segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Abaixo-assinado:
Já assinei vários, mas nunca um tão controverso quanto o que era referente a atestar os bons antecedentes de um rapaz conhecido que havia atirado contra a sua companheira. Ele não era uma pessoa tão íntima, já havíamos conversado algumas vezes por conta de outros conhecidos em comum, mas nada que fizesse com que eu soubesse mais sobre ele do que o seu primeiro nome. Bom que esta minha assinatura não resultou em nada mesmo...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A IMPROPRIEDADE

(Dhiogo Caetano)
De goiano não civilizado,
baiano laico,
mineiro parado.
Deus nós livra.
De paulista anti-social,
sertanejo atraso,
índio preguiçoso.

Deus nós livra do mal.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Abacaxi:
Quando doce, não tem fruta melhor no mundo, mas, quando azeda, faz com que fechemos os olhos com força, como se isso fosse diminuir o gosto forte. No terreno de um vizinho, uns vinte anos atrás, tinha muitos pés de abacaxi. Quando eles estão bem pequenos parecem flores. Infelizmente, impedi que muitos abacaxis madurassem, brincando de dar flores para namoradinhas, mãe, tias, ou por maldade mesmo. Crianças são assim...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis


(J. C. Peu)
Abacate:
Abacate é uma fruta que me lembra os mais pobres momentos de minha pobre existência, financeiramente falando.
É uma fruta que comíamos, eu e minha irmã, como substituta de algumas refeições, amassada com açúcar. Na época, minha mãe trabalhava para sustentar dois filhos e uma irmã que teve poliomielite. Mas era gostoso!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte Final.

(J. C. Peu)

No interior do colégio a mandíbula dentro do saco plástico parecia sorrir e, se sorrir fosse mostrar os dentes, era exatamente isso que faziam aqueles 30 dentes ensangüentados. Sorriam debochando de uma sociedade que já ultrapassou a barreira entre selvageria e civilidade há muito tempo, mas que não tinha coragem o bastante de admitir este fato.
Carla foi levada para casa pela própria diretora e, do interior do carro, olhava os homens armados que impediam o direito dos homens desarmados ir e vir, vir e viver. Num esforço descomunal, verteu lágrimas como sacrifício em favor dos pecados do mundo. Ela como que torcia sua retina em busca de mais algumas gotas de lágrima. Já havia chorado muito naquele dia, parecia não ter mais gota alguma de lágrima em seus olhos. Sentia-se cansada. Não lutaria mais contra o mundo á sua volta. Sentia-se pronta para conformar-se com o mundo à sua volta passivamente. Chegou á conclusão que sua luta muda contra o sistema, inevitavelmente, resultaria em derrota.
Ao descer do carro na entrada da comunidade onde morava, não queria ter de responder perguntas sem sentido, e mesmo que estivesse decidida reagir ao mundo de forma passiva, poderia começar a agir assim no dia seguinte. E, quando os bandidos puseram-se em seu caminho e lhe perguntaram “em quê o movimento de contracultura tinha contribuído para o pensamento de responsabilidade social das empresas transnacionais”, Carla não suportou a hipocrisia do mundo e deu um grito com todas as forças que lhe restavam. Libertou de uma só vez toda a insatisfação de ser cerceada no que tinha de mais precioso, sua liberdade. Sua insatisfação quase se fez um objeto concreto ao atingir os homens armados parados á sua frente.
- Saiam da minha frente, seus abutres! Não responderei ás suas perguntas descabidas! Monstros! Imbecis! Entrar em minha própria casa sem dar satisfações é meu direito! Nunca mais vou responder pergunta alguma! Liberdade ou morte!
No momento em que estas palavras foram articuladas pelos músculos na garganta de Carla, a terra parou em seu eixo e, junto com ela, pararam todas as pessoas que passava ali naquele momento. Todos ficaram na expectativa de verem como seria a reação dos facínoras. Algumas mulheres de idade indefinida com lenços coloridos na cabeça e vestido de chita começaram a chorar e se bater em lamento, como aquelas matronas do Oriente Médio, na verdadeira Faixa de Gaza, que choram e se batem quando o exército de Israel mata seus jovens, que segundo elas, não tinham envolvimento com o terrorismo. As mulheres daqui sofriam por antecedência o fim, que davam como certo, da pobre mocinha que ousava desafiar o tráfico.
Mas, sabemos que lei é lei, e nenhum meliante ali seria tolo o bastante para desobedecer a uma lei do chefe do tráfico. Assim, nada aconteceu. Nunca mais pararam Carla ao entrar ou sair da comunidade. Era do grito de liberdade que ela precisava para que o nó que sentia na garganta fosse desfeito. De certo que tudo o que podia conseguir era uma pseudoliberdade amorfa, mas, já era algum começo. Melhor uma liberdade ilusória do que nenhuma esperança.
Os dedos indicadores e mandíbulas continuaram a visitar os sonhos de Carla por muito tempo. Os zumbis de jaleco se tornaram monstros cada vez mais pavorosos, e ela acordava desejando nunca ter ido ao Anatole naquele dia fatídico.
Anatole, Anatole! Pobre Anatole! Pequeno entre os grandes e eternamente relegado ao esquecimento. Nunca sairá de ti um doutor em literatura francesa, por exemplo. Mas, como já disse uma vez alguém muito especial: “improvável não é impossível!” Quem sabe algum dia Carla não mais sonhe, e homens não mais morram!
                                                     Dedicado à Eliane Costa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Clímax Avassalador... Amor Maldito...

