terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Juiz

O Juiz
            Deixa eu passar esse vacilão. – Dizia num tom de clemência um garoto que tinha não mais que treze anos de idade, ao dizer estas palavras, não estacava para ouvir o som de sua própria verberação, ao contrário, gesticulava com uma pistola na mão direita, apontando hora para o rosto de Rogério, hora para os céus, hora para o chão.
 Ao mesmo tempo, um outro garoto, apenas um pouco mais velho que o primeiro, aproximou-se de Rogério e disse ao seu ouvido numa altura suficientemente boa para que todos os outros ao redor ouvissem:
              -Você está com medo? Você tá tremendo? Na hora de fazer besteira tu não pensou, otário!
Um outro garoto dizia querer dar um tiro em cada uma das mãos de Rogério, e pedia permissão a um homem que dividia com Rogério o centro das atenções. Sentado num banco de madeira em baixo de uma árvore no terreiro de uma casa modesta no alto de um morro, tal homem representava para os ali presentes o papel de juiz. Não portava nenhuma arma, mas, dois dos vários homens que o rodeavam, eram seus seguranças.  Portavam pistolas e fuzis e eram seus protetores. Braço direito, braço esquerdo.
Alguns não rodeavam Rogério, ficavam de longe olhando e comentando. Falavam alto, falavam baixo. Uns diziam que seria melhor matá-lo, outros diziam que uma surra bastava, mas como todo júri que se preze, não havia apenas duas opiniões. Mesmo sendo estas duas as opiniões mais encontradas, havia presente cidadãos que acreditavam que Rogério não merecia punição alguma. Havia presente cidadãos que acreditavam que quem deveria levar uma surra, e até mesmo ser morto, era o acusador de Rogério. Destarte muitas eram as opiniões quanto ao futuro de Rogério, lamentavelmente, as opiniões mais favoráveis a ele eram as que tinham menos acólitos.
Rogério estava de pé no meio de várias pessoas. Vários homens, vários garotos. Havia fora desta roda principal algumas garotas que olhavam curiosas para saber o que aconteceria com ele. Rogério era negro. Mas hora ficava amarelo, hora ficava azul. Suas pernas tremiam, sentia gotas de suor escorrendo por elas, devido ao nervosismo extremo que esta situação provocava, e devido ao calor de um sol de quarenta graus, que era elevado à décima potência por vestir calça “jeans” e camisa pólo. O incômodo era grande, daria qualquer coisa para poder abaixar uma das mãos e coçar as pernas, mas temia que qualquer movimento inesperado que fizesse poderia causar reações ruins. Melhor que morrer era poder sentir esta agonia de gotas de suor descendo pelas pernas. Pareciam pequenos insetos descendo lentamente suas pernas. Qualquer coisa era virtualmente melhor que ser morto por tiros de fuzis.
Rogério descobriu que chamavam seu juiz de Azul. Azul era mais que um mero apelido, era a esperança de redenção, ou quiçá de punição. A vida de Rogério dependia de Azul ter tido uma boa noite de sono e estar de bom humor, pois o tratamento dado a ele, Rogério, recrudescia cada vez mais. Alguns dos ali presente  apontavam armas para a cabeça de Rogério e clamavam: “Azul, deixa eu dar um tiro na mão desse cara”, “Azul”, “Azul”, “Azul”. Azul mantinha-se impassível a todos os pedidos que lhe chegavam aos ouvidos. Olhava para Rogério e tentava avaliar não a verdade, pois para ele, a verdade era irrelevante e opunha-se quase sempre à realidade observável. Azul achava que toda forma de poder deveria criar suas próprias verdades se não quisesse perder suas bases de sustentação. Pensava nos resultados que sua decisão poderia causar em sua força e liderança. Se não fizesse nada com Rogério poderia ser considerado um homem fraco, o que faria seus próprios seguranças voltarem-se contra ele na primeira oportunidade, mas se fizesse a vontade desta ala mais radical de seu bando, poderia fortalecê-los de tal forma que depois não conseguiria controlar os arroubos de suas vontades. Azul olhava para Rogério, mas sem vê-lo. Estava só com seus pensamentos tentando prever os resultados de seus atos. Nem mesmo duas bacantes quase nuas que se aproximaram e se enroscaram em seu braços conseguiram desviar sua atenção da figura de Rogério.
Rogério da mesma forma que era objeto de estudo para Azul, estudava, também, as expressões dos homens que o rodeavam. Não havia nenhum conhecido seu entre eles, mas, quem sabe um deles poderia sentir sua inocência e aflição, e comprar sua causa. Mas não conseguia pensar direito. Sempre era interrompido por vozes, de vários rapazes dizendo-lhe ao ouvido: “Está com medo?” “isso é pra você aprender”, “vou te dar um tiro”.
