pêlos pubianos junto com mulheres em roupas de dormir leves e transparentes. Realmente era melhor não olhar para dentro dos casebres.
Sentia-se sozinha, também, quando precisava desviar das motos. Muitas eram conduzidas por pais de família que ganhavam a vida levando as pessoas de um lado para o outro, mas, muitas outras eram conduzidas por olheiros, aviõezinhos e pelos garotos que eram chamados de vapor. Nas calçadas, havia as tias que vendiam balas e doces, os tios que vendiam legumes e verduras e os garotos que faziam das ruas um mercado de negociação de drogas. Carla nunca quis acostumar-se em ver uma fila de vários fuzis encostados em fila nas paredes, como se fosse uma vitrine. Para ela, se num determinado dia acordasse e estivesse acostumada, acomodada com esta situação, o seu mundo teria acabado.
Desde que era uma garotinha bem pequena, quando sentia muito medo, cantava para espantar todos os males ao seu redor. Sempre quando passava no meio da comunidade sentia uma verdadeira necessidade de cantar. Queria cantar para esconder que estava com medo. Todos os dias sentia medo ao fazer este mesmo trajeto em direção da escola onde fazia seu estágio. Então, Carla deixou que soasse em sua cabeça uma das canções infantis que sempre cantava para as crianças em sala de aula. À medida que a letra da música dançava em sua cabeça, ouvia as vozes das crianças cantando. E, ao ouvir o som das vozes cantando a musiquinha infantil, o seu medo se dissipava, pois pensava não estar mais sozinha. É natural que assim fosse, posto que todos os medos que sentimos perduram apenas enquanto pensamos única e exclusivamente neles. Ela imaginava que qualquer pai ou mãe que precisava sair ainda de madrugada para trabalhar e tinha que deixar seus filhos sozinhos, deveria passar o dia inteiro cantando para espantar o medo que sentissem pelo bem estar de suas proles. Se bem que todos estão sozinhos quando há uma invasão da polícia, do exército ou de bandidos de fora da comunidade.
A sorte de Carla é que, ao cantar, não percebia o quanto caminhava mais rápido e, constantemente, chegava até o Anatole em menos tempo do que se caminhasse calada, em silêncio.   
Ao chegar à proximidade do Anatole, percebeu que algo não estava indo bem. Havia uma movimentação muito grande de pessoas, dois carros de polícia e um rabecão dos bombeiros bem em frente da entrada principal do colégio. Foi a Ritinha, faxineira do colégio, que recebeu Carla no portão. Havia muito reboliço, muita agitação, e as coisas que Ritinha dizia saiam atropeladas e se amontoavam, não dando tempo para que Carla entendesse bem o que havia acontecido. Tudo o que ela pôde assimilar foi que algo ruim havia acontecido. Em seu rosto, a serenidade que a música lhe deu foi sacudida pelas palavras atropeladas da Rita.
- Não vai haver aula hoje, filhinha. – Disse Rita com um sorriso amistoso, tentando se antecipar à pergunta que Carla faria inevitavelmente.
- O que aconteceu? – Perguntou Carla, deixando evidente que tudo o que lhe foi falado anteriormente havia sido em vão.
- Eu já não lhe disse filha?
Dona Rita envolveu os ombros da jovem com os seus braços e disse, em sussurros quase inaudíveis, que dois homens foram mortos dentro do colégio durante a noite anterior. Rita revelou, também, que estavam comentando que os mortos deviam quantias irrisórias ao tráfico, e que os policiais que entraram na comunidade foram escoltados pelos abutres que estavam circulando a todo instante na frente do Anatole armados com armas que apenas especialistas sabiam o nome.
A rua era estreita e terminava num beco sem saída para carros a pouco mais de trinta metros após a entrada do Anatole France. Eram quatro ou cinco carros, contando com os carros dos legistas, que fechavam a rua não permitindo que outros carros tivessem acesso ao final dela. Nos telhados de alguns casebres ao redor do colégio, várias outras aves de rapina apontavam seus fuzis e metralhadoras para os policiais que esperavam nos carros. Quatro policiais entraram no colégio junto com os bombeiros, enquanto dois ficaram do lado de fora, um em cada carro. Sentiam medo e encolhiam-se por estarem acuados dentro de veículos frágeis, que não apresentavam nem sequer uma sombra de proteção contra todos aqueles armamentos à sua volta. Ademais, os policiais sabiam que estavam em uma emboscada. Simplesmente não podiam acreditar como seis homens experientes, acostumados a subir morros, foram cair nessa furada de entrar numa favela para acompanhar bombeiros e legistas. Na verdade, não entendiam nem mesmo por qual motivo se precisava de legista num crime como esse.
Sentiam-se como o rato na fábula de Kafka que corria desesperado para uma ratoeira no fim de uma sala onde duas paredes se encontravam e, no ponto privilegiado da armadilha, cantavam baixinho e tamborilavam com os dedos na porta dos carros. Não admitiam um para o outro o medo que sentiam, mas, era tanto que nem sequer ousavam ficar conversando em pé fora dos carros. Eram dois policiais cercados por bandidos por todos os lados. Todo palco estava preparado para uma grande tragédia, e seria uma tragédia não terminar assim o dia. Era inevitável que o gato kafkiano lhes desse a sugestão de mudar de lado, para que eles fugissem da ratoeira, só para devorá-los.                

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ALOE VERA DO MEU JARDIM

(Dhiogo Caetano)


Uma planta medicinal.
Em um cantinho reservado para ela e para suas filhas a paz do meu jardim.
Folhas longas, espinhos, verde, flores, medicamento...
De cor exótica é faz a diferença no meu jardim.
E a preferida entre tantas!
Em um cacho gigante suas flores.
Flores majestosas, aromáticas, laranjadas...
Em seu pequeno canteiro o amor reina.
Um pequeno espaço por onde inúmeras de suas filhas se alastram.
Aloe vera do meu jardim...
Uma planta encantadora.
Complexamente aloe vera.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Escola:
A escola é um ajuntamento de salas vazias, a não ser por mesas e cadeiras, onde pessoas de mente vazia vão lá para depositarem o conteúdo de suas mentes nas mentes de pobres crianças, também de mentes vazias.
É um lugar bem legal, caso desconsideremos que parece que todo mundo que trabalha lá se diz mais conhecedor da vida, e da forma como a vida funciona, que você.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 2.