(Diogho Caetano)
Na minha alma,
Os lírios e rosas
Entre paz o algritos & prantos!
Com seu doce veneno
Alimenta-me...
Sufoca-me... santa musa!
Com a teu luz sutil!
Com teu amor transcendental...
Quero apaixonar por ti!
Quero morrer...
De prazer...
Oh desejo macabro...
Sagrado e profano.
Estranho desejo...
Oh amor maldito que me sufoca.
Sentimentos profundamente isolados.
Complexa luz que devora a minha alma.
Um dia apaixonado, no outro poeta e hoje nada mais!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 5.


(J. C. Peu)
Ao dar um passo após outro adentrando na escuridão, Carla percebia que a luz, ou o alcance dela, era ritmado pelos seus passos. Á medida que dava um passo à frente, a escuridão retrocedia, também, um passo. Conseqüentemente deu um passo após outro, dançando pelo corredor, forçando a luz a bailar com ela no ritmo que escolhesse. Um passo em salsa, outro em valsa, um terceiro em bolero ou ragtime.
Ao chegar ao banheiro não mais sentia tanto medo quanto antes. Abrindo a porta, sentiu um cheiro ocre, que por um segundo associou ao odor do vinagre, mas, no segundo seguinte, desconfiou que não era exatamente vinagre o cheiro que sentia. Não havia muita luz no banheiro e Carla abriu a porta com a mão esquerda e, sem demora, com a mão direita tentou encontrar o interruptor que faria o favor, se alcançado, de iluminar todo o espaço ali. Não encontrou. “Coisa estranha. Havia um interruptor aqui ainda ontem, ou antes de ontem, já não lembro exatamente de mais nada.” – Pensou ela.
A luz que entrava pela janela era parca e não iluminava quase nada. O chão do banheiro estava molhado, dava para ver o reflexo da luz que entrava pela janela refletindo no líquido no chão. Carla sentiu nojo, pois não sabia se a água era limpa ou suja, deveria ter cuidado para não sujar-se. Dava pisadas cautelosas no chão, como que pisando em ovos.  Forrou cuidadosamente e com delicadeza o assento do vaso sanitário com papel higiênico. O odor nauseabundo do vinagre, ou de alguma outra coisa que não conseguia identificar, ficava mais forte ao passo que o banheiro ficava mais iluminado. O cheiro fez com que sua boca salivasse, o que aumentava o desconforto e impedia que fizesse suas necessidades com rapidez. Com a demora, teve mais tempo para deslocar seus olhos míopes pelo banheiro, prestando mais atenção nos detalhes que anteriormente eram ocultados pela escuridão.
Levantou-se, pegou um tanto de papel e secou-se. Olhou ressabiada uma massa disforme que estava num canto do banheiro, em baixo da pia. Parecia ser lá a origem da água no chão e o odor de vinagre. Levantou a calcinha, abaixou a saia e ajeitou-se. Deu um passo em direção à pia, fixou o olhar e, sim, teve a certeza que o que estava vendo era uma dentadura. “Achei um sorriso! Mamãe, achei um sorriso!” – Pensou ela, lembrando da pitoresca história da menina que achou uma dentadura e, em sua inocência, pensou ter achado um sorriso.
