sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Andor

Como abortar a dor
Se o andor
Me causa náusea?
O andor
É a origem da náusea
Pois, não é o andor
de um santo
Velho, encurvado e manco
Que tem por si
Em seu currículo
Uma bondade intrínseca
E comovente
Comum a todos os miseráveis
E decadentes.
O andor é o que carrega
Em seus braços,
Carrega como um barco,
E causa dor porque
Mesmo sendo cômodo
Não é prático,
Mesmo se movendo é
Estático.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Música Sem Som

Durante todo o dia havia
Uma música em meus ouvidos
Na música alguém sorria
Mesmo que não houvesse sorrisos.

Ouvi também um som inaudível
Como aqueles de muitos prantos
Que apodrecem como o que é perecível
Ao não receber acalantos.

Mas era vibrante o referido som
Mesmos que partitura não houvesse,
Havia cadenza, havia tom...

Da letra'inda lembro d'uma parte:
Música sem som, música sem som!
De nada mais lembro-me destarte.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Solfejo

O calor anuncia
O verão...
Alegria é ver você todo dia!
Não é sonho,
Sim fantasia...

Dias mais longos
Anunciam férias,
Fim das aulas,
Adeus teorias!
Minha prática
É te ter em meus braços,
Não numa ilha deserta,
Sim todo o espaço...

Quem dera se uma poesia
Fosse capaz de
Conter todo o calor
Que sinto quando te beijo!
Assovio uma música
Andando sozinho pela estrada,
Sim, solfejo...

domingo, 4 de novembro de 2012

Narciso



Uma só carne.
É o que dizem que somos.
Metaforicamente,
Simbolicamente.
Se não,
Como desejar tanto a si mesmo,
Como excitar-se tanto com seu próprio corpo
E não morrer
Como Narciso?

sábado, 3 de novembro de 2012

Inspiração

Venha, ó musa!
Estou esperando
Sentado num ponto de ônibus
Esquina do desengano.
Vejo-a passando
Na janela de um ônibus
Musa!
Pegou o ônibus errado,
Atraso.
Tento avisá-la do erro
Não dá tempo
Foi-se o ônibus
Para o ponto final da desilusão.
Meia hora de intervalo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mãe Proletária


Tudo o que eu possa dizer
A seu respeito
Sempre será uma injustiça
Pois, você merece mais.
Merece amor, carinho e toda a paz
Que a vida nuca lhe deu.
Sua luta parece não ter fim.
Uma hora da manhã,
Canicaleira canicaleirando
Fios de algodão
Enquanto a Senhora,
Peneirando na ciranda da vida,
Garimpando até mais não poder
Pepitas de bons momentos
Num rio de não-paixões.
Mas, disse o profeta,
Que um dia tudo vai melhorar.
Até lá, esteja onde estiver,
Peça sempre por mim
E me ilumine.

Para minha mãe, Maria José.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Renovo

Um homem nunca mais será o mesmo
Após uma poesia.
Sairá modificado
Quer ela seja boa,
Quer seja ruim.
Sairá mudado,
Renovado,
Limpinho
E com cheirinho bom
De bom ar heraclizado...

No vir e no devir
Colocado no devido lugar
A poesia encanta
Quando nasce
De onde nascem os sentimentos,
Num choro barulhento,
Estridente e violento,
Que só o poeta ouve,
Botando a pena para traduzir
O poético lamento.