sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

UM CURTA-METRAGEM POÉTICO

(Dhiogo Caetano)
Pseudônimo: Muso Lírico 
 
Nunca tive medo... 
Expressionismo constante.
Quantas palavras de amor.
Um cubismo invariável.
Enfim, no meu caminho o surrealismo.
Métricas, ritmos, rimas, imagens e poemas.
Concretismo em meio a paradoxo, prosopopéia, anáfora, aliteração.
Um haicai em assonância, paranomásia, onomatopéia e paralelismo.
Poema e movimento catacrese, eufemismo e por aí vai...
Futurismo irônico, sob efeito elipse com uma forte hipérbole dos versos em gradação.
Dístico do dadaísmo que narro.
Tercetos, quartetos, sexteto, septilha, oitava, nona e décima emoção poematizada.
Formas fixas, mas com chaves antropofagicamente poéticas.
Natureza, escultura, amor, morte... Enfim a semana de arte moderna.
Minha amada em versos regulares, livres e brancos.
Aqui nasce o antitradicionalismo através da comparação.
Também sinto o movimento do humor que metaforicamente recito ao léu.
Liberdade de criação e expressão, metonicamente preciso falar.
Há uma aproximação entre a língua escrita e a falada, um contraponto fundamentalizador chamado antítese.
Entre hídrisco, acróstico a complexidade da paixão entoada por lirismo grego. 
A complexidade do verso plurívocal e profundamente polissêmico nos leva a um plurissignificativo soneto que eleva a alma.
Ocorre a absorção das vanguardas européias, dos “ismos” que bravamente provoca uma porosidade entre alienação, realidade, eternidade, desumano, cores, amor, livro, lição...
Um verdadeiro espírito revolucionário que academicamente esboça o auto-retrato.
Nada tem nexo, mas tudo se estuda!
Em mural a cultura, na arte a pintura modernista na técnica Guache.
A poesia é a interação que transmiti nossas ideias, desejos, opiniões, emoções e o tudo a nossa volta.
Em um curta-metragem o poema é simplesmente eu e você.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pedido de Desculpas

Por alguns problemas pessoais não pude postar a parte final do capítulo dois de "Causa Mortis", mas estou corrigindo a falha. Espero que gostem.

J. C. Peu

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CÉLEBRE PASSADO FUTURO

(Dhiogo Caetano) 



Por anos vivi em Uruana.
Nasce e lá  me criei.
Por isso sou goiano, uruanense: olá o sotaque.
Ruas estreitas onde posso avista as carroças e carroções.
Minha pequena cidade, a terra que nos alimenta.
Em um passeio poético o encontro de Dona Ana e o rio Uru.
Eternamente Uruana.
A nossa volta a natura, uma magia que paralisa o trabalho.
Vem de Uruana, de suas grandes festas de setembro o tradicional cultivo da melancia.
Com desejo de agradecer, que venho a escrever, sobre esta terra que tudo que planta dá.
De Uruana trago os produtos da terra, que ora te ofereço.
Desta cultura agrária a emoção do homem do campo, que planta e colhe com suas próprias mãos, os frutos que esta santa terra nos há de contemplar.
Pequena cidade, mas a capital nacional da melancia.
Ta vendo as casinhas da avenida, nelas a história e um passado futuro.
Aqui fui feliz, simples e goiano.
Hoje sou artista, historiador, professor e escritor.
Uruana é  apenas uma imagem grava na memória.
Mas sinto saudades.  

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Num Banco de Ônibus

(J.C. Peu)


Olho para os carros
Plantados no chão.

Sinto os pneus
Penetrarem
O asfalto.

O trânsito parado,
Um garoto correndo,

Assalto.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Agnela... Em conflito...

(Dhiogo Caetano)


Escolhi o pecado...
Encolheste-me!
Em mim mesma...
Aprisionada!
Subjugada!
Nego o meu ser!
Já não sei quem sou...
Será que tenho vida?
Vida...
Penso que existo...
Mas em outras dimensões e existências.
Corro de olhos fechados.
Nada quero ver!
Quero fugir de todos e de tudo...
De mim mesma...
Escolhi o pecado...
Devora-me!
Mas com quem, irei confessar?
Se nada existe!
Correr é  o melhor a fazer!
Esconder de mim mesma.
De todos!
Na agonia morrerei.
Mas há  vida?
Já estou morta?
Nada sei e nada saberei...
Esconda-me daquele santo!
Divino simplesmente divino. 
Símbolo do amor...
Mas o que é  amar?
Que sou eu?
Estou escondida no nada de um tudo a minha volta.
Finjo estar viva...
Em um mundo só me...
Esqueço que escolhi o pecado!
Nego o santo, divino, amor...
Não sei quem sou eu!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CRETINA LEMBRANÇA

(Dhiogo Caetano)



 
         Quando estou plenamente feliz, evito pensar.
         Não quero lembrar daquela história...
         Um momento de prazer, mas de muita repulsa.
         Tenho medo e busco a pagar este passado presente.
         Queria colocar um fim!
         Mas a minha mente esta sempre a refutar.
         E nas lembranças encontro com a cretina lembrança.
         Dilacera a alma e destrói o coração.
         Não quero descrever a forma do ser.
         Quero esquecer de tudo!
         E os sentimentos vividos naquele momento eu quero assassinar.
        Eu Guardo em mim um Deus, um louco, um santo, um anjo, o bem e o mal.
        Eu guardo em mim tantas canções, tantas manhãs e aquela cretina lembrança.
        Mas não quero lembrar! 
 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Abaixo-assinado:
Já assinei vários, mas nunca um tão controverso quanto o que era referente a atestar os bons antecedentes de um rapaz conhecido que havia atirado contra a sua companheira. Ele não era uma pessoa tão íntima, já havíamos conversado algumas vezes por conta de outros conhecidos em comum, mas nada que fizesse com que eu soubesse mais sobre ele do que o seu primeiro nome. Bom que esta minha assinatura não resultou em nada mesmo...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A IMPROPRIEDADE

(Dhiogo Caetano)
De goiano não civilizado,
baiano laico,
mineiro parado.
Deus nós livra.
De paulista anti-social,
sertanejo atraso,
índio preguiçoso.