(J. C. Peu)
O ônibus contorna um morro numa curva bastante acentuada para a direita, anda por uns 150 ou no máximo 200 quilômetros, faz nova curva para a esquerda, acelera um pouco e, depois de atingir uns 75 ou 80 quilômetros por hora, freia com força para não passar do ponto. Talvez não mais que cinco minutos e todo um microcosmos que é o lixão do caminho das torres some completamente das vistas dos passantes. Mas ele ainda está lá, mesmo que não o vejam.
Vencida a barreira do caminho das torres, Carla sentia medo, também, de passar pelos homens armados na entrada da comunidade “A”. Para entrar lá, qualquer pessoa, tinha de responder a perguntas que os bandidos faziam. O que era estranho é que o medo que os bandidos sentiam de serem surpreendidos por outros bandidos da comunidade vizinha, levava-os a bolarem perguntas sobre toda a sorte de coisas e de todo grau de dificuldade. Parecia que se uma pessoa fosse capaz de responder às suas perguntas, não havia a possibilidade de que tal pessoa ser um bandido.
Certa vez, um rapaz muito bonito, bem vestido e estiloso na aparência, cruzou o pórtico que havia na entrada da favela e foi parado por dois sentinelas armados, que lhes perguntaram, note só, os nomes de todos os jogadores da seleção brasileira de futebol na copa do mundo de 1970 em ordem alfabética. Os biltres ficaram boquiabertos quando o jovem, com toda a elegância do mundo, começou a alistar um a um os nomes dos jogadores. Várias pessoas que esperavam sua vez de serem alvejadas com perguntas descabidas que cerceavam seus direitos aproveitaram para entrarem na comunidade enquanto os bandidos ficaram distraídos com o grande feito memorialístico do jovem rapaz.
Lembro-me, perfeitamente, de um entregador de contas de luz que toda vez que entrava na comunidade era perguntado sobre o nome e o sobre-nome de todos os moradores que receberiam suas contas. Todos os dias o homem respondia bem no início, mas por volta do trigésimo ou do quadragésimo nome, sua memória começava a falhar.   Era uma realização hercúlea conseguir gravar os nomes de 825 clientes da concessionária. Os bicheiros começaram a organizar apostas, primeiro se o homem alcançava 50 nomes, depois 70, até que quando o entregador alcançou 100 nomes, um apostador recebeu uma bela quantia em dinheiro.
Houve um dia, porém, que para surpresa de todos, o homem respondeu de forma exata todos os nomes dos clientes que moravam naquela localidade. Muitas pessoas suspeitam até hoje de alguma fraude, ou algum ato de astúcia utilizado pelo homem, mas o fato é que ele conseguiu falar os nomes de 825 pessoas. Mesmo pasmados com o grande feito do entregador, os malandros continuaram mostrando quem mandava no pedaço. Disseram ter perguntado quantos clientes receberiam suas contas e, segundo eles, a resposta exata era ‘quantos eles permitissem’. O que era verdade.
O pobre homem poderia continuar tentando, mas imaginou que seria inútil ir contra a burocracia do tráfico. Voltou as costas à entrada da favela e caminhou desolado até o ponto de ônibus mais próximo. Ao avistar o seu ônibus, fez sinal com as mãos para que parasse, entrou nele e nunca mais foi visto por ninguém. Provavelmente perdeu o emprego. O fato é que outros entregadores de contas de luz surgiram, mas nenhum deles persistiu por mais de uma  semana na tentativa de decorar nomes. Era por isso que ninguém na comunidade pagava luz.
Para Carla as perguntas nunca eram tão difíceis. Já lhe perguntaram muitas coisas antes. Perguntas sem nenhum cabimento, que a faziam refletir por qual motivo as pessoas se sujeitam a esta forma de cerceamento de sua liberdade. Certa vez perguntaram-lhe qual era a diferença dos termos ‘complexo’ e ‘complicado’ segundo o pensamento de Morin. Mais estapafúrdia foi a pergunta “qual o nome do conto de Borges em que um personagem diz ‘o fator estético não pode prescindir de um certo elemento de assombro’?” Desde quando selvagens que torturam e matam com requinte de crueldade conhecem a literatura de Borges?
Nesta manhã Carla atravessou o pórtico de entrada da comunidade “A” e os sentinelas perguntaram-lhe o que eles haviam almoçado no dia anterior. Carla pensou um pouco e respondeu que um deles havia comido uma quentinha de ‘bife com fritas’ e o outro ‘frango com batatas’. Passou. Se acertou ou não a pergunta imbecil, não sabemos.
Carla andava pelas ruas principais da favela com o mesmo medo que sentia  ao atravessar o caminho que ladeava o lixão. “Na comunidade também há urubus.” – Pensou ela ao ver que os biltres do tráfico tinham, quase todos, nariz adunco, pescoço esticado que projetava para frente e não para o alto as suas cabeças e, o que ela considerava ser o pior, andavam todos com um andar característico que consistia em braços semi-abertos afastados do corpo, passada ritmada que provocava um movimento de sobe e desce da cabeça e, por fim, uma leve curvatura da coluna que os fazia parecer um pouco corcundas. Era, em suma, um bando de urubus.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Escritores de domingo

Li o livro "A Idade da Razão", de Sartre, tempos atrás, e o termo "escritores de domingo" ficou na minha cabeça. No dia 19 de agosto deste ano criei o blog com este nome "Escritores de Domingo", pois achei interessante a ideia de que, alguns escritores como eu, são realmente isso, "Escritores de Domingo". Fazendo uma pesquisa no google, procurava maneiras de fazer meu blog se tornar mais visível nas pesquisas do google, até agora não encontrei esta fórmula mágica, achei esta postagem, encontrada no endereço:

http://antologianiilista.blogspot.com/2011/02/escritores-de-domingo.html

Gostei de relembrar da gênese do nome do meu blog, embora não tenha apreciado muito a leitura de "A Idade da Razão". A única coisa que tirei de proveito foi saber dos "Pintores de Domingo", e dos "Escritores de Domingo".

