segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Feriado

O feriado

Existem pessoas que tem a invejável sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. É lógico que esta sorte a que me refiro não se trata de uma força que regula tudo o que acontece na vida, o destino, fado ou fatalidade. Apenas refiro-me ao mero acaso, puro e simples. O que domina o universo físico é o acaso, mesmo que na maioria das vezes que nos referimos a ele nós o chamemos de sorte.
Há, também pessoas que infelizmente têm, vez por outra, o desprazer de estar no lugar errado, na hora errada. “Má sorte”, para não dizer de forma direta, azar. Se nós generalizarmos, o que chamamos de azar não é outra coisa se não o próprio acaso.
Até este dado momento eu não sei em qual destes dois grupos me incluiria. Se no grupo dos sortudos, ou no grupo dos azarados. Talvez, nem bem em um, nem bem em outro, mas, entretanto, em ambos. Na verdade, eu estou mais para um terceiro grupo. O das pessoas que acreditam apenas no acaso.
No feriado de sete de setembro último, participei como coadjuvante de um acontecimento que chocou, pelo menos por uma semana ou no máximo um mês, todo o país. Forçando um pouco a memória, todos devem lembrar-se da tragédia do “Mine Markt” de São Gonçalo, pois foram feitas duas ou três reportagens que foram transmitidas no telejornal mais assistido do Brasil. Este caso foi até mesmo coroado com uma reportagem de dez minutos de duração ou mais no jornal de domingo de maior ibope no país. Hoje, quase um ano após, poucos são os que lembram-se com facilidade do ocorrido, exceto é claro, as pessoas envolvidas, seus familiares e conhecidos.
Hoje, quando levantei-me da cama motivado a escrever sobre este fato, não fui motivado por idéias sensacionalistas e me policiarei ao máximo para não escrever nem uma única linha assim, mesmo que seja difícil escrever um conto sobre uma história tão real quanto nós mesmos. Resolvi escrever esta história, que não sei até agora, enquanto escrevo, se será longa ou curta, desejando que ela sirva como humilde epitáfio aos que sobreviveram.
Como conheço praticamente todos os envolvidos pelo menos de vista, foi fácil conversar bastante com os “sobreviventes” e com pessoas de suas famílias e saber, por causa destas conversas, detalhes daquele dia trágico. Havia, entretanto, lacunas que precisavam ser preenchidas para o bom andamento deste relato, que pretende ser uma homenagem ou prova de respeito a todas as pessoas que sofreram e foram, de certo modo, marcadas por este acontecimento. Então, preenchi as lacunas por meio de minha imaginação.
Evidentemente, estas pessoas, que tentarei descrever com a máxima exatidão, não agiram e falaram religiosamente da maneira como descreverei, muito menos pensaram da forma como aparecerá nas páginas á frente, pois eu não almejo saber exatamente como pensam as pessoas, pois sei que o único que têm o poder de saber exatamente o que pensamos e faremos é Deus, e, mesmo assim, Ele não usa todo o tempo este poder por ter-nos dado o livre-arbítrio.



















O “Mine Markt” é uma mercearia de muito boa aparência em um bom ponto comercial de São Gonçalo. O local em que foi construída não é bem no centro de São Gonçalo, mas, no terreno ao lado foi construída uma sucursal de uma grande rede de lanchonete “fast food”, como se fala hoje em dia. Em frente, há a algum tempo, um grande posto de gasolina e ao lado do posto construíram, também, quase ao mesmo tempo da construção  da lanchonete, uma grande vídeo locadora que, em comparação com o “Mine Markt”, era muito mais bonita , a vídeo locadora era daquelas onde nós podemos, com toda certeza, encontrar até mesmo filmes antigos como “Cidadão Kane”, “Encouraçado Potenkim”, “Nosferatu”, “O Grande Ditador”, enfim  uma boa locadora, um bom ponto comercial, próximo mas não no centro e com muitas casas ao redor.
Na última reforma da o proprietário resolveu que deveria plagiar o modelo arquitetônico da lanchonete ao lado de sua mercearia. Tanto o prédio quanto o terreno ficaram muito semelhantes ao prédio e ao terreno que serviram de molde, exceto a cor e o jardim. Foi até mais ousada e criou jardins laterais, coisa inexistente na lanchonete.