Deus nós livra do mal.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Abacaxi:
Quando doce, não tem fruta melhor no mundo, mas, quando azeda, faz com que fechemos os olhos com força, como se isso fosse diminuir o gosto forte. No terreno de um vizinho, uns vinte anos atrás, tinha muitos pés de abacaxi. Quando eles estão bem pequenos parecem flores. Infelizmente, impedi que muitos abacaxis madurassem, brincando de dar flores para namoradinhas, mãe, tias, ou por maldade mesmo. Crianças são assim...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis


(J. C. Peu)
Abacate:
Abacate é uma fruta que me lembra os mais pobres momentos de minha pobre existência, financeiramente falando.
É uma fruta que comíamos, eu e minha irmã, como substituta de algumas refeições, amassada com açúcar. Na época, minha mãe trabalhava para sustentar dois filhos e uma irmã que teve poliomielite. Mas era gostoso!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte Final.

(J. C. Peu)

No interior do colégio a mandíbula dentro do saco plástico parecia sorrir e, se sorrir fosse mostrar os dentes, era exatamente isso que faziam aqueles 30 dentes ensangüentados. Sorriam debochando de uma sociedade que já ultrapassou a barreira entre selvageria e civilidade há muito tempo, mas que não tinha coragem o bastante de admitir este fato.
Carla foi levada para casa pela própria diretora e, do interior do carro, olhava os homens armados que impediam o direito dos homens desarmados ir e vir, vir e viver. Num esforço descomunal, verteu lágrimas como sacrifício em favor dos pecados do mundo. Ela como que torcia sua retina em busca de mais algumas gotas de lágrima. Já havia chorado muito naquele dia, parecia não ter mais gota alguma de lágrima em seus olhos. Sentia-se cansada. Não lutaria mais contra o mundo á sua volta. Sentia-se pronta para conformar-se com o mundo à sua volta passivamente. Chegou á conclusão que sua luta muda contra o sistema, inevitavelmente, resultaria em derrota.
Ao descer do carro na entrada da comunidade onde morava, não queria ter de responder perguntas sem sentido, e mesmo que estivesse decidida reagir ao mundo de forma passiva, poderia começar a agir assim no dia seguinte. E, quando os bandidos puseram-se em seu caminho e lhe perguntaram “em quê o movimento de contracultura tinha contribuído para o pensamento de responsabilidade social das empresas transnacionais”, Carla não suportou a hipocrisia do mundo e deu um grito com todas as forças que lhe restavam. Libertou de uma só vez toda a insatisfação de ser cerceada no que tinha de mais precioso, sua liberdade. Sua insatisfação quase se fez um objeto concreto ao atingir os homens armados parados á sua frente.
- Saiam da minha frente, seus abutres! Não responderei ás suas perguntas descabidas! Monstros! Imbecis! Entrar em minha própria casa sem dar satisfações é meu direito! Nunca mais vou responder pergunta alguma! Liberdade ou morte!
No momento em que estas palavras foram articuladas pelos músculos na garganta de Carla, a terra parou em seu eixo e, junto com ela, pararam todas as pessoas que passava ali naquele momento. Todos ficaram na expectativa de verem como seria a reação dos facínoras. Algumas mulheres de idade indefinida com lenços coloridos na cabeça e vestido de chita começaram a chorar e se bater em lamento, como aquelas matronas do Oriente Médio, na verdadeira Faixa de Gaza, que choram e se batem quando o exército de Israel mata seus jovens, que segundo elas, não tinham envolvimento com o terrorismo. As mulheres daqui sofriam por antecedência o fim, que davam como certo, da pobre mocinha que ousava desafiar o tráfico.
Mas, sabemos que lei é lei, e nenhum meliante ali seria tolo o bastante para desobedecer a uma lei do chefe do tráfico. Assim, nada aconteceu. Nunca mais pararam Carla ao entrar ou sair da comunidade. Era do grito de liberdade que ela precisava para que o nó que sentia na garganta fosse desfeito. De certo que tudo o que podia conseguir era uma pseudoliberdade amorfa, mas, já era algum começo. Melhor uma liberdade ilusória do que nenhuma esperança.
Os dedos indicadores e mandíbulas continuaram a visitar os sonhos de Carla por muito tempo. Os zumbis de jaleco se tornaram monstros cada vez mais pavorosos, e ela acordava desejando nunca ter ido ao Anatole naquele dia fatídico.
Anatole, Anatole! Pobre Anatole! Pequeno entre os grandes e eternamente relegado ao esquecimento. Nunca sairá de ti um doutor em literatura francesa, por exemplo. Mas, como já disse uma vez alguém muito especial: “improvável não é impossível!” Quem sabe algum dia Carla não mais sonhe, e homens não mais morram!
                                                     Dedicado à Eliane Costa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Clímax Avassalador... Amor Maldito...

(Diogho Caetano)
Na minha alma,
Os lírios e rosas
Entre paz o algritos & prantos!
Com seu doce veneno
Alimenta-me...
Sufoca-me... santa musa!
Com a teu luz sutil!
Com teu amor transcendental...
Quero apaixonar por ti!
Quero morrer...
De prazer...
Oh desejo macabro...
Sagrado e profano.
Estranho desejo...
Oh amor maldito que me sufoca.
Sentimentos profundamente isolados.
Complexa luz que devora a minha alma.
Um dia apaixonado, no outro poeta e hoje nada mais!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 5.