Escritores de domingo

"-- Foi esse Gauguin que fugiu? -- perguntou repentinamente Ivich.
-- Sim -- disse Mathieu com solicitude. -- Quer que lhe conte a história?
-- Acho que a conheço: era casado, tinha filhos, não é isso?
-- É! Trabalhava num banco e no domingo ia para o campo com seu cavalete e seus pinceis. Era o que chamamos 'um pintor de domingo'.
-- Pintor de domingo?
-- Sim. A princípio era isso. Um amador que borra telas no domingo, assim como a gente vai pescar. Mas por higiene, compreende, porque a gente pinta ao ar livre, respirando o ar puro.
Ivich pôs-se a rir, mas não com a expressão que Mathieu esperava.
-- Acha engraçado que ele tenha começado como pintor de domingo? -- indagou Mathieu inquieto.
-- Não, não era nele que pensava.
-- Em que então?
-- Eu estava pensando se a gente podia falar também em escritor de domingo.
Escritores de domingo! pequenos burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu."

(Sartre, A idade da Razão)

Então é isso que somos: escritores de domingo. Um pouco menos regulares, talvez: passando por períodos de maior ou menor inquietação que fazem os domingos aparecerem mais ou menos do que uma vez por semana; mas, ainda assim, escrevendo por esse mesmo motivo: por higiene.

ABRAÇO NA ALMA

(Dhiogo Caetano)

          Algo totalmente diferente.
          Nunca tinha vivido a experiência de sentir aquela paz plena.
         Deixei de existir por um segundo.
         Meu coração batia mais forte, uma luz invadia meu ser.
         Permaneci ali totalmente sem expressão.
         Em inúmeras vezes abracei, mas nunca com aquela intensidade.
         Poeticamente falando aquele momento era sublime, mágico, surreal.
         A transparência da neblina completava a essência daquele lugar.
         Posso ouvir os cânticos gregorianos e as vozes dos anjos que entoa a complexidade daquele momento.
         Sentia o toque, mas era diferente algo nunca antes vivido por um mortal.
         Um toque, um simples abraço que purifica a alma. 
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Computador:
É um caderno que podemos ligar na tomada. Se no caderno podíamos escrever nas contra-capas poesias, letras de músicas, desenhar, no computador podemos fazer a mesma coisa, e ainda mais um pouquinho, como jogar, ouvir música, o assistir a vídeos no ‘you Tube’.
A vantagem do computador é que podemos viajar mais dentro dele. A desvantagem é que se faltar energia elétrica...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A MÉTRICA DOS PASSOS ENSAIADOS

(Dhiogo Caetano)

Infinitamente arte...
Uma dança ao som de uma bela música clássica.
Aquela menina baila como um anjo que paira no ar.
Não consigo definir sua forma, mas a sua beleza é inigualável.
Todos se encantam, com tão grande beleza.
A métrica se funde com a musicalidade.
Seus gestos maravilhosamente suavizam o ambiente.
Uns choram, outros simplesmente ficam em transe diante da magia da dança.
Os seus passos metricamente ensaiados corroboram para complexidade do momento.
Lentamente ela se entrega à arte da dança.
Todos mentalmente seguem os seus passos pelo salão.
Um belíssimo coral se funde para contemplar, dança e cantar aquelas canções.
Uma menina, uma mulher, um anjo, uma deusa... A arte plenamente viva...
A fusão de amor, ensaio, magia, canção, emoção...
Bravamente ensaiados aqueles passos metricamente suavizados.
Aplausos!  

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 1.

(J. C. Peu)