Cinco pessoas trabalhavam para o Sr. Assis, o proprietário, mas, como o dia que nos interessa é o dia do feriado de sete  de setembro do ano anterior, precisamos falar apenas de dois deles que, excepcionalmente, trabalhariam no feriado. O primeiro trabalharia das sete horas da manha até o meio-dia, a este chamaremos de Anton, quando da chegada do segundo, que trabalharia até as cinco da tarde, hora que fecharia a loja e iria para casa, e que  conheceremos como Albert. Ambos eram bons funcionários. Albert era cristão, não o era apenas no sentido em que somos por viver num país católico, era de fato cristão praticante, já Anton não. Anton era uma pessoa destas que podemos chamar de despreocupadas.
Todos pensaram que não duraria um mês no emprego. Foi uma grande surpresa para todos, até para o Sr. Assis, ver o tempo passar e perceber que Anton se adaptava bem a rotina do trabalho. Anton já trabalhava a dois anos tendo, na época em que começou, dezessete anos e sendo, como todas as pessoas que o conheciam podiam comprovar, um funcionário diligente. Todos  dizem que sempre fazia tudo o que lhe mandavam fazer, mas, sabe-se que Anton trabalhou desde o início com toda empolgação pelo fato de o pai de uma namoradinha ter lhe dito que só haveria namoro caso Anton arrumasse um emprego. Anton arrumou então o emprego e, como acostumou-se com o ritmo do trabalho, continuou nele. Entretanto, um observador perspicaz nota com facilidade que Anton continua sendo o mesmo jovem despreocupado que era antes do trabalho.
Anton estava ansioso para chegar logo o dia do feriado. Havia marcado com Jane, sua nova namorada, uma festinha no amplo depósito nos fundos da loja, ou na sala do patrão aproveitando que todas as chaves estariam com ele até o meio-dia, se chegasse alguém na loja havia as câmeras do circuito interno de vídeo. No dia tão esperado para Anton quanto o dia do Natal, chegou pontualmente à hora marcada, limpou toda a loja como fazia diariamente e as oito horas em ponto abriu as portas da loja para algumas pessoas que já estavam esperando. Atendeu-as e ficou só até as nove da manhã, fazendo o balcão hora de tamborim, hora de travesseiro. Era feriado, nada mais natural que o movimento fosse pouco intenso, mas não esperava que seria tanto assim. As nove horas menos quinze minutos chegou Jane, mas não ficaram a sós pois, por aproximadamente uma hora, o número de pessoas que entravam e saiam da loja não foi grande mas sim contínuo. Este fato perturbou Anton já que ele tinha uma garota e a possibilidade de estar sozinho com ela, mas os fregueses serviam, pelo menos naquele momento, como empecilho apenas.
A manhã havia já perdido todo o frescor e cheiro agradável do orvalho, o sol começou então a mostrar à que veio, quando Anton e Jane encontraram-se sozinhos. Jane era de uma beleza fria, incapaz de causar palpitações  arrebatadoras, mais era bela a seu jeito. Tinha um rosto fino e pequeno, o nariz era reto como se fosse projetado à partir do desenho de um triângulo perfeito, os olhos de longe eram negros como seus cabelos, mas de perto eram castanhos e o brilho não era tão forte. Como se tivesse a idéia fixa de que não era bela. Jane era adolescente, tinha uns dezesseis ou dezessete anos, impossível ter certeza da idade correta apenas por olhá-la e, os adolescentes estão sempre errados quanto a idéia que fazem deles mesmos. Tinha um corpo perfeito e dentro de poucos anos tornar-se-ia uma mulher ainda mais bonita, se não tivesse dois ou três filhos antes dos vinte e cinco anos, como era muito comum acontecer com os jovens ali.
Anton era mundano e havia preparado com antecedência o escritório do patrão para aquele momento. Levaria a menina para lá e ficaria prestando atenção na tela da TV que mostrava todo o interior da loja, caso surgisse alguém, ele correria para despachar o quanto antes o visitante inoportuno. Mal começaram a beijar-se, surgiu um homem. O homem abriu a porta de vidro, foi até o balcão e quando já estava descendo a palma da mão direita sobre um pequeno sino sobre o balcão ouviu Anton perguntar-lhe do fundo da loja:
-O que o senhor deseja?
Antes de terminar completamente esta pergunta, ouviu-se o toque do pequeno sino: “plim-plim”. Anton surgira correndo de uma porta do fim do corredor principal por entre as prateleiras e não deu tempo do homem conter seu movimento. De onde se encontrava Anton reparou que o homem veio de carro e estacionara em uma das vagas do estacionamento da mercearia.