(J. C. Peu)
Ao dar um passo após outro adentrando na escuridão, Carla percebia que a luz, ou o alcance dela, era ritmado pelos seus passos. Á medida que dava um passo à frente, a escuridão retrocedia, também, um passo. Conseqüentemente deu um passo após outro, dançando pelo corredor, forçando a luz a bailar com ela no ritmo que escolhesse. Um passo em salsa, outro em valsa, um terceiro em bolero ou ragtime.
Ao chegar ao banheiro não mais sentia tanto medo quanto antes. Abrindo a porta, sentiu um cheiro ocre, que por um segundo associou ao odor do vinagre, mas, no segundo seguinte, desconfiou que não era exatamente vinagre o cheiro que sentia. Não havia muita luz no banheiro e Carla abriu a porta com a mão esquerda e, sem demora, com a mão direita tentou encontrar o interruptor que faria o favor, se alcançado, de iluminar todo o espaço ali. Não encontrou. “Coisa estranha. Havia um interruptor aqui ainda ontem, ou antes de ontem, já não lembro exatamente de mais nada.” – Pensou ela.
A luz que entrava pela janela era parca e não iluminava quase nada. O chão do banheiro estava molhado, dava para ver o reflexo da luz que entrava pela janela refletindo no líquido no chão. Carla sentiu nojo, pois não sabia se a água era limpa ou suja, deveria ter cuidado para não sujar-se. Dava pisadas cautelosas no chão, como que pisando em ovos.  Forrou cuidadosamente e com delicadeza o assento do vaso sanitário com papel higiênico. O odor nauseabundo do vinagre, ou de alguma outra coisa que não conseguia identificar, ficava mais forte ao passo que o banheiro ficava mais iluminado. O cheiro fez com que sua boca salivasse, o que aumentava o desconforto e impedia que fizesse suas necessidades com rapidez. Com a demora, teve mais tempo para deslocar seus olhos míopes pelo banheiro, prestando mais atenção nos detalhes que anteriormente eram ocultados pela escuridão.
Levantou-se, pegou um tanto de papel e secou-se. Olhou ressabiada uma massa disforme que estava num canto do banheiro, em baixo da pia. Parecia ser lá a origem da água no chão e o odor de vinagre. Levantou a calcinha, abaixou a saia e ajeitou-se. Deu um passo em direção à pia, fixou o olhar e, sim, teve a certeza que o que estava vendo era uma dentadura. “Achei um sorriso! Mamãe, achei um sorriso!” – Pensou ela, lembrando da pitoresca história da menina que achou uma dentadura e, em sua inocência, pensou ter achado um sorriso.
Mas, havia alguma coisa estranha com aquele sorriso. Estava sujo e enrolado no que parecia ser um pano de chão igualmente imundo. A luz que entrava pela pequena janela, iluminava preguiçosamente o pequeno banheiro. Carla, querendo aproveitar melhor a luz, tirou os óculos para limpá-los e assim poder examinar detalhadamente o sorriso que estava vendo ali no chão, bem á sua frente. Teve a impressão que o sorriso era para si.
Depois de limpar bem os óculos, pensou que finalmente poderia ver o que havia ali. Recolocou-os com cuidado e assustou-se ao reconhecer uma mandíbula humana e uma arcada dentária completa. Fechou os olhos, mas, infelizmente, a imagem já havia sido capturada por suas retinas e jamais iria permitir que voltasse ao Anatole.
Haviam serrado, provavelmente com uma serra de cortar ferragens em construção civil, a cabeça de um rapaz na altura do nariz. Não avistara lábios e a pele da face havia sido retirada. Uma das orelhas estava pela metade, enquanto a outra estava intacta. Carla vomitou o que havia comido no café da manhã. Saiu correndo do banheiro e gritou por socorro, com todas as forças que haviam ainda em seu corpo. A primeira pessoa a atender seu pedido de socorro foi Rita de Cássia, a faxineira do colégio, que a abraçou maternalmente.
- O que foi minha criança? Não tenha medo, você não está mais sozinha.
- É horrível! É horrível! Lá no banheiro tem... – Calou-se, sem saber descrever exatamente o que acabara de ver.
Dona Rita a deixou no chão do corredor, recostada na parede. A diretora, policiais e outras pessoas estavam se aproximando quando Rita entrou no banheiro para ver o motivo dos gritos, mas, saiu quase no mesmo instante gritando, desesperada, “Cruzes! Cruzes!” Ela não conhece latim, e mesmo se conhecesse, dificilmente sairia gritando “Stauros! Stauros!”
Mais ou menos no mesmo instante, num outro ponto daquela comunidade, o dono da boca de fumo ordenou que tudo aquilo deveria parar.
- Não quero mais nenhum morto na minha comunidade. Um morto trás, em média, uns dois policia. Se o morto for um policia, ele trás uns dez outros policia e eu não lucro nada. Ninguém lucra com uma guerra na comunidade, nem a polícia nem eu. Ninguém sobe um morro pra comprar bagulho, pra gastar dinheiro, com medo de ser grampeado pela polícia ou com medo de levar um tiro na cabeça numa guerra de facção. Quem me desobedecer vai ser desovado no lixão. Espalhem essa noticia pra tudo o que é vagabundo, eu quero paz. Ninguém vai morrer na minha comunidade.
Simples assim, por decreto, a morte foi abolida na comunidade onde se localiza o colégio Anatole France. Para isso, até uma trégua foi feita com a outra facção. A notícia foi espalhada velozmente. Cada homem, rapaz ou menino que ouviu estas palavras foi contá-las para o primeiro homem, rapaz ou menino que encontrou pela frente. Esta corrente continuou a crescer até o ponto em que todos os seres vivos nas duas comunidades sabiam de todas as vírgulas da sentença.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 4.