            Vários urubus reviravam o lixo em busca de comida. Às vezes, quando uma pessoa passava muito perto, olhavam de forma ameaçadora. Se alguém se aproximasse um pouco mais, davam pequenos vôos e pousavam alguns metros mais distante, o tanto quanto pudessem considerar uma distância segura. Mantinham suas asas abertas para parecerem maiores e mais ameaçadores do que eram realmente. O movimento de ficarem parados observando as pessoas com as asas abertas servia, também, para permanecerem preparados para novos vôos que os afastariam mais alguns metros de qualquer um que se aproximasse novamente.
            Carla tinha medo de passar pelo caminho das torres, como era chamada uma faixa regular de terra que tinha grandes torres de energia e seus cabos como firmamento e, em baixo das torres, dois campos de futebol e um lixão onde habitavam os urubus. O já referido caminho das torres ligava uma comunidade carente que fica de um lado das torres a outra comunidade carente que fica do outro lado. Alguns chamam este terreno de Faixa de Gaza. Isto é um problema, posto que outras comunidades reivindicam o direito de usarem com exclusividade o nome Faixa de Gaza. Argumentam que as suas Faixas de Gaza são mais perigosas, mais famosas e, por estes motivos, mais merecedoras do título.
 Disputa inútil na opinião de Carla, e na de qualquer pessoa sensata, já que tal título não é em nada lisonjeiro. Refere-se ao fato de que à noite, era comum ver balas traçantes de fuzis cruzarem os céus à cima das torres. Em resultado disso, muitas eram as manhãs que desvelavam com os primeiros raios de sol a imagem de corpos desovados no lixão.
Os urubus, os corpos, o mau cheiro do lixo, a solidão, estes são os principais motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres. O medo diminuía um pouco quando Carla passava por lá acompanhada por outras pessoas. Parecia que quanto mais pessoas a acompanhassem, maior a probabilidade de evitar uma hecatombe.
Às vezes, aproveitava a carona do seu tio, que ia de bicicleta para a estação de trens, e atravessava com ele o caminho das torres. Costumava sentar no bagageiro da bicicleta de lado e segurar na barriga de seu tio. Nessas oportunidades gostava de fechar os olhos para não ver o lixão. Parecia flutuar por sobre toda aquela miséria. Nesses breves momentos sentia-se a pessoa mais importante do mundo, como se estivesse alcançado o paraíso.
Um dia estava assim voando baixo, desligada do mundo, quando seu tio que estava correndo numa boa velocidade com a bicicleta, desviou de forma brusca de algo que surgiu inesperadamente no seu caminho e soltou uma exclamação de surpresa em forma de palavra chula. Balançou de um lado para o outro o guidão da bicicleta, quase levando Carla ao chão. Por instinto, ela segurou ainda mais forte e cerrou ainda mais os olhos para não ver o tombo que por pouco não levaram. Não era uma pedra que estava no meio do caminho e sim o corpo de um homem morto que foi abandonado ali, quase escondido pelo mato ralo o suficiente para esconder um defunto. Quase que atropelaram o morto. Como já dito, estes são os motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres.
As duas comunidades vizinhas são dominadas atualmente por uma mesma facção criminosa, mas na época em que esta história aconteceu, duas facções rivais diferentes dominavam uma comunidade cada.
Carla Camuratti, a atriz e cineasta, estava em evidência quando nossa Carla nasceu. Não era tão bela quanto a Carla cineasta, mas tinha seus encantos. Tinha, também, dificuldade de enxergar à distância por causa da miopia e do astigmatismo, que lhe obrigavam a usar óculos constantemente. Seus óculos tinham uma bela armação, o que fazia seu encanto não ser tão afetado, muito pelo contrário, tinha um ar inteligente e sedutor ao limpar as lentes dos óculos e, vez em quando, ao meditar, mordia uma das extremidades da armação em poses que ficariam perfeitas em anúncios de lentes tão comuns nas paredes das óticas.
Por ter aparência de professora desde pequena, decidiu que faria o 2° grau numa escola que oferecesse o curso de formação de professores. Achava linda a imagem de uma multidão de moças vestidas com blusa branca e saias de pregas azul-escuro, abraçadas com seus cadernos, que invadiam o centro de Nova Iguaçu vindas do colégio João Luis do Nascimento. “– Mãe, quero ser normalista quando crescer!” – Dizia Carla com uma empolgação que resistiu a passagem de tempo, alcançando a adolescência. Aqui a vemos já na época dos estágios.
Conseguiu uma vaga para estagiar na escola Anatole France. Esta escola fica no meio de uma das comunidades, entre a comunidade que podemos chamar de comunidade “A”, e Carla morava no centro da outra comunidade, que chamaremos de comunidade “B”. No meio do caminho, entre uma comunidade e outra, não havia apenas uma pedra, mas um lixão, os urubus, as torres de energia, os campos de futebol, os mortos, as balas traçantes e o medo que Carla sentia ao ter que passar sozinha pelo caminho das torres.
Caminhava com receio, olhando para os lados e para trás de si. Nesta manhã, uma mulher levava os filhos para escola, duas crianças que por já terem nascido no meio da violência, não tinham lembrança alguma da época em que a segurança não era uma preocupação tão grande. As crianças corriam brincando de bolinha de gude enquanto andavam, e se afastavam um pouco da mãe, que lhes gritava os nomes para que esperassem por ela. A mulher e os dois garotos estavam a cerca de 100 metros de distância de Carla, á sua frente. Por mais que andasse rápido, não conseguiria alcançá-los. Um pouco menos distante caminhava uma senhora idosa. Andava lentamente, o que fez com que Carla se perguntasse por qual motivo ela não optou por ir de ônibus. Mas, Carla sabia que ninguém iria escolher pegar um ônibus apenas para não passar pelo caminho das torres. Passar pelo caminho das torres é muito mais rápido, pois corta caminho. No caso de Carla, de sua casa até o ponto em que deveria descer para chegar ao Anatole, são apenas duas paradas. Quase não dá tempo de passar pela roleta e descer sem pedir para o motorista esperar um pouco.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Drogaria

(J. C. Peu)




Ali havia uma casa
Hoje há uma drogaria.
Naquele shopping existia, 
Não a muito nem a pouco tempo atrás,
Um brejo.
Aterraram.
Com barro vermelho, 
Entulho e saibro
Socaram,
Com bate estacas
E tudo o mais.
Se eu fosse um sapo
Choraria.

Ali havia também um barraco.
Hoje há uma drogaria
De uma rede rival
À drogaria que agora existe
Do outro lado da rua
Onde antes era uma casa
Simples, 
De tijolo e cimento,
Que existia.

Ali havia uma árvore
Do outro lado do muro,
Onde um terreno baldio
Também havia.
Hoje a árvore ainda existe
E o terreno baldio também,
Resistem.
Viraram até ponto de encontro
Para os usuários dos produtos
Da drogaria.

Ali existiam corujas,
Sapos, brejos, casas e barracos.
Hoje existem shoppings, prédios,
Estação do metrô,
Drogarias.
Se eu fosse uma coruja poliglota
Chirriava,
Piava,
Grasnava,
Crocitava,
Gritava,
Chorava, e,
Quem sabe até
Latia.



Este livro pode ser comprado no site do Clube de Autores. A arte da capa é de Thiago Miranda de Oliveira.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)


Abridor:
Objeto de metal, que serve para abrir latas ou garrafas de cerveja, mas, na falta, para abrir latas utilize uma faca grande, perfurando a lata e forçando a faca para produzir uma abertura. Para abrir garrafas, utilize a quina ou lateral de uma mesa, encoste a garrafa e dê uma pancada, é batata! Dá para abrir, também, com os dentes da parte de trás da boca, mesmo que este processo não seja recomendado pela Sociedade Brasileira de Odontologia.