Mas, havia alguma coisa estranha com aquele sorriso. Estava sujo e enrolado no que parecia ser um pano de chão igualmente imundo. A luz que entrava pela pequena janela, iluminava preguiçosamente o pequeno banheiro. Carla, querendo aproveitar melhor a luz, tirou os óculos para limpá-los e assim poder examinar detalhadamente o sorriso que estava vendo ali no chão, bem á sua frente. Teve a impressão que o sorriso era para si.
Depois de limpar bem os óculos, pensou que finalmente poderia ver o que havia ali. Recolocou-os com cuidado e assustou-se ao reconhecer uma mandíbula humana e uma arcada dentária completa. Fechou os olhos, mas, infelizmente, a imagem já havia sido capturada por suas retinas e jamais iria permitir que voltasse ao Anatole.
Haviam serrado, provavelmente com uma serra de cortar ferragens em construção civil, a cabeça de um rapaz na altura do nariz. Não avistara lábios e a pele da face havia sido retirada. Uma das orelhas estava pela metade, enquanto a outra estava intacta. Carla vomitou o que havia comido no café da manhã. Saiu correndo do banheiro e gritou por socorro, com todas as forças que haviam ainda em seu corpo. A primeira pessoa a atender seu pedido de socorro foi Rita de Cássia, a faxineira do colégio, que a abraçou maternalmente.
- O que foi minha criança? Não tenha medo, você não está mais sozinha.
- É horrível! É horrível! Lá no banheiro tem... – Calou-se, sem saber descrever exatamente o que acabara de ver.
Dona Rita a deixou no chão do corredor, recostada na parede. A diretora, policiais e outras pessoas estavam se aproximando quando Rita entrou no banheiro para ver o motivo dos gritos, mas, saiu quase no mesmo instante gritando, desesperada, “Cruzes! Cruzes!” Ela não conhece latim, e mesmo se conhecesse, dificilmente sairia gritando “Stauros! Stauros!”
Mais ou menos no mesmo instante, num outro ponto daquela comunidade, o dono da boca de fumo ordenou que tudo aquilo deveria parar.
- Não quero mais nenhum morto na minha comunidade. Um morto trás, em média, uns dois policia. Se o morto for um policia, ele trás uns dez outros policia e eu não lucro nada. Ninguém lucra com uma guerra na comunidade, nem a polícia nem eu. Ninguém sobe um morro pra comprar bagulho, pra gastar dinheiro, com medo de ser grampeado pela polícia ou com medo de levar um tiro na cabeça numa guerra de facção. Quem me desobedecer vai ser desovado no lixão. Espalhem essa noticia pra tudo o que é vagabundo, eu quero paz. Ninguém vai morrer na minha comunidade.
Simples assim, por decreto, a morte foi abolida na comunidade onde se localiza o colégio Anatole France. Para isso, até uma trégua foi feita com a outra facção. A notícia foi espalhada velozmente. Cada homem, rapaz ou menino que ouviu estas palavras foi contá-las para o primeiro homem, rapaz ou menino que encontrou pela frente. Esta corrente continuou a crescer até o ponto em que todos os seres vivos nas duas comunidades sabiam de todas as vírgulas da sentença.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 4.