(J. C. Peu)
   Havia pouco tempo que Carla estava estagiando no colégio Anatole France. Os longos corredores do antigo prédio, recentemente reformado, mesmo que bem iluminados causavam-na sempre certa cisma. O medo ia embora  na presença de outras pessoas que todos os dias eram quase uma multidão. Alunos, professores, merendeiras, faxineiros, inspetores, etc...
Neste dia específico, não havia alunos nos corredores. As aulas foram suspensas e muitos funcionários aproveitaram para não trabalhar e voltaram para suas casas. Os corredores estavam vazios, Carla caminhava temerosa contando seus passos como quem se apega à esperança de encontrar um tesouro, rumo ao gabinete da diretora. Queria perguntar se poderia ir embora, e se aquelas horas que deveria fazer naquele dia seriam descontadas. Caminhava vacilante quando da porta de uma das salas de aula saiu um homem vestido com um guarda-pó branco, onde se lia alguma coisa no bolso do lado esquerdo do peito, mas que ela não conseguiu ler o que era. O homem vestia luvas de procedimentos médicos-cirúrgicos e trazia na mão esquerda um saco transparente que continha em seu interior um dedo indicador sujo de sangue, mas já ressecado. O homem era da perícia e assustou-se, também, ao ver uma jovem surgindo de forma inesperada em sua frente. Para aumentar o susto do homem, Carla gritou histérica como as mocinhas em filmes de terror quando estão prestes a morrer.
O grito de Carla ecoou por todos os corredores vazios, e seu eco entrou sem pedir licença poética em todas as salas de aula. No mesmo instante que ela virou-se para o lado oposto ao qual caminhava, visando correr para se afastar do legista, deparou-se com vários outros homens. Eram policiais e outros legistas, além do inspetor do colégio e da diretora, mas, a sua mente, perturbada com o susto que acabara de levar, via apenas vários outros homens vestidos com guarda-pó portando vários outros sacos contendo indicadores. Desmaiou.
Ao acordar, a primeira imagem vislumbrada foi o rosto rotundo da diretora bem perto do seu. Dizia de forma doce seu nome enquanto passava docemente as mãos em seus cabelos. Evocava calma, mesmo naquele instante tão delicado para uma demonstração de calma, ao pegar suas mãos e tentar lhe passar força.
Com todo este carinho, foi lembrando pouco a pouco a causa do desmaio. Viu, novamente, como que num flash, os homens, todos saindo ao mesmo tempo das salas do imenso corredor, cada um com um saquinho com um indicador em seu interior. Suas pupilas se dilataram e ela olhou rapidamente para todos os lados. Estava muito assustada. Mas não havia homens nem dedos indicadores decepados naquele ambiente. Tais imagens pavorosas davam lugar a armários-arquivos, paredes com quadros que reproduziam obras de Monet, alguns vasos com belos arranjos de flores, e o tom plácido em que foram pintadas as paredes. Agora, reinava novamente a paz.
Ficou a par de tudo o que acontecera, e envergonhou-se dos risos que acabou causando aos legistas e aos policiais. Tomou um copo de água com açúcar e começou a compreender que chacinas são coisas tão comuns quanto o ar que se respira, estando em todas as partes da cidade. Mas, nada disso era motivo para desmaios, nada disso é um fato social significativo no subúrbio.
A diretora era uma mulher de rosto redondo, mas, bela. Embora estivesse envelhecendo e as marcas da passagem do tempo estarem se fazendo bastante visíveis, ainda era bastante sensual. Usava óculos como todos os professores deste mundo, e conseguia passar muita confiança e ser persuasiva ao falar. Ao mandar Carla levantar-se e ir até o banheiro, conseguiu ser persuasiva. Disse que era para ela melhor recompor-se, e ir para sua casa, pois naquele dia não haveria aulas. Disse, também, que não se preocupasse com as horas do estágio, ela assinaria como se aquele tivesse sido um dia normal.
Quando saiu do gabinete, um dos sacripantas que a assustou ao vir em sua direção com um pequeno saco transparente com um dedo sujo de sangue dentro, desculpou-se pelo susto que lhe dera e lamentou o fato de que ela veio a desmaiar. Carla aceitou as desculpas, não era culpa do homem o fato de ela não estar preparada para ver um dedo decepado. Se o corredor estava mal iluminado, isso também não era sua culpa.
Carla ainda estava meio tonta, e ao andar pelo corredor do colégio, mesmo que o prédio tenha passado por reforma recentemente, parecia que ela via musgo e infiltrações que vazavam água continuamente no teto e nas partes superiores de ambos os lados do corredor. Era como se tivesse entrado em um outro mundo, e nesse mundo estranho, a luz originava-se de velas em candelabros de cobre. As velas, com suas chamas bruxuleantes que deformavam todos os objetos que tocavam, produziam, pelo seu halo projetado nas paredes, sombras ameaçadoras num tom que misturava azul da Prússia com terra de Siena queimada.
A jovem sentia medo e questionava-se quanto a se dar o próximo passo era algo sensato. Sentia o suor escorrendo por seu rosto e por suas pernas. O seu coração estava acelerado. Seus olhos tentavam compensar a miopia, o astigmatismo e a escuridão por se dilatarem. Não sentiu o susto precursor do desmaio e, por este motivo, deu um passo incerto rumo à escuridão que se pronunciava infinita e inevitável. Antes de dar mais um passo, pensou que cairia num buraco, talvez numa masmorra. Pensou que estava num velho castelo medieval. Mas, resolveu dar o passo, posto que já fizera este percurso da sala da diretora até o banheiro dos professores infinitas vezes e nunca, nem uma única vez, reparara na escuridão, no musgo, nos vazamento ou nas velas. Decidiu que não devia confiar completamente em seus olhos, e deu o passo rumo à escuridão infinita. Se viesse a cair, era porque sonhava, e se estivesse sonhando, acordaria deste pesadelo em sua casa, com toda a proteção que uma cama pode proporcionar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Minipéia

(Alexandre Lessa)

Nascemos
Vivemos
Morremos

De um sebinho
À vida.
De uma vida
A adubo.