Literatura Democrática

(Dhiogo Caetano)

LITERATURA DEMOCRÁTICA



         Na atualidade podemos encontrar inúmeros espaços editoriais e virtuais que promovem a integração de projetos de incentivo à leitura, e a inclusão literária de forma mais abrangente. Com o intuito de gerar oportunidade de desenvolvimento cultural e inclusão de escritores no mercado editorial, seja no território nacional ou internacional.
         Estes espaços na rede possibilitam a realização de um manifesto de inclusão literária, realizada por inúmeros autores do mundo que corroboram para a valorização da escrita e da leitura.
         Hoje, são muitos que interessam em construir um mundo melhor através da escrita, são vários os escritores que se lançam neste universo das letras, visando encontrar parceiros sensíveis e voluntariosos para formar uma rede de colaboradores.
         O projeto traçado por estes colaboradores esta voltado para uma literatura analítica e profundamente crítica da realidade, onde se pode encontrar a diversidade dos gêneros e estilos, o qual se fecunda em âmbito de lirismo, arte e sociedade.
         Educação, arte, liberdade e expressão são importantes armas que podem mudar o rumo do nosso país e do mundo, rompendo com as mazelas e com a excessiva manipulação e exploração da massa. Nas margens da sociedade estão os “bestializados”, os esquecidos, os excluídos pelo sistema; aqueles que não lêem, porque não tem acesso a este mundo mágico e transformador que é a literatura.
         Hoje no século XXI nós amantes das letras podemos encontrar apoio em inúmeros projetos literários com: Portal Literal, Overmundo, Canto dos escritores, Canto das letras, Escritores Livres, Revista Partes, Nova Coletânea, YouTube, WebArtigos, Poetas Livres, Mandio Editorial, e outros.
         Portanto, precisamos fundamentalizar uma literatura democrática, um espaço pra todos e assim difundir a literatura de forma homogenia sobre o Brasil e todo o restante do globo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Contos Imediatos

(J. C. Peu)



Dou parabéns a todas as pessoas que trabalham na editora Terracota. Não conhecia esta  editora. Estava procurando algum livro de ficção científica de autores brasileiros para comprar, pois sempre tive algum preconceito quanto a autores brasileiros escrevendo este gênero. Já havia lido algumas boas histórias, mas alguns autores deixavam muito á desejar.
Encontrei um livro da editora Devir Livraria sobre política intergalática, ou alguma outra coisa parecida, chamado "Assembléia Estelar", mas a capa não era chamativa. Se a editora não teve o cuidado de escolher uma boa capa, como poderia confiar que fez uma boa escolha de autores e histórias? Sei que não se julga um livro pela capa, mas, não se pode negar, que boas capas podem pescar leitores que não possuem muitas imformações sobre determinado livro, que era o meu caso.
Foi quando encontrei o livro "Contos Imediatos" e procurei no Buscape. Achei com o preço de R$ 26,00, mas com o valor do frete sairia mais caro. Fui até a livraria Saraiva, no centro do Rio de Janeiro, e procurei por ele, mas não achei. Também não achei nenhum livro da Terracota na livraria Travessa. Fui em outra Saraiva, também não tinha, mas, o vendedor falou que podia encomendar, e que sairia pelo mesmo preço, R$ 26,00. Foi o que eu fiz.
Três dias depois eu já estava com este livro maravilhoso nas mãos. O trabalho é muito bom, beirando a perfeição. A capa é muito bem desenhada, com um desenho que prendeu minha atenção e meu interesse assim que bati os olhos nele. O papel da capa, e do interior do livro é de ótima qualidade, um trabalho de primeira!
O que mais gostei, porém, foi a ótima seleção de contos. Consegui ver que o Brasil não deixa nada a desejar em comparação com outros países, inclusive com os autores estadosunidenses. Al guns contos são, simplesmente, espetaculares. Déjà-vu, de Luiz Bras, Cibermetarrealidade, de Tibor Moricz, são os meus preferidos, mas, vários outros apresental altíssima qualidade, e nenhum deles é mal escrito, ou de mau gosto. Embora muitos não se mostrem de maneira firme como um conto de ficção científica brasileiro, posto que poderiam ser escritos por qualquer outro bom autor estadunidense, por exemplo, alguns se pontuam de forma clara no terreno brasileiro. Destaco, embora não seja uma das histórias que mais me fascinaram, o conto O Olho Que Tudo Vê, de Ademir Pascale. O narrador deste conto é cobrador de lotação, e mora no bairro de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, de modo que a história se passa completamente em território nacional. Considero esta iniciativa um diferencial importante, que agrega grande valor ao conto de Ademir Pascale.
Recomendo a leitura deste livro singular. Provavelmente a maioria dos leitores se surpreenderão com a possíbilidade de ir "para o infinito, e além", sem sair do Brasil.

O Planeta dos Macacos – A Origem


(J. C. Peu)

Poucos filmes criaram em mim tanta expectativa para este ano quanto “O Planeta dos Macacos – A Origem”. Não me decepcionei. Muitas vezes, criar expectativas pode resultar numa imensa frustração. Em certas ocasiões, não alimentar expectativa alguma em relação a um filme se mostra uma opção muito melhor.

Lembro perfeitamente da frustração que me causou esperar com ansiosidade o lançamento do filme “A Fonte da Vida”. Eu acompanhei por meses todas as notícias que apareciam sobre o filme. Acreditava que o projeto resultaria num grande filme de ficção científica. Foi frustrante ver que o resultado não se mostrou nem um bom filme de ficção científica, nem um bom filme de romance, já que foi isso que acabou se tornando.

No quesito filme que não criei expectativa alguma em relação a ele, “X-Man – Primeira Classe” me surpreendeu muitíssimo. Assisti aos dois primeiros filmes no dia do lançamento no cinema, mas quanto ao terceiro, esperei chegar na locadora. Não eram filmes horríveis, mas não me agradaram muito. Li as críticas do “Primeira Classe”, e fiquei com duvida quanto a se o filme era realmente bom, ou se os críticos tinham  bebido muito antes de escrever as críticas. O filme é melhor que os anteriores, o que é muito bom, e fez com que eu ficasse satisfeito com o bom trabalho realizado. Dois filmes, duas experiências diametralmente opostas uma á outra.
Quanto ao  “O Planeta dos Macacos – A Origem”, as minhas expectativas estavam nas nuvens. Comprei o filme original, de 1968, para me preparar para o filme. Já tinha visto o filme mais de duas décadas atrás, e sempre gostei muito dele. Toda a reflexão presente no roteiro sempre me fascinou. Ao assistir a versão de Tim Burton, em 2002, gostei muito dos efeitos e da maquiagem do filme, mas achei a história muito fraca e pasteurizada.