-Pensei que não havia ninguém atendendo, - disse o homem sorrindo cordialmente deixando que Anton visse o mais alvo de todos os sorrisos que vira até então – pensei que tinham abandonado a loja e num rasgo de patriotismo tivesse ido cantar o hino nacional em alguma praça pública aqui perto... - O homem pensou que seria entendido, mas, não foi.
Anton sorriu por sorrir, acreditava ser a amabilidade para com os fregueses uma das suas obrigações, não entendeu e justamente por isso não achou graça no “rasgo de patriotismo”, o homem percebeu que não foi compreendido mas não tentou explicar-se melhor, resignou-se a fazer suas compras calado.
-Tome uma cesta. – disse Anton sem, entretanto, olhar bem o rosto do homem. – Fique á vontade . – Completou.
-Obrigado.
 Anton ficou atrás do balcão desejando que o homem fosse embora o mais rápido possível, mas ele ficava passeando pelos corredores pegando um ou outro produto nas prateleiras das estantes de aço. Olhou para as roupas do homem. Sentiu inveja. Eram boas roupas e bons sapatos, o carro parado do lado de fora era novo, “deve ter dinheiro”, pensou ele. Olhou para o estacionamento no sol e viu também o sol refletindo no pára-brisa do carro. “Deve ter muito dinheiro”, pensou Anton ao fechar os olhos visualizando o que estaria fazendo neste momento se também tivesse dinheiro. Anton debruçou-se sobre o balcão deixando vagar o pensamento sem notar que o homem fora até o fim da loja pegar algum produto na seção de frios. Também não olhou na tela da TV sobre o balcão. Se tivesse olhado teria visto o homem entrar na porta que ia para o depósito e escritório nos fundos da loja. Exatamente quantos minutos ficou em devaneio, não sabe. Talvez uns cinco minutos, talvez um pouco mais ou quiçá um pouco menos. O fato é que pensou ter ouvido um grito e isso o despertou abruptamente para realidade. Olhou para a tela da TV, que estava dividida em quatro partes, cada qual mostrando um canto específico da loja de modo que nada escapava de sua vista. Não viu o homem em parte alguma. “Que droga! Isso não pode estar acontecendo!” Pensou que o homem dirigiu-se para o escritório, talvez para roubar, e deu de cara com Jane. Sentiu um calafrio, levantou-se sem pestanejar e coreu para a porta do depósito. Ao entrar recebeu uma pancada forte na cabeça e caiu, desmaiando instantaneamente.





















Ao abrir os olhos novamente Anton percebeu que tinha sido amarrado e arrastado até o escritório e viu em  um dos cantos em posição fetal Jane, que estava semi-nua com as roupas rasgadas, o canto da boca inchado, possivelmente o resultado de um soco, o olhar arredio, amedrontado e envergonhado de uma mulher que acabara de ser violada. Seus olhares pareciam mostrá-la coisas distantes, que de tão impalpáveis, tornavam-se irrelevantes.
Não era necessário perguntar nada, sabia o que tinha acontecido e sentia-se também envergonhado por ter planejado que Jane estivesse ali e foi invadido pelo sentimento de culpa, ainda mais por estar amarrado e impotente. Seu olhar percorreu todo o ambiente do pequeno escritório, não viu o homem. Seu nariz foi invadido pelo cheiro putrefato da desonra e sentiu uma grande aversão pela própria vida, vergonha de ser um homem, vergonha de ser um ser humano, ente capaz de patrocinar  indignidades vergonhosas para si mesmo e para outros seres  humanos.