Da fétida gênese
Às pútridas histórias.
No final...
Bosta.

BALUARTE DO AMOR

(Dhiogo Caetano)

        No coração, na alma ou no corpo...
        Quanta ilusão, sem um reflexo de compaixão.
        Isolado assim estão meus versos e poemas.
        Por que!
        Se nada vem de mim...
        Existo somente pra ti!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 3.

(J. C. Peu)

Sozinha com o seu medo, ela andava olhando para frente ou para baixo, nunca olhava para os lados, pois evitava olhar para o interior das casas ou para os rostos das pessoas. As portas abertas das casas sempre desvelavam o que deveriam ocultar. Eram mulheres descabeladas que passavam todo o dia cuidando das crianças e das demais tarefas da casa vestidas o dia inteiro com suas roupas de dormir. Homens sem camisa e com bermudas sempre caindo, em resultado de usarem números mais altos que os seus. Crianças sempre sujas que pareciam multiplicar de número a cada vez que desviava o olhar. E, o que era o pior de tudo, homens com bermuda caindo revelando seus pêlos pubianos junto com mulheres em roupas de dormir leves e transparentes. Realmente era melhor não olhar para dentro dos casebres.
Sentia-se sozinha, também, quando precisava desviar das motos. Muitas eram conduzidas por pais de família que ganhavam a vida levando as pessoas de um lado para o outro, mas, muitas outras eram conduzidas por olheiros, aviõezinhos e pelos garotos que eram chamados de vapor. Nas calçadas, havia as tias que vendiam balas e doces, os tios que vendiam legumes e verduras e os garotos que faziam das ruas um mercado de negociação de drogas. Carla nunca quis acostumar-se em ver uma fila de vários fuzis encostados em fila nas paredes, como se fosse uma vitrine. Para ela, se num determinado dia acordasse e estivesse acostumada, acomodada com esta situação, o seu mundo teria acabado.
Desde que era uma garotinha bem pequena, quando sentia muito medo, cantava para espantar todos os males ao seu redor. Sempre quando passava no meio da comunidade sentia uma verdadeira necessidade de cantar. Queria cantar para esconder que estava com medo. Todos os dias sentia medo ao fazer este mesmo trajeto em direção da escola onde fazia seu estágio. Então, Carla deixou que soasse em sua cabeça uma das canções infantis que sempre cantava para as crianças em sala de aula. À medida que a letra da música dançava em sua cabeça, ouvia as vozes das crianças cantando. E, ao ouvir o som das vozes cantando a musiquinha infantil, o seu medo se dissipava, pois pensava não estar mais sozinha. É natural que assim fosse, posto que todos os medos que sentimos perduram apenas enquanto pensamos única e exclusivamente neles. Ela imaginava que qualquer pai ou mãe que precisava sair ainda de madrugada para trabalhar e tinha que deixar seus filhos sozinhos, deveria passar o dia inteiro cantando para espantar o medo que sentissem pelo bem estar de suas proles. Se bem que todos estão sozinhos quando há uma invasão da polícia, do exército ou de bandidos de fora da comunidade.
A sorte de Carla é que, ao cantar, não percebia o quanto caminhava mais rápido e, constantemente, chegava até o Anatole em menos tempo do que se caminhasse calada, em silêncio.   
Ao chegar à proximidade do Anatole, percebeu que algo não estava indo bem. Havia uma movimentação muito grande de pessoas, dois carros de polícia e um rabecão dos bombeiros bem em frente da entrada principal do colégio. Foi a Ritinha, faxineira do colégio, que recebeu Carla no portão. Havia muito reboliço, muita agitação, e as coisas que Ritinha dizia saiam atropeladas e se amontoavam, não dando tempo para que Carla entendesse bem o que havia acontecido. Tudo o que ela pôde assimilar foi que algo ruim havia acontecido. Em seu rosto, a serenidade que a música lhe deu foi sacudida pelas palavras atropeladas da Rita.
- Não vai haver aula hoje, filhinha. – Disse Rita com um sorriso amistoso, tentando se antecipar à pergunta que Carla faria inevitavelmente.
- O que aconteceu? – Perguntou Carla, deixando evidente que tudo o que lhe foi falado anteriormente havia sido em vão.
- Eu já não lhe disse filha?
Dona Rita envolveu os ombros da jovem com os seus braços e disse, em sussurros quase inaudíveis, que dois homens foram mortos dentro do colégio durante a noite anterior. Rita revelou, também, que estavam comentando que os mortos deviam quantias irrisórias ao tráfico, e que os policiais que entraram na comunidade foram escoltados pelos abutres que estavam circulando a todo instante na frente do Anatole armados com armas que apenas especialistas sabiam o nome.
A rua era estreita e terminava num beco sem saída para carros a pouco mais de trinta metros após a entrada do Anatole France. Eram quatro ou cinco carros, contando com os carros dos legistas, que fechavam a rua não permitindo que outros carros tivessem acesso ao final dela. Nos telhados de alguns casebres ao redor do colégio, várias outras aves de rapina apontavam seus fuzis e metralhadoras para os policiais que esperavam nos carros. Quatro policiais entraram no colégio junto com os bombeiros, enquanto dois ficaram do lado de fora, um em cada carro. Sentiam medo e encolhiam-se por estarem acuados dentro de veículos frágeis, que não apresentavam nem sequer uma sombra de proteção contra todos aqueles armamentos à sua volta. Ademais, os policiais sabiam que estavam em uma emboscada. Simplesmente não podiam acreditar como seis homens experientes, acostumados a subir morros, foram cair nessa furada de entrar numa favela para acompanhar bombeiros e legistas. Na verdade, não entendiam nem mesmo por qual motivo se precisava de legista num crime como esse.
Sentiam-se como o rato na fábula de Kafka que corria desesperado para uma ratoeira no fim de uma sala onde duas paredes se encontravam e, no ponto privilegiado da armadilha, cantavam baixinho e tamborilavam com os dedos na porta dos carros. Não admitiam um para o outro o medo que sentiam, mas, era tanto que nem sequer ousavam ficar conversando em pé fora dos carros. Eram dois policiais cercados por bandidos por todos os lados. Todo palco estava preparado para uma grande tragédia, e seria uma tragédia não terminar assim o dia. Era inevitável que o gato kafkiano lhes desse a sugestão de mudar de lado, para que eles fugissem da ratoeira, só para devorá-los.                