Este novo Planeta dos Macacos é muito melhor que a versão de 2002. Tanto nos efeitos quanto na concepção visual o filme é muito superior. Se em todas as versões anteriores os macacos eram mais homens que macacos, esta foi a primeira vez que vimos um macaco humanizado, mas, sem deixar de ser um macaco. Ponto para a brilhante interpretação do Andy Serkis como César. Seu trabalho é tão impressionante que esquecemos de perguntar sobre o que aconteceu com o personagem do James Franco, que foi completamente eclipsado pelo surgimento em sena de César  Serkis. 
César, sobrenome Serkis, é o melhor personagem que assisti no cinema neste ano. Os clichês do roteiro no que se refere ao personagem do cientista maluco, do industrial louco por dinheiro e inescrupuloso, do parente doente, do bonitão bem sucedido solteiro, etc, não tem importância alguma, pois a história é do César e não de qualquer outro personagem.

Considero que o filme poderia ser melhor se houvesse uma cena com poder imagético capaz de estar, ou pelo menos tentar, a altura da cena final do filme de 1968, onde Charlton Heston cai de joelhos na areia da praia ao perceber que o próprio homem foi responsável pela sua extinção. Faltou um pouco mais de impacto ao filme, mas nada que seja capaz de diminuir o seu brilho. Recomendo com louvor este magnífico exemplar de bom filme de ficção científica.

Que venham outros!

Mundo

(J.C.Alcantara)

Se eu estou feliz
O mundo está.

Se estou triste,
Triste o mundo está.

Eu sou o mundo
Que me rodeia.

Seu pó é o sangue
Que corre nas minhas veias.

Seus átomos, água e ar,
Me constituem como o sal ao mar.

Eu sou a luz da vela que se extingue
Bruxuleante num bar.

domingo, 11 de setembro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)
Celular:
É uma das melhores formas de se comunicar. Serve para tirar fotos, assistir a vídeos, realizar vídeos, ouvir música, mandar e-mail. Serve para falar, vez em quando...
O meu, parecia um pai de santo, só recebia. Era pré-pago, e eu só colocava créditos quando recebia mensagem informando que poderia ser cancelado. Hoje, coloco uma quantia X e ganho 5X em bônus para falar á vontade. Pena que não tenho o número de ninguém na minha agenda...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Iogurte:
Para mim, o melhor de todos os iogurtes é o tipo ‘petit suisse’, e quando tinha ‘petit suisse’ na minha casa eu sabia que podia pedir dinheiro ao meu pai.
Estranho é que iogurte de morango é mais gostoso do que a fruta em si, e, mais estranho ainda, é que comer iogurte com o dedo é mais gostoso do que com a colherinha.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

No Trem Para Japeri 2


(J. C. Peu)



Ao correr para garantir um lugar sentado no trem para Japeri, pensava apenas em ir para casa sentado,  descansando, nada mais me ocorria. Da Central do Brasil até a estação de Comendador Soares  em Nova Iguaçu, para onde me dirigia, são aproximadamente 60 minutos, e mesmo num sábado á tarde,  o movimento de pessoas é bastante intenso.
            Consegui sentar e, logo que a voz um pouco metalizada do homem do auto-falante anunciou que aquele trem, parado na plataforma 8 linha H, era o próximo com destino a Japeri, todos os lugares vagos foram ocupados como num passe de mágica.
            Uma mulher, com não mais de 30 anos de idade, acompanhada de seu namorado e outro rapaz que, entendi depois, era seu sobrinho, sentou-se ao meu lado. O trem já estava lotado. Não havia lugar para os 3 viajarem sentados. O namorado ficou em pé na sua frente, enquanto o sobrinho ficou estacionado diante de mim.
            Eu tentava ler uma revista, mas a conversa do trio não me permitiu. Não tive culpa, e não posso ser acusado de bisbilhotar a vida dos outros. A mulher conversava em português com o sobrinho e, no meio da conversa, descobrimos que ela foi morar na Alemanha aos 16 anos, só depois disso prestei atenção em seu sotaque. Ele não correspondia a nenhum dos quais eu conhecia.
            Entretanto, com o namorado ela falava, ou traduzia o que o sobrinho dizia, em um idioma que, á princípio imaginei que fosse o inglês. Eu não sei falar inglês. Mas,  não tem como ter certeza, achei aquele inglês muito estranho. Ele não correspondia ao que eu conhecia do inglês das músicas dos Beatles, do U2 ou dos filmes legendados. Se fosse inglês, eu reconheceria uma palavra ou outra.
            Quando ela me disse que foi para a Alemanha aos 16 anos, decretei: “É o alemão!” Talvez não fosse. Não tem como ter certeza, os alemães do filme A Queda, ou A Vida Dos Outros, pareciam falar diferente. O alemão deles, dos atores dos filmes, não correspondia nos meus ouvidos com o alemão que a mulher falava com seu namorado, com seu sobrinho e com os demais passageiros do vagão, que não podiam ser acusados de bisbilhoteiros se era ela que falava alto demais.
            O namorado comentou segundo nossa tradutora, que estava espantado com o fato de uma cidade tão grande quanto o Rio ter tão pouco metrô. O sobrinho da moça em resposta disse: “Aqui no Rio o que tem o poder mesmo de unir a cidade é o trem.” Dificilmente se pode falar de periferia no Rio sem falar de trem. É o trem que liga a  Zona Oeste com a Zona Norte e o Centro. Liga, também, a Baixada Fluminense com as Zonas Norte, Oeste e a Leopoldina. Concordo com o rapaz, porém, acredito que o trem é muito mais que mera ligação entre regiões distantes entre si. Como mera ligação, existe o ônibus.
            Para usuários oriundos da Baixada, que não possuem a opção de passagens de ônibus a preços acessíveis, o trem é a melhor e mais barata opção de chegada ás regiões centrais da cidade do Rio. Uma passagem de ônibus de Queimados para a Central do Brasil, por exemplo, custa, em média, R$ Se a opção for por uma viagem mais rápida e confortável numa van ou num ônibus especial, a viagem fica ainda mais cara. Sem contar que em muitos dias, os engarrafamentos na Av. Brasil e na Dutra, principalmente na altura de Belford Roxo, podem fazer a viagem de ônibus durar quase o dobro do tempo de uma viagem de trem.
            Como tenho uma ligação antiga e sentimental com os trens urbanos, penso que os trens são quase como uma extensão da minha casa. Desde os 13 anos de idade minha ligação com os trens é praticamente diária. Quando passo alguns dias sem andar de trem fico doente.
            Meu pai era camelô nos trens para Japeri e Santa Cruz. Quando comecei a vender jornais aos 13 anos, pela Casa do Menor Trabalhador, retornava para casa no Japeri todos os dias por volta do Foi assim por 4 anos. Depois trabalhei muito em várias atividades diferentes entre si, a única ligação era o trem. Na faculdade o trem ainda me acompanhou. É como se os trens fossem minha segunda casa, e os usuários, os camelôs, os ‘rapas’, por mais estranho que possa parecer,  fossem meus parentes. Uns um pouco distantes, outros um pouco mais próximos, mas meus parentes.
            A mulher, o sobrinho e o namorado desembarcaram na estação do Engenho de Dentro. Seguiam para o Estádio Olímpico. Vestiam camisas do Botafogo. Neste dia, o Botafogo ganhou o jogo. Eu fiquei feliz por ter ganhado mais três parentes, mesmo sem saber em qual idioma a mulher e seu namorado se comunicavam. A revista que eu lia já não tinha tanta importância quanto dividir estas impressões da viajem no trem para Japeri.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Caso da Coruja