O homem ao perceber que a porta que levava ao escritório  e ao depósito estava aberta, resolveu entrar pois imaginou que não havia mais ninguém na loja e por notar que Anton estava sonolento o bastante para permitir isso. Não procurava por alguma coisa específica, por nada em especial, quando encontrou uma moça com pouca roupa deitada em um lençol forrado no chão. A moça ao vê-lo puxou o lençol para si objetivando esconder sua nudez e deu um grito. Ele deu um soco no rosto da moça que caiu desacordada viu pela tela da TV que Anton acordara, foi para trás da porta com uma barra de ferro que encontrara num canto, quando Anton entrou, golpeou-lhe a cabeça por trás. Pensou que Anton estivesse morto, verificou. Não estava. Procurou uma corda e ao encontrar, amarrou Anton de modo que ele não poderia fazer nenhum movimento. Revistou seus bolsos à procura da chave da loja, não a encontrando deduziu que estava no balcão. Foi até lá e, após ema breve procura, encontrou-a. Saiu e fechou a porta atrás de si. Entrou no carro e pôs as mãos sobre o volante. Tremia. Ficou pensando no motivo de ter agido da maneira como agiu e não conseguiu encontrar motivo algum. Sabia que muitas vezes as pessoas tomam medidas desesperadas, mas pensava que mesmo essas tais medidas desesperadas, com toda certeza, deveriam ser motivadas por algum motivo sério, muito sério. Ia ligar o carro para ir embora da loja e, entrou novamente em seu interior. Olhou para a rua para ver se vinha alguém, não viu nenhuma alma viva. Fechou a porta á chave e dirigiu-se para o escritório. Ambos, Anton e Jane, ainda estavam desacordados. Havia corda de sobra para amarrar Jane, mas ela estava deitada no chão de maneira que lhe permitia ver suas partes pudendas, tinha um corpo absolutamente desejável...
Quando o homem retornou estava portando uma arma de fogo, e falou copiosamente sobre pacto social, sobre um acordo, um trato, e sobre soltar Anton para ir abrir a loja e atender as pessoas que eventualmente aparecessem. Anton não aceitou, fora perda de tempo ter falado tanto de pactos e acordos, Anton simplesmente não entendeu nada. E não estava disposto a fazer acordo algum com um bandido.
-Vou mata-la se você não for lá para loja e atender as pessoas como se nada tivesse acontecido. Na primeira tentativa de bancar o herói, mato-a.
O rosto sereno do homem, servia como garantia de que ele, de fato, faria tudo que se propôs a fazer.
Anton reclamou bastante mas não havia como resistir à força de um homem armado e com uma garota em seu poder. Foi desamarrado e pediu para ir ao banheiro, lavou o rosto e os cabelos, sentiu um grande galo quase na nuca, procurou alguma coisa que pudesse ser usada como arma e não encontrou. Pensou em fugir, mas, percebeu que a vida é bem diferente dos filmes de ficção. Foi para o balcão e ficou pensando que poderia sair da loja e chamar policia, seria fácil, porém trágico para Jane. Caminhou impávido até a porta e a abriu. Ficou parado por quase um minuto pensando em Jane, ela já sofreu tanto, que um sofrimento a mais outro a menos não faria diferença substancial. Quando estava pronto a dar o primeiro passo para sair, ouviu a voz do homem que saia do alto falante que se usava para comunicação interna. A voz era máscula e forte, sem deixar, entretanto, de ser doce e meiga tendo o poder de evocar instantaneamente a visão da figura janota que estava neste momento com a arma apontada, quiçá, para a cabeça de Jane. A voz que ouvia era a voz da superioridade. Anton nunca antes ouvira uma pessoa falando tão bem, de forma tão bem articulada.
O homem parecia ser muito inteligente, não apenas por estar bem vestido e usar óculos, mas também, pelas coisas que dizia. Anton não entendia quase nada das suas digressões, o que tinha um impacto ainda mais forte em seu subconsciente, posto achar que este tipo de atividade e comportamento não combinassem com a sua pessoa. Achava que apenas pessoas de sua classe social fossem capazes de praticar violência. Pessoas tão estudadas,  tão eloqüentes, não podiam praticar tais atos. Não sabia que todos os seres humanos, independente de sua classe social e grau de instrução, são dados a praticar atos desumanos, animalescos.
-Vou matá-la neste instante se você não fechar a porta. – Disse o triste som da realidade.
Anton não entendeu nada além de “vou matá-la” e “fechar a porta”. Seus pensamentos estavam em ebulição e se misturavam com os sons ambientes o empurrando para o interior da loja, fechando a porta atrás de si. Na realidade, não sabia explicar o motivo de ter entrado novamente na loja, nem saberia, também, definir seus sentimentos naquele instante. Sabia, porém, que não havia retornado motivado por dores morais. Achava que moral era apenas o nome de uma força que pessoas das classes superiores utilizavam para manter todas as outras em seu devido lugar. Evidentemente, não saberia formular este conceito em palavras, justamente por isso o formulava em ações não tendo, por exemplo, nem um único pingo de vergonha por ter planejado desvirginar uma jovem garota em seu local de trabalho, além de ter  pensado seriamente em a abandonar à sua própria sorte.