(J. C. Peu)
   Havia pouco tempo que Carla estava estagiando no colégio Anatole France. Os longos corredores do antigo prédio, recentemente reformado, mesmo que bem iluminados causavam-na sempre certa cisma. O medo ia embora  na presença de outras pessoas que todos os dias eram quase uma multidão. Alunos, professores, merendeiras, faxineiros, inspetores, etc...
Neste dia específico, não havia alunos nos corredores. As aulas foram suspensas e muitos funcionários aproveitaram para não trabalhar e voltaram para suas casas. Os corredores estavam vazios, Carla caminhava temerosa contando seus passos como quem se apega à esperança de encontrar um tesouro, rumo ao gabinete da diretora. Queria perguntar se poderia ir embora, e se aquelas horas que deveria fazer naquele dia seriam descontadas. Caminhava vacilante quando da porta de uma das salas de aula saiu um homem vestido com um guarda-pó branco, onde se lia alguma coisa no bolso do lado esquerdo do peito, mas que ela não conseguiu ler o que era. O homem vestia luvas de procedimentos médicos-cirúrgicos e trazia na mão esquerda um saco transparente que continha em seu interior um dedo indicador sujo de sangue, mas já ressecado. O homem era da perícia e assustou-se, também, ao ver uma jovem surgindo de forma inesperada em sua frente. Para aumentar o susto do homem, Carla gritou histérica como as mocinhas em filmes de terror quando estão prestes a morrer.
O grito de Carla ecoou por todos os corredores vazios, e seu eco entrou sem pedir licença poética em todas as salas de aula. No mesmo instante que ela virou-se para o lado oposto ao qual caminhava, visando correr para se afastar do legista, deparou-se com vários outros homens. Eram policiais e outros legistas, além do inspetor do colégio e da diretora, mas, a sua mente, perturbada com o susto que acabara de levar, via apenas vários outros homens vestidos com guarda-pó portando vários outros sacos contendo indicadores. Desmaiou.
Ao acordar, a primeira imagem vislumbrada foi o rosto rotundo da diretora bem perto do seu. Dizia de forma doce seu nome enquanto passava docemente as mãos em seus cabelos. Evocava calma, mesmo naquele instante tão delicado para uma demonstração de calma, ao pegar suas mãos e tentar lhe passar força.
Com todo este carinho, foi lembrando pouco a pouco a causa do desmaio. Viu, novamente, como que num flash, os homens, todos saindo ao mesmo tempo das salas do imenso corredor, cada um com um saquinho com um indicador em seu interior. Suas pupilas se dilataram e ela olhou rapidamente para todos os lados. Estava muito assustada. Mas não havia homens nem dedos indicadores decepados naquele ambiente. Tais imagens pavorosas davam lugar a armários-arquivos, paredes com quadros que reproduziam obras de Monet, alguns vasos com belos arranjos de flores, e o tom plácido em que foram pintadas as paredes. Agora, reinava novamente a paz.
Ficou a par de tudo o que acontecera, e envergonhou-se dos risos que acabou causando aos legistas e aos policiais. Tomou um copo de água com açúcar e começou a compreender que chacinas são coisas tão comuns quanto o ar que se respira, estando em todas as partes da cidade. Mas, nada disso era motivo para desmaios, nada disso é um fato social significativo no subúrbio.
A diretora era uma mulher de rosto redondo, mas, bela. Embora estivesse envelhecendo e as marcas da passagem do tempo estarem se fazendo bastante visíveis, ainda era bastante sensual. Usava óculos como todos os professores deste mundo, e conseguia passar muita confiança e ser persuasiva ao falar. Ao mandar Carla levantar-se e ir até o banheiro, conseguiu ser persuasiva. Disse que era para ela melhor recompor-se, e ir para sua casa, pois naquele dia não haveria aulas. Disse, também, que não se preocupasse com as horas do estágio, ela assinaria como se aquele tivesse sido um dia normal.
Quando saiu do gabinete, um dos sacripantas que a assustou ao vir em sua direção com um pequeno saco transparente com um dedo sujo de sangue dentro, desculpou-se pelo susto que lhe dera e lamentou o fato de que ela veio a desmaiar. Carla aceitou as desculpas, não era culpa do homem o fato de ela não estar preparada para ver um dedo decepado. Se o corredor estava mal iluminado, isso também não era sua culpa.
Carla ainda estava meio tonta, e ao andar pelo corredor do colégio, mesmo que o prédio tenha passado por reforma recentemente, parecia que ela via musgo e infiltrações que vazavam água continuamente no teto e nas partes superiores de ambos os lados do corredor. Era como se tivesse entrado em um outro mundo, e nesse mundo estranho, a luz originava-se de velas em candelabros de cobre. As velas, com suas chamas bruxuleantes que deformavam todos os objetos que tocavam, produziam, pelo seu halo projetado nas paredes, sombras ameaçadoras num tom que misturava azul da Prússia com terra de Siena queimada.
A jovem sentia medo e questionava-se quanto a se dar o próximo passo era algo sensato. Sentia o suor escorrendo por seu rosto e por suas pernas. O seu coração estava acelerado. Seus olhos tentavam compensar a miopia, o astigmatismo e a escuridão por se dilatarem. Não sentiu o susto precursor do desmaio e, por este motivo, deu um passo incerto rumo à escuridão que se pronunciava infinita e inevitável. Antes de dar mais um passo, pensou que cairia num buraco, talvez numa masmorra. Pensou que estava num velho castelo medieval. Mas, resolveu dar o passo, posto que já fizera este percurso da sala da diretora até o banheiro dos professores infinitas vezes e nunca, nem uma única vez, reparara na escuridão, no musgo, nos vazamento ou nas velas. Decidiu que não devia confiar completamente em seus olhos, e deu o passo rumo à escuridão infinita. Se viesse a cair, era porque sonhava, e se estivesse sonhando, acordaria deste pesadelo em sua casa, com toda a proteção que uma cama pode proporcionar.