“Ninguém vai ouvir minha versão?”, Perguntava-se Rogério. Uma sensação de impotência o invadia e foi tomando conta de suas mais íntimas esperanças. Neste momento ele não pensava no futuro. Que futuro poderia haver para pessoas que não possuem o controle de suas próprias vidas? O que era, e onde se escondia neste momento a tão falada liberdade? “Na favela, a única liberdade que existe é a liberdade para morrer”, pensou Rogério, amargurado com o fato de que não existe liberdade, não no pleno sentido da palavra. Não havia futuro para Rogério nem para milhões de pessoas no mundo que estão, de uma maneira ou de outra, frente à frente com a morte. As pessoas estão morrendo mundo à fora. E enfrentam a morte tão impotentes quanto Rogério, e enfrentam a morte tão resignados quanto Rogério.
O juiz quebrou seu silêncio e perguntou ao menino, pois mesmo que o chamemos de traficante, bandido, marginal, menor, ou qualquer outra alcunha que reflita nosso medo e preconceito, era apenas um menino, apesar da pistola na mão direita:
            -Menor conta pra nós o que aconteceu.
A voz era límpida e máscula, falou a gíria “menor” com certa relutância como se soubesse que o “menor” não era um “menor’ e sim uma criança, semelhante a todas as outras crianças, exceto pela arma que pendia de sua pequena e delicada mãozinha. Qualquer pessoa que prestasse atenção notaria que não era acostumado a falar gírias e que se as falava, era para que não fosse considerado diferente dos demais. Sua voz era pronunciada com uma firmeza que explicava por que estava na posição de juiz.
E o garoto com a pistola na mão direita, foi para o centro da roda que havia se formado originalmente em volta de Rogério e, com as pupilas dilatadas, começou a contar sua versão da história.
          -Azul, eu estava no meu posto na entrada da favela e esse vacilão tava me encarando, fui perguntar qual era a dele e ele já veio me batendo, me esculachando, sorte dele que eu tava na mão, se eu tivesse trepado tinha dado um tiro na cara dele.
        -Mentira! – Gritou Rogério com um olhar transtornado que mirou quase ao mesmo tempo o menino, seu algoz, e o seu juiz. Eram, em verdade, as duas pessoas mais importantes em sua vida naquele momento, mesmo que Rogério não soubesse sequer seus nomes verdadeiros.  Dependia mais deles do que de seus entes queridos.
Ao ouvir o grito de Rogério desmentido sua versão do incidente, o menino que não passava de um menino, o menino que não passava de um homem, bateu com força no rosto de Rogério. Um tapa estrondoso que substituiu um beliscão na tarefa de comprovar que Rogério não estava sonhando.
Os seguranças apontaram suas armas para o menino e Azul disse irritado e com alta voz:
          -Você tá maluco menor? Tá maluco? Você diz que o cara te bateu, e só porque ele não concordou com tua história tú bate na cara dele? Quem deixou tú fazer isso? Tirem a arma dele, tá muito valentinho. – A pistola foi retirada do menino, que por muito pouco não caiu no choro.  -Ai cara, fica na moral, alguém deu permissão pra tú falar? Então só fala quando eu mandar. Continua menor.
           -Era só isso só, esse cara me bateu sem mais nem menos, ele merecia ser colocado no pneu. – Falou o garoto esforçando-se para conter as lagrimas. Tinha medo de que o chamassem de criancinha, filhinho da mamãe, bebêzinho. Era já um homem, não convinha ser tratado como criança, por este motivo, era violento. Queria que o respeitassem. Deveria segurar o máximo possível o choro, não era apenas um menino chorão. Era um homem.
Dirigindo-se para Rogério, Azul mandou que contasse a sua versão da história e acrescentou o que foi entendido como uma brincadeira, “aproveita que hoje eu tô bom!”, disse Azul sem rir nem demonstrar nenhuma outra reação que comprovasse que estava realmente bom.
         -Moro aqui perto, na rua tal, isso a bem mais de quinze anos. Estava no Bar do Bigode tomando uma cerveja com uns amigos como faço todo sábado. Nunca me preocupei com nada, sempre deixei celular sobre a mesa, carteira, mochila, nunca nenhum moleque roubou nada, nem meu nem de meus amigos. Hoje, esse moleque pegou meu celular, que estava, como nas outras vezes, sobre a mesa do bar, e saiu correndo aqui pro morro. Eu sabia que se ele entrasse aqui eu nunca mais veria meu celular. Não pensei em nada, corri atrás dele como um louco, esbarrei em pessoas que passavam calmamente na rua e não tive tempo pra pedir desculpas, mas, consegui alcançá-lo antes da primeira entrada, tomei o celular dele e dei uns dois ou três cascudos bem dados, pois achei que era muito desaforo. Nesses quinze anos que moro neste bairro nunca fui assaltado por ninguém do morro e agora, um moleque, me rouba e corre pro morro, não, é desaforo!!!