Anton postou-se por trás do balcão e ficou a esperar que entrasse alguém. Olhava, nervoso, de um lado para outro na expectativa de fugir. Passaram-se alguns poucos minutos que, devido ao nervosismo e ansiedade em que se encontrava, imaginou terem sido trinta minutos ou mais. Não conseguia cochilar por sobre o balcão como em condições normais conseguiria. Suava fartamente e molhava com o seu suor toda sua camisa pólo, até mesmo as palmas das mãos estavam suadas, como sempre acontecia em momentos de nervosismo  e medo extremos.
O fato de Anton ser uma pessoa acomodada era confundido pelas pessoas ao seu redor, que achavam que ele era um tipo calmo. Longe estavam todos eles da realidade. A calma é uma virtude dos sábios e, nem por conhecimentos teóricos, nem por conhecimentos empíricos, podemos domá-la. Definitivamente, Anton não era o que poderíamos chamar de sábio.
Anton estremeceu ao ouvir a porta da loja ranger ao ser friccionada ao chão com força pra ceder passagem a duas mulheres que entraram com ar decidido como se não tivessem tempo a perder. Ao entrar, uma delas disse:
-Eu vim dez minutos antes e a porta estava fechada, algum problema?
Anton titubeou e quase gaguejando disse não haver problema algum.
-É, por que a gente fica preocupada, né? Dizem que tem dois caras rodando o bairro. Assaltaram a drogaria, a padaria, pra assaltarem vocês não custa. Ainda mais num feriado.
Anton apenas olhava e balançava a cabeça de modo afirmativo implorando que a mulher lesse em seus olhos não apenas desinteresse, mas também as palavras “cai fora!”. A mulher grávida, enquanto a outra conversava, foi pegar alguns pacotes de biscoitos e um pote de 400 gramas de doce de leite pastoso, ela estava com vontade louca de comer doce de leite com biscoito “cream cracker”, e neste momento já estava com o dinheiro na mão para pagar suas compras. “Menos mau, a grávida saindo é cada um por si.” Pensou Anton, enquanto empacotava as mercadorias.
-Está com pressa?  - Perguntou a mulher grávida.
-Não é pressa, é eficiência. – Disse Anton de forma amarga, fazendo com que a mulher percebesse que havia algo de errado acontecendo.
A grávida pegou suas coisas e saiu, imaginando que mesmo que uma pessoa fosse obrigada a trabalhar num feriado, deveria tratar bem os clientes da loja, pois, eles não tinham culpa alguma pelas injustiças que ocorrem no mundo do trabalho, na relação empregado-empregador.
A outra mulher depois de algum tempo, veio até o caixa com a cestinha cheia de produtos, colocou produto por produto sobre o balcão e ficou olhando o semblante descaído de Anton absorto na tarefa de registrar na máquina os preços dos produtos.
-Você não está bem. Dá para notar que alguma coisa o está incomodando.
Anton pensou em sair da loja junto com a mulher, mas como explicaria ao Sr.Assis a morte de uma jovem de 17 anos no seu escritório. Seria mandado embora na justa causa, sem direito trabalhista algum. Não podia se dar ao luxo de perder desta forma a oportunidade de ganhar dinheiro, ainda mais um dinheiro que é seu por direito. Ademais, não seria fácil conseguir um outro emprego com uma justa causa lhe servindo de companhia. Sem contar que havia também a possibilidade de ser acusado de ter facilitado as coisas para o bandido. “Tô ferrado!” pensava ele todo o tempo.
Entravam e saiam a intervalos de tempo quase regulares pessoas apressadas, pessoas carrancudas, pessoas calmas, enfim, várias pessoas e nenhuma delas, após a mulher que entrara junto com a grávida, perguntou se havia algum problema. Anton achava melhor que não lhe perguntassem a todo o momento se havia algum problema. Não queria mentir. Não por considerar a mentira como um desvio do ideal da moralidade, não queria mentir apenas para não se desgastar psicologicamente, já que para ele a mentira era um recurso válido somente quando a pessoa estava descansada e com força o bastante para sustentá-la se houvesse tal necessidade.