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ALOE VERA DO MEU JARDIM

(Dhiogo Caetano)


Uma planta medicinal.
Em um cantinho reservado para ela e para suas filhas a paz do meu jardim.
Folhas longas, espinhos, verde, flores, medicamento...
De cor exótica é faz a diferença no meu jardim.
E a preferida entre tantas!
Em um cacho gigante suas flores.
Flores majestosas, aromáticas, laranjadas...
Em seu pequeno canteiro o amor reina.
Um pequeno espaço por onde inúmeras de suas filhas se alastram.
Aloe vera do meu jardim...
Uma planta encantadora.
Complexamente aloe vera.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Escola:
A escola é um ajuntamento de salas vazias, a não ser por mesas e cadeiras, onde pessoas de mente vazia vão lá para depositarem o conteúdo de suas mentes nas mentes de pobres crianças, também de mentes vazias.
É um lugar bem legal, caso desconsideremos que parece que todo mundo que trabalha lá se diz mais conhecedor da vida, e da forma como a vida funciona, que você.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 2.


(J. C. Peu)
O ônibus contorna um morro numa curva bastante acentuada para a direita, anda por uns 150 ou no máximo 200 quilômetros, faz nova curva para a esquerda, acelera um pouco e, depois de atingir uns 75 ou 80 quilômetros por hora, freia com força para não passar do ponto. Talvez não mais que cinco minutos e todo um microcosmos que é o lixão do caminho das torres some completamente das vistas dos passantes. Mas ele ainda está lá, mesmo que não o vejam.
Vencida a barreira do caminho das torres, Carla sentia medo, também, de passar pelos homens armados na entrada da comunidade “A”. Para entrar lá, qualquer pessoa, tinha de responder a perguntas que os bandidos faziam. O que era estranho é que o medo que os bandidos sentiam de serem surpreendidos por outros bandidos da comunidade vizinha, levava-os a bolarem perguntas sobre toda a sorte de coisas e de todo grau de dificuldade. Parecia que se uma pessoa fosse capaz de responder às suas perguntas, não havia a possibilidade de que tal pessoa ser um bandido.
Certa vez, um rapaz muito bonito, bem vestido e estiloso na aparência, cruzou o pórtico que havia na entrada da favela e foi parado por dois sentinelas armados, que lhes perguntaram, note só, os nomes de todos os jogadores da seleção brasileira de futebol na copa do mundo de 1970 em ordem alfabética. Os biltres ficaram boquiabertos quando o jovem, com toda a elegância do mundo, começou a alistar um a um os nomes dos jogadores. Várias pessoas que esperavam sua vez de serem alvejadas com perguntas descabidas que cerceavam seus direitos aproveitaram para entrarem na comunidade enquanto os bandidos ficaram distraídos com o grande feito memorialístico do jovem rapaz.
Lembro-me, perfeitamente, de um entregador de contas de luz que toda vez que entrava na comunidade era perguntado sobre o nome e o sobre-nome de todos os moradores que receberiam suas contas. Todos os dias o homem respondia bem no início, mas por volta do trigésimo ou do quadragésimo nome, sua memória começava a falhar.   Era uma realização hercúlea conseguir gravar os nomes de 825 clientes da concessionária. Os bicheiros começaram a organizar apostas, primeiro se o homem alcançava 50 nomes, depois 70, até que quando o entregador alcançou 100 nomes, um apostador recebeu uma bela quantia em dinheiro.
Houve um dia, porém, que para surpresa de todos, o homem respondeu de forma exata todos os nomes dos clientes que moravam naquela localidade. Muitas pessoas suspeitam até hoje de alguma fraude, ou algum ato de astúcia utilizado pelo homem, mas o fato é que ele conseguiu falar os nomes de 825 pessoas. Mesmo pasmados com o grande feito do entregador, os malandros continuaram mostrando quem mandava no pedaço. Disseram ter perguntado quantos clientes receberiam suas contas e, segundo eles, a resposta exata era ‘quantos eles permitissem’. O que era verdade.
O pobre homem poderia continuar tentando, mas imaginou que seria inútil ir contra a burocracia do tráfico. Voltou as costas à entrada da favela e caminhou desolado até o ponto de ônibus mais próximo. Ao avistar o seu ônibus, fez sinal com as mãos para que parasse, entrou nele e nunca mais foi visto por ninguém. Provavelmente perdeu o emprego. O fato é que outros entregadores de contas de luz surgiram, mas nenhum deles persistiu por mais de uma  semana na tentativa de decorar nomes. Era por isso que ninguém na comunidade pagava luz.
Para Carla as perguntas nunca eram tão difíceis. Já lhe perguntaram muitas coisas antes. Perguntas sem nenhum cabimento, que a faziam refletir por qual motivo as pessoas se sujeitam a esta forma de cerceamento de sua liberdade. Certa vez perguntaram-lhe qual era a diferença dos termos ‘complexo’ e ‘complicado’ segundo o pensamento de Morin. Mais estapafúrdia foi a pergunta “qual o nome do conto de Borges em que um personagem diz ‘o fator estético não pode prescindir de um certo elemento de assombro’?” Desde quando selvagens que torturam e matam com requinte de crueldade conhecem a literatura de Borges?
Nesta manhã Carla atravessou o pórtico de entrada da comunidade “A” e os sentinelas perguntaram-lhe o que eles haviam almoçado no dia anterior. Carla pensou um pouco e respondeu que um deles havia comido uma quentinha de ‘bife com fritas’ e o outro ‘frango com batatas’. Passou. Se acertou ou não a pergunta imbecil, não sabemos.
Carla andava pelas ruas principais da favela com o mesmo medo que sentia  ao atravessar o caminho que ladeava o lixão. “Na comunidade também há urubus.” – Pensou ela ao ver que os biltres do tráfico tinham, quase todos, nariz adunco, pescoço esticado que projetava para frente e não para o alto as suas cabeças e, o que ela considerava ser o pior, andavam todos com um andar característico que consistia em braços semi-abertos afastados do corpo, passada ritmada que provocava um movimento de sobe e desce da cabeça e, por fim, uma leve curvatura da coluna que os fazia parecer um pouco corcundas. Era, em suma, um bando de urubus.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Escritores de domingo