Vários dos ali presentes faziam seus próprios julgamentos sobre o que acabaram de ouvir. Uns diziam entre si que Rogério deveria ser liberado, uns diziam entre si que o menor deveria receber uma lição. Os que achavam que Rogério deveria receber uma lição não falavam nada pois sabiam que agora eram uma minoria constituída, especificamente, pelo menino que roubou Rogério e por outros poucos que faziam o mesmo que ele, ou seja, roubar no entorno do morro e contar com a proteção do tráfico para ficar impune.
          -Continuei com meus amigos tomando cerveja, - Rogério continuou sua narrativa encontrando cada vez mais ouvidos receptivos à sua causa. – e uns quinze, vinte minutos depois, chegou um cara com duas pistolas na cintura por baixo do blusão e disse que eu teria de subir o morro porque você queria falar comigo, eu tentei explicar toda a história, mas o cara disse que eu não tinha outra escolha a não ser subir com ele. Um dos meus amigos queria subir comigo, mas o cara não deixou, então ele disse que iria falar com um primo dele para tentar aliviar a minha situação.
Nem bem Rogério acabou de falar, uma perua com os vidros escuros se aproximou da casa e desceram homens armados, quase tão bem armados quanto os homens de Azul, a diferença maior entre os que saíram do carro e os que já estavam no julgamento era que estavam em menor número, eram apenas quatro ou cinco homens. Um deles desceu do carro desarmado e com um sorriso de um canto a outro do rosto, parecia que estava chegando em casa após uma longa viagem. Ao vê-lo Azul sorriu um sorriso gostoso, desses que guardamos para nossos melhores amigos depois de uma longa temporada sem vê-los. Azul abriu os braços e caminhou em direção do homem que descera do carro sorrindo. Alguns de seus homens apontaram suas armas para os homens que acompanhavam o conhecido de Azul, mas estes, fingiram que não viram pois não apontaram suas armas em revide.
          -Qual é Doda, meu parceiro! – Disse Azul abraçando calorosamente o recém chegado ao julgamento. – Quanto tempo parceiro!
          -Ai Azul, vim te pedir um favor, tá ligado! Vim pedir pra tu liberar  o cara que bateu num menor lá no pé do morro.
         -Ele tá ali. – Azul apontou com a cabeça para Rogério. – Agente tava falando dele agora mesmo, neste instante, quando tú chegou.
          -Azul, libera o cara, quebra essa pro teu parceiro!  Ele é trabalhador, mora aqui no pé do morro, é amigo dum primo meu que me garantiu que o cara é gente boa. Tu sabe que se eu não tivesse certeza disso eu não viria aqui me intrometer nos teus assuntos. O cara nem é usuário de nada. Quebra essa pra mim cara.
         -Não esquenta Doda, tu torna as coisas mais fáceis para mim parceiro. – Virou-se para os seus homens e deu o veredicto, rápido, firme, forte e seco. – Liberem o cara e bota o menor no pneu já que foi ele que deu a idéia. Avisem pra todo mundo que quem roubar na favela ou em volta dela vai rodar, não quero nem saber, vai rodar. Pode ser meu irmão, vai rodar. – Abraçando Doda e conduzindo-o para sua casa, Azul continuou, - Tu não sai daqui sem tomar umas cervejas.
Foram caminhando, conversando e sorrindo, sorrisos como o de garotos que fizeram um gol depois de uma tabelinha de toques belos e harmoniosos, levando seu time à vitoria. Comeram e beberam, conversaram e sorriram até altas horas da noite, despediram-se e foram dormir felizes por terem um ao outro como amigos, verdadeiros amigos.
Feliz, também, foi a noite de Rogério. Desceu correndo os becos e ruas baixas do morro. Abraçou a todos os seus entes queridos como se fosse a última vez. Beijou sua namorada e sentiu a sua pele cálida e macia. Sorriu para todos e para a vida. Contou mais de dez vezes em uma hora a sua história. Quando tarde, muito tarde, deitou-se para dormir, não conseguiu. Esqueceu que no mundo havia injustiças, não pensou em liberdade, nem em democracia, nem que neste momento, em que rolava de um lado para o outro da cama, pessoas morriam mundo à fora. Não pensou no menino que, provavelmente, morreu chorando, só, completamente só, exatamente como morrem todas as pessoas, quer seja um homem ou um menino.  Pensava apenas que era muito bom viver e passou toda a noite com um sorriso nos lábios.  

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