O que aconteceu de bom foi que o alto falante não emitia nenhum único ruído a mais de uma hora. Era bom não ser lembrado que havia um homem armado e beligerante que, de certo modo, tolhia a sua liberdade e tinha a previdência de saber mais do que ele próprio se podia considerar-se vivo ou morto. Isso, entretanto, não o tranqüilizava, muito pelo contrário, o fazia tamborilar nervosamente o balcão com os dedos. Estava numa expectativa devastadora e não conseguia concentrar-se no que acontecia no interior da loja.
Foi despertado do estado singular que se encontrava por um grito estridente vindo do alto falante:
-O rapaz de camisa pólo vermelha e bermudão escondeu algumas barras de chocolate dentro da camisa e você não vai fazer nada? Vai deixá-lo sair?
O rapaz assustou-se tanto quanto Anton e correu para a saída, abriu a porta e avistou do outro lado da rua no posto de gasolina uma viatura policial parada e dois policiais do lado de fora do carro em  uma conversa animada um com outro.
Certamente pensou que era melhor devolver o roubo e tentar conversar com o homem que falou ao microfone, que devia ser o dono da loja. Talvez ele não acionasse a polícia. Voltou para o interior da loja e viu que Anton, apesar de assustado, não saiu do lugar de onde estava para persegui-lo.
-Coloque as coisas que  roubou sobre o balcão e venha aqui atrás no escritório.
Os olhos de Anton queriam avisar para o rapaz loiro, bem vestido de no máximo dezesseis anos, que não fosse, mas os olhos não falam frases audíveis aos ouvidos, apenas ao coração. E o rapaz que fora pego em flagrante não conseguiu ouvir aviso algum. Anton sentiu-se um covarde em deixar que o rapaz fosse para o fundo da loja, mas, pensou que assim seria melhor, pois ele serviria de companhia para Jane, “é bem provável que ele será apenas mais um refém”. O garoto demorou algum tempo indeterminado no escritório junto de Jane e com homem que o havia chamado, e quando saiu tinha o rosto ruborizado e tentava impedir Anton de perceber que chorara. Não conseguiu, pois qualquer pessoa notava sem esforçar-se que não apenas tinha chorado, mas havia levado pelo menos um murro no rosto. Em um dos cantos da boca um pequeno ferimento acompanhado de um leve inchaço era bastante visível. Sem pedir licença foi para trás do balcão e sentou-se no chão, Anton não opôs resistência, imaginava o que ocorrera no escritório e sentia num cantinho oculto bem no fundo do seu coração uma enorme vergonha que preenchia todo os espaços em volta do cantinho e crescia mais. Veio, então, uma vontade insana de gritar e chorar, Anton segurou com força no balcão e por pouco não desmaiou. O rapaz poderia sair da loja, mas, sentia muita dor, medo e vergonha por ter sido estuprado.
Eram quase onze e meia da manhã quando o homem do escritório começou a discursar sobre propriedade privada, capital, lucro, Estado e, por fim, sobre o roubo e o furto de lojas. Explicou e exemplificou como as lojas pagam roubos e furtos, e como os clientes pagam por meio de preços mais altos e perda da liberdade individual por meio de rígida vigilância ao entrarem nas lojas. Estava falando sobre a impotência do homem moderno em meio ao aumento da vigilância e a perda da privacidade na sociedade panóptica na qual vivemos, quando Albert entrou na loja e cumprimentou Anton. O auto-falante parou de falar, sempre que chegava alguém, o homem que falava pelo auto-falante parava de falar, continuando seu discurso após a saída da pessoa, mas, pela familiaridade do cumprimento de Albert ele deduziu que este seria um outro funcionário da loja.
-Albert, tem um maníaco no escritório com uma garota, ele me bateu e ameaçou matá-la caso eu saísse para buscar ajuda ou falasse para alguém sobre o que está acontecendo. Aqui atrás do balcão sentado no chão tem um garoto, ele provavelmente bateu no garoto e o ameaçou, ele já está sentado a meia hora e não falou nada, apenas chora. Acho que você não tem nada a ver com isso, então, deveria sair e procurar ajuda. Ou caso julgue ser impossível simplesmente ir embora, não vá para os fundos da loja, por nada nesse mundo.