Li o livro "A Idade da Razão", de Sartre, tempos atrás, e o termo "escritores de domingo" ficou na minha cabeça. No dia 19 de agosto deste ano criei o blog com este nome "Escritores de Domingo", pois achei interessante a ideia de que, alguns escritores como eu, são realmente isso, "Escritores de Domingo". Fazendo uma pesquisa no google, procurava maneiras de fazer meu blog se tornar mais visível nas pesquisas do google, até agora não encontrei esta fórmula mágica, achei esta postagem, encontrada no endereço:

http://antologianiilista.blogspot.com/2011/02/escritores-de-domingo.html

Gostei de relembrar da gênese do nome do meu blog, embora não tenha apreciado muito a leitura de "A Idade da Razão". A única coisa que tirei de proveito foi saber dos "Pintores de Domingo", e dos "Escritores de Domingo".

Escritores de domingo

"-- Foi esse Gauguin que fugiu? -- perguntou repentinamente Ivich.
-- Sim -- disse Mathieu com solicitude. -- Quer que lhe conte a história?
-- Acho que a conheço: era casado, tinha filhos, não é isso?
-- É! Trabalhava num banco e no domingo ia para o campo com seu cavalete e seus pinceis. Era o que chamamos 'um pintor de domingo'.
-- Pintor de domingo?
-- Sim. A princípio era isso. Um amador que borra telas no domingo, assim como a gente vai pescar. Mas por higiene, compreende, porque a gente pinta ao ar livre, respirando o ar puro.
Ivich pôs-se a rir, mas não com a expressão que Mathieu esperava.
-- Acha engraçado que ele tenha começado como pintor de domingo? -- indagou Mathieu inquieto.
-- Não, não era nele que pensava.
-- Em que então?
-- Eu estava pensando se a gente podia falar também em escritor de domingo.
Escritores de domingo! pequenos burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu."

(Sartre, A idade da Razão)

Então é isso que somos: escritores de domingo. Um pouco menos regulares, talvez: passando por períodos de maior ou menor inquietação que fazem os domingos aparecerem mais ou menos do que uma vez por semana; mas, ainda assim, escrevendo por esse mesmo motivo: por higiene.

ABRAÇO NA ALMA

(Dhiogo Caetano)

          Algo totalmente diferente.
          Nunca tinha vivido a experiência de sentir aquela paz plena.
         Deixei de existir por um segundo.
         Meu coração batia mais forte, uma luz invadia meu ser.
         Permaneci ali totalmente sem expressão.
         Em inúmeras vezes abracei, mas nunca com aquela intensidade.
         Poeticamente falando aquele momento era sublime, mágico, surreal.
         A transparência da neblina completava a essência daquele lugar.
         Posso ouvir os cânticos gregorianos e as vozes dos anjos que entoa a complexidade daquele momento.
         Sentia o toque, mas era diferente algo nunca antes vivido por um mortal.
         Um toque, um simples abraço que purifica a alma. 
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu)

Computador:
É um caderno que podemos ligar na tomada. Se no caderno podíamos escrever nas contra-capas poesias, letras de músicas, desenhar, no computador podemos fazer a mesma coisa, e ainda mais um pouquinho, como jogar, ouvir música, o assistir a vídeos no ‘you Tube’.
A vantagem do computador é que podemos viajar mais dentro dele. A desvantagem é que se faltar energia elétrica...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A MÉTRICA DOS PASSOS ENSAIADOS

(Dhiogo Caetano)

Infinitamente arte...
Uma dança ao som de uma bela música clássica.
Aquela menina baila como um anjo que paira no ar.
Não consigo definir sua forma, mas a sua beleza é inigualável.
Todos se encantam, com tão grande beleza.
A métrica se funde com a musicalidade.
Seus gestos maravilhosamente suavizam o ambiente.
Uns choram, outros simplesmente ficam em transe diante da magia da dança.
Os seus passos metricamente ensaiados corroboram para complexidade do momento.
Lentamente ela se entrega à arte da dança.
Todos mentalmente seguem os seus passos pelo salão.
Um belíssimo coral se funde para contemplar, dança e cantar aquelas canções.
Uma menina, uma mulher, um anjo, uma deusa... A arte plenamente viva...
A fusão de amor, ensaio, magia, canção, emoção...
Bravamente ensaiados aqueles passos metricamente suavizados.
Aplausos!  

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 1.