 

(J. C. Peu)


Esta reportagem bem que poderia ser um conto por todo o seu teor passional; poderia igualmente ser uma fábula, posto seu tom simbólico. Mas, nem conto nem fábula, esta reportagem é notícia, pura e simplesmente notícia.
O senhor Coruja, morador do velho ipê roxo, num acesso de fúria, atirou contra um grupo de jovens que estavam reunidos perto de sua árvore e veio a matar um deles, um dos filhos do meio do Sr. Hiena; além de deixar também mais dois feridos, dois jovens macacos de duas famílias conhecidas e respeitadas de macacos. O Sr. Coruja após o ocorrido entregou-se ao delegado da floresta, o Sr. Leão. Este, soltando fogo pelas ventas de raiva e indignação por tamanha atrocidade, quase devorou o Sr. Coruja quando ele disse que só falaria alguma coisa a respeito do crime na presença do seu advogado.
Se tudo dependesse do leão, se ele fosse mesmo o rei da floresta, coitado do Sr. Coruja. Cá para nós, todo mundo sabe que o Sr. Leão é velho conhecido do Sr. Hiena,o pai do morto, e até dizem que ambos foram ou ainda estão envolvidos em negócios suspeitos, deixemos quieto este assunto, o fato é que o Sr. Coruja deve dar graças a Deus que um animal qualquer inventou direitos e leis, pois se não fosse isso, “era uma vez” uma pobre coruja.
Graças a liberdade de expressão e também a algum dinheiro que eu trazia no bolso, consegui ter acesso aos bastidores deste caso. Sabemos que muitos funcionários da lei são ratos facilmente corruptíveis. Nenhum repórter da concorrência foi testemunha ocular do que se passou na delegacia como eu fui, então, com exclusividade relato-vos agora todos os pormenores deste caso intrigante.
O delegado rugia ameaçador andando de um lado para outro, vomitando ameaças para o Sr. Coruja. O leão por natureza gigantesco em comparação com a coruja, e todos os outros animais de pequeno porte, parecia ainda maior. O tatu, que era o escrivão na delegacia, tinha muito medo do chefe quando este ficava nervoso desta forma e tremia tanto que cheguei a pensar, em dado momento, que ele teria um ataque cardíaco a qualquer instante. A coruja, pobrezinha, estava de cabeça baixa e totalmente descorada. Qualquer um notava que ela lamentava muito o que havia feito. Porém, não impressionava nem um pouco o colérico leão, que repetia a todo tempo aos berros: “Não vou me deixar levar pelas aparências! Conheço animais deste tipo, são uma corja de sonsos!”
Não me parecia que a coruja fingia. Parecia-me mais que ela estava profundamente  envergonhada. Não tinha medo. Definitivamente não era o medo que a fazia permanecer de cabeça baixa enquanto ouvia todos os impropérios deste mundo. Sentia apenas vergonha por ter difamado o bom nome de todas as famílias de corujas da floresta e o seu próprio. Bem no átimo de tempo enquanto eu fazia estas anotações e pensava na linha tênue que separa um animal de respeito de um criminoso, chegou na delegacia o Sr. Raposa, advogado da família do Sr. Coruja. Cá para nós, esta família, a das raposas, é uma família que contém um número enorme de malfeitores em suas fileiras, mas, mesmo assim, sempre costumam posar como grande defensores da lei.
Rapidamente foram feitos os preparativos para o depoimento do Sr. Coruja. O semblante do delegado se iluminou e ele ficou radiante de um instante para o outro. É verdade, vi até um sorriso macabro no canto direito de sua bocarra. Era como se ele dissesse com todas as letras, sem, no entanto utilizar nem sequer uma palavra, que a coruja não tinha como escapar das suas garras.
Quando todos estavam preparados para ouvir o depoimento da coruja, ela disse: “Falo somente após beber um copo com água”. Estas palavras foram um balde de água fria derramado sobre a cabeça do delegado, que falou, peremptoriamente, em um tom de voz elevado: “ O senhor acha que está em um bar por acaso?”
O Sr. Coruja, nem um pouco assustado com o rugido do leão, chilreou impávido: “Pois , eu só falo após beber um copo de água”. Foi algo muito interessante ouvir um barulho pavoroso como o som de um trovão ser respondido com firmeza por uma leve brisa primaveril. Nisto o rábula levantou-se em favor do seu cliente e disse que ele tinha sim o direito de beber água.
“Tragam então um copo D’água”, bramiu onipotente o delegado para um de seus muitos puxa-sacos de carteira assinada. Logo, uma anta, que devia ser um detetive, investigador, ou qualquer outra coisa que o valha, já que na floresta nenhum crime é investigado de forma séria, trouxe um jarro imenso, bem próprio para leão matar a sede. Mas, como a água não era para o delegado e sim para a coruja, tinham que encontrar um recipiente menor ou nada de depoimento.
O leão, irritando-se novamente, começou a andar de um lado para o outro, bufando, como que procurando alguma coisa que perdera em meio a tamanha agitação.