Albert olhou atrás do balcão e viu o garoto arranhando o chão com toda a sua força. Albert sentiu calafrio ao ver que havia sangue escorrendo nas pontas do dedo do garoto, pela fricção contínua com o chão. Não podia sair depois daquela imagem. Albert sabia que não há imparcialidade no mundo em que vivemos, não havia nenhuma chance dele sair da loja, tentando manter-se neutro e usando como desculpa o argumento de que iria buscar ajuda, e não sofrer emocionalmente caso algo pior acontecesse com aquelas pessoas. Seria muito melhor sofrer junto com outras pessoas um sofrimento físico, e até psicológico, do que sofrer um tormento moral, emocional e de princípios.  Seus pais haviam lhe ensinado que a dor que dói mesmo é a dor de consciência.
As pessoas continuavam entrando e saindo da mercearia e ninguém desconfiava de nada. Eu estive na loja neste momento e sai pouco antes das duas horas, quando o sol estava em seu máximo, sendo justamente por este motivo que não notei nada estranho em ver a ambos os rapazes suarem fartamente. Não vi o garoto que estava sentado no chão por dentro do balcão. Fui um imbecil, não percebi nada. Às duas horas da tarde, dois homens entraram na loja e anunciaram um assalto. Anton estava em seu lugar atrás do balcão e Albert retirava produtos do lugar, limpava a prateleira e arrumava-os novamente cada um em seu lugar.
Todo o dinheiro deveria ser entregue. Anton deu a um dos assaltantes uma chave e disse que era do escritório atrás da loja, mas, não o era. Mentiu. Um dos homens foi até o escritório e o outro continuou no interior da loja apontando uma arma para os dois funcionários e ao mesmo tempo vigiando o lado de fora. Era arriscado para todos, mas, Anton pensou que, talvez, esses assaltantes poderiam substituir a polícia.
Foi ouvido um disparo, o homem que havia ficado no interior da loja dirigiu-se para o escritório. Anton ligou para casa do senhor Assis, que era próxima dali, mas na pressa não explicou detalhes, desligou e ligou também para a polícia. Outro disparo foi ouvido e o homem que saiu pela porta não era nenhum do dois assaltantes que havia entrado a pouco. O homem apontava sua arma para Anton e gritava todo o tempo. A idéia que Anton teve, desde o princípio fadada ao fracasso, não deu certo. E, mesmo se desse, os bandidos sairiam do escritório enfurecidos.  Naquele momento, por agir precipitadamente, Anton condenou várias pessoas à morte. Ele nunca, mesmo depois de muitos anos, conseguiu entender o motivo exato de ter feito o que fez.
Assis, que morava perto de sua loja, chegou antes que a polícia. Parou o carro e entrou na loja empurrando com força a porta, nem bem se encontrou dentro da sua loja, o homem causador de toda esta tragédia fazia mira em seu rosto. O diálogo neste momento foi simples, banal, e não acrescenta muito à nossa narrativa. É importante dizer que o Sr.Assis num momento em que o homem virara seu olhar para Anton, segurou na arma e no braço do homem jogando o peso do seu corpo sobre ele. Ambos caíram e rolaram pelo chão numa luta rápida que terminou ao som de um disparo, o terceiro disparo do dia num intervalo pequeno de tempo entre o primeiro e o segundo. O segundo e o terceiro.
Seria algo feliz dizer que quem levantou-se do chão foi o Sr. Assis, mas infelizmente quem levantou-se foi o homem. Entretanto dava para ouvir, e ver pela vidraça a chegada de muitos carros da força policial. Ao ouvirem o primeiro disparo os vizinhos do mercadinho ligaram para a polícia, e em  poucos minutos, o mercado estava cercado.
O homem andou para um lado e para o outro, viu policiais armados descendo dos carros e imaginou que vários deles já estavam naquele momento rodeando a loja. Olhou para Anton com desprezo, viu que Anton estava de pé apenas por estar se apoiando sobre o balcão. Sabia que a polícia o mataria em alguns minutos, muito antes da chegada da imprensa. Levou a arma ao ouvido e disparou. Anton e Albert viram de duas posições espaciais diferentes o mesmo evento conseqüente a todos os homens, sobrevir a seu patrão e a seu algoz. Viram como um corpo cheio de vida e de movimento pode numa fração de segundo tornar-se inerte, e viram também como um corpo cai pesado ao chão muito semelhante a um saco de cimento solto no ar, quando uma bala atravessa sua caixa craniana.
O saldo do feriado foi macabro: cinco mortos (quatro homens e uma garota) e três feridos.
O motivo que levou a este acontecimento provavelmente jamais saberemos. Ficamos sabendo depois, apenas o nome do homem que trouxe tanto terror a um feriado nacional, seu nome era Guy... Guy de Maupassant.

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