(J. C. Peu)

            Vários urubus reviravam o lixo em busca de comida. Às vezes, quando uma pessoa passava muito perto, olhavam de forma ameaçadora. Se alguém se aproximasse um pouco mais, davam pequenos vôos e pousavam alguns metros mais distante, o tanto quanto pudessem considerar uma distância segura. Mantinham suas asas abertas para parecerem maiores e mais ameaçadores do que eram realmente. O movimento de ficarem parados observando as pessoas com as asas abertas servia, também, para permanecerem preparados para novos vôos que os afastariam mais alguns metros de qualquer um que se aproximasse novamente.
            Carla tinha medo de passar pelo caminho das torres, como era chamada uma faixa regular de terra que tinha grandes torres de energia e seus cabos como firmamento e, em baixo das torres, dois campos de futebol e um lixão onde habitavam os urubus. O já referido caminho das torres ligava uma comunidade carente que fica de um lado das torres a outra comunidade carente que fica do outro lado. Alguns chamam este terreno de Faixa de Gaza. Isto é um problema, posto que outras comunidades reivindicam o direito de usarem com exclusividade o nome Faixa de Gaza. Argumentam que as suas Faixas de Gaza são mais perigosas, mais famosas e, por estes motivos, mais merecedoras do título.
 Disputa inútil na opinião de Carla, e na de qualquer pessoa sensata, já que tal título não é em nada lisonjeiro. Refere-se ao fato de que à noite, era comum ver balas traçantes de fuzis cruzarem os céus à cima das torres. Em resultado disso, muitas eram as manhãs que desvelavam com os primeiros raios de sol a imagem de corpos desovados no lixão.
Os urubus, os corpos, o mau cheiro do lixo, a solidão, estes são os principais motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres. O medo diminuía um pouco quando Carla passava por lá acompanhada por outras pessoas. Parecia que quanto mais pessoas a acompanhassem, maior a probabilidade de evitar uma hecatombe.
Às vezes, aproveitava a carona do seu tio, que ia de bicicleta para a estação de trens, e atravessava com ele o caminho das torres. Costumava sentar no bagageiro da bicicleta de lado e segurar na barriga de seu tio. Nessas oportunidades gostava de fechar os olhos para não ver o lixão. Parecia flutuar por sobre toda aquela miséria. Nesses breves momentos sentia-se a pessoa mais importante do mundo, como se estivesse alcançado o paraíso.
Um dia estava assim voando baixo, desligada do mundo, quando seu tio que estava correndo numa boa velocidade com a bicicleta, desviou de forma brusca de algo que surgiu inesperadamente no seu caminho e soltou uma exclamação de surpresa em forma de palavra chula. Balançou de um lado para o outro o guidão da bicicleta, quase levando Carla ao chão. Por instinto, ela segurou ainda mais forte e cerrou ainda mais os olhos para não ver o tombo que por pouco não levaram. Não era uma pedra que estava no meio do caminho e sim o corpo de um homem morto que foi abandonado ali, quase escondido pelo mato ralo o suficiente para esconder um defunto. Quase que atropelaram o morto. Como já dito, estes são os motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres.
As duas comunidades vizinhas são dominadas atualmente por uma mesma facção criminosa, mas na época em que esta história aconteceu, duas facções rivais diferentes dominavam uma comunidade cada.
Carla Camuratti, a atriz e cineasta, estava em evidência quando nossa Carla nasceu. Não era tão bela quanto a Carla cineasta, mas tinha seus encantos. Tinha, também, dificuldade de enxergar à distância por causa da miopia e do astigmatismo, que lhe obrigavam a usar óculos constantemente. Seus óculos tinham uma bela armação, o que fazia seu encanto não ser tão afetado, muito pelo contrário, tinha um ar inteligente e sedutor ao limpar as lentes dos óculos e, vez em quando, ao meditar, mordia uma das extremidades da armação em poses que ficariam perfeitas em anúncios de lentes tão comuns nas paredes das óticas.
Por ter aparência de professora desde pequena, decidiu que faria o 2° grau numa escola que oferecesse o curso de formação de professores. Achava linda a imagem de uma multidão de moças vestidas com blusa branca e saias de pregas azul-escuro, abraçadas com seus cadernos, que invadiam o centro de Nova Iguaçu vindas do colégio João Luis do Nascimento. “– Mãe, quero ser normalista quando crescer!” – Dizia Carla com uma empolgação que resistiu a passagem de tempo, alcançando a adolescência. Aqui a vemos já na época dos estágios.
Conseguiu uma vaga para estagiar na escola Anatole France. Esta escola fica no meio de uma das comunidades, entre a comunidade que podemos chamar de comunidade “A”, e Carla morava no centro da outra comunidade, que chamaremos de comunidade “B”. No meio do caminho, entre uma comunidade e outra, não havia apenas uma pedra, mas um lixão, os urubus, as torres de energia, os campos de futebol, os mortos, as balas traçantes e o medo que Carla sentia ao ter que passar sozinha pelo caminho das torres.
Caminhava com receio, olhando para os lados e para trás de si. Nesta manhã, uma mulher levava os filhos para escola, duas crianças que por já terem nascido no meio da violência, não tinham lembrança alguma da época em que a segurança não era uma preocupação tão grande. As crianças corriam brincando de bolinha de gude enquanto andavam, e se afastavam um pouco da mãe, que lhes gritava os nomes para que esperassem por ela. A mulher e os dois garotos estavam a cerca de 100 metros de distância de Carla, á sua frente. Por mais que andasse rápido, não conseguiria alcançá-los. Um pouco menos distante caminhava uma senhora idosa. Andava lentamente, o que fez com que Carla se perguntasse por qual motivo ela não optou por ir de ônibus. Mas, Carla sabia que ninguém iria escolher pegar um ônibus apenas para não passar pelo caminho das torres. Passar pelo caminho das torres é muito mais rápido, pois corta caminho. No caso de Carla, de sua casa até o ponto em que deveria descer para chegar ao Anatole, são apenas duas paradas. Quase não dá tempo de passar pela roleta e descer sem pedir para o motorista esperar um pouco.