quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cicatrizes

Cicatrizes



Era inevitável que olhassem para ele em todos os lugares onde ia. Tiquinho tinha  centenas de cicatrizes por todo o rosto e seus braços estavam tão lacerados que não se pareciam com braços de um homem. Alguns achavam que sofrera uma grande queimadura, outros diziam que era o resultado de um grande acidente rodoviário. Não imaginavam que tantas marcas podiam ser o que restou de dezenas de cirurgias estéticas.
Sua aparência instigava pena e a pena fazia com que nunca o chamassem por seu nome de batismo, nem mesmo ele lembrava-se de seu nome todo o tempo. Se alguém perguntasse como chamava-se, respondia sem pestanejar, “Tiquinho”.
Era um jovem amável apesar de sua aparência repulsiva. Conversava sobre qualquer assunto que se possa imaginar e os mais velhos não cansavam de dizer que ele tinha uma boca de ouro. Não ficava, pelo menos aparentemente, chateado quando sentia que alguma pessoa não queria se aproximar dele talvez por pensar que suas cicatrizes eram resultado de alguma doença contagiosa. Lutava contra o preconceito ou apatia com bom humor e geralmente se saia vencedor.
Uma estratégia geralmente eficaz que Tiquinho usava para fazer novos amigos era contar como ganhara suas cicatrizes, na verdade, sentia um incomensurável prazer nisso. Muitos dos seus amigos já ouviram esta história umas cem vezes.
“Eu sempre fui menor em comparação com outras crianças da mesma faixa etária,  esta é a gênese do meu apelido. Minha mãe sempre dizia que eu era um pedacinho de gente e de pedacinho para Tiquinho foi um pulo. Eu não gostava de ser chamado assim,  mas, quanto mais eu protestava mais ela me chamava de Tiquinho. E todo mundo a acompanhava nisso. Os garotos riam muito de min e logo aprendi que se há uma coisa que as mães fazem muito bem, é envergonharem seus filhos.
“Eu era o mais raquítico de todos os meninos da rua, tinha o pior dos apelidos e a mãe mais super protetora de todas. Não demorou para que me fizessem o alvo de todas as piadas de mau gosto e zombaria em geral. E, todos sabem que nada é mais cruel que uma criança, a não ser, um grupo de crianças.
“A uns quinze anos atrás  este bairro era muito diferente do que é hoje. A única rua asfaltada era a principal, que nem se quer era asfaltada e sim calçada de paralelepípedos, para dizer a verdade. Nas outras ruas que não tinham calçamento, todas as noites era uma algazarra só, os pequenos brincavam de todos os tipos de pique que se podia imaginar, além de terem a liberdade de inventarem novos piques só para fugir da mesmice. Os maiorezinhos brincavam de taco ou queimada e os quase adultos jogavam pelada na rua. Eu passei por todas estas fases, era engraçado, os pequenos não brincavam com maiorezinhos e estes por sua vez não brincavam com os quase adultos. Evidentemente, esta secessão não provinha nem agradava os mais novos, mas era da vontade dos mais velhos, tudo para garantir o status.
“Nesta época, quinze anos atrás, quando eu tinha precisamente  dez anos de