Era inevitável, quando o chefe ficava um pouco mais exaltado o Sr. Tatu, o escrivão, começava a tremer. Tremia como vara verde. Tremendo mesmo teve uma idéia. Ofereceu seu próprio copo para que a coruja bebesse água e para acalmar um pouco os ânimos do delegado.
O copo não era o ideal. O tatu tem focinho fino e alongado, enquanto que a coruja tem uma cara batida e o bico pequenininho. Entretanto, era o que se tinha. Foi dada finalmente água para a coruja.
Era visível a dificuldade que ela enfrentava para beber água, mas, além desta dificuldade por demais evidente, havia junto uma demora proposital. Ela pegava o copo e levantava-o até o bico com uma solenidade fingida. Sorvia demoradamente um pequeno tanto diminuto e, novamente levantava os olhos para ver a reação que seu ato causava nos observadores.
Os olhos do leão soltavam fagulhas e após a quarta repetição deste ato maçante pela coruja, ele bramiu colérico um caminhão de imprecações que fizeram todo meu corpo arrepiar-se e minhas penas ficarem eriçadas, mas a coruja, nada. Nenhuma reação. Nem parecia que tudo aquilo era com ela e para ela, continuava com seu olhar de peixe morto.
Como a coruja destemidamente ousou repetir o mesmo ato uma quinta vez, o leão precipitou-se e agarrou-a pelo pescoço com sua pata avantajada, e ia mesmo estrangulá-la, se todos os ali presentes não tivessem pulado sobre ele. Não foi nada fácil fazer com que o delegado soltasse o Sr. Coruja, mas conseguimos após muito esforço e muita gritaria.
Se passaram uns bons dez minutos nesta cena: A coruja arfando em um dos cantos da sala e o leão bufando em outro, possesso com o culto das aparências e com os fios invisíveis que o prendem a convenções e regras criadas por animais que, com certeza, não passaram por situações tais como esta e que o impedem de fazer o que realmente deseja.
Chamando toda atenção para si a coruja, ainda respirando com dificuldade, disse: “Estou pronto para falar.” Todos os olhos naquela sala fixaram-se nela, que continuou: “Não por medo, mas por ver, devido a reação do senhor delegado, que muitos animais tem menos paciência que eu.”
A coruja tinha uma das pernas maior que a outra e, mancando, jogando o tronco para frente e para trás, foi até o meio da sala. Seu andar claudicante fez com que todos procurassem se acalmar. Até então, ninguém havia notado esta deficiência, prestando mais atenção ao crime cometido do que nela como animal.
Sem pigarrear a coruja começou a falar: “Como os senhores podem notar, sou deficiente físico. Desde que me entendo por animal e ser pensante sou assim. Há coisas na vida que precisamos apenas nos acostumar, eu me acostumei a isso desde bem pequeno, mas, os outros animais parece que nunca aprendem que no mundo existem muitos animais que são diferentes e que não precisam ser hostilizados nem de esmola, mas sim de respeito. Eu poderia falar durante  muito tempo sobre minha infância, mas, não quero receber a pena de vocês como esmola.”
Uma pausa para recobrar ar, encontra o silêncio de todos os espectadores ávidos de ouvirem mais. Ela prossegue: “Moro a um ano e dois meses no ipê roxo. Desde quando mudei para lá, um grupo de jovens animais reuniam-se com freqüência para zombarem de meu jeito de andar. Eu não podia ir até a banca de jornais sem ouvir incontáveis zombarias. Isso me entristecia e me deixava muito zangado. Procurei os pais de vários deles, mas nada foi resolvido e meu tormento continuou. Minha esposa dizia sempre para eu ter calma, isso não era nada fácil. Durante meses eu fiz ameaças, mas ninguém acreditava que eu seria capaz de realiza-las, pra dizer a verdade, até eu mesmo duvidava. Um dia eu comprei uma arma, minha esposa nunca soube disso. Se soubesse desaprovaria completamente. Ela sempre diz que recorrer ao uso de armas é a forma mais fácil que os animais ignorantes  encontram para resolver seus problemas. Hoje pela manhã fui até a padaria, parei para comprar o jornal, e quando estava retornando, este mesmo grupinho de sempre surgiu e começaram a gritar todas as minhas alcunhas de sempre e mais uma nova: “Deixa-que-eu-chuto”. Eu simplesmente perdi o controle dos meus atos. Entrei, o mais rápido que pude, peguei a arma que havia comprado e estou aqui na presença de vocês neste dado instante.”
A coruja até este ponto tão controlada e serena, entregou-se inconsolavelmente ao choro. Não sei como ao certo, mas, isso me modificou. Creio que nenhum dos presentes foi o mesmo depois disso.
O leão, mais calmo, percebeu a minha presença na sala e pediu polidamente que me retirasse e, pelo que foi divulgado depois, a coruja está presa aguardando o julgamento que foi marcado para brevelo que foi divulgado mente que me retirasse e, p estou  de sempre Surgiu .
Sr. Papagaio para o jornal  A Voz da Floresta.


A seu tempo a coruja foi julgada e recebeu, no entanto, uma pena branda. O Juiz e os Jurados chegaram à conclusão que a sociedade é mais culpada por este crime do que a própria  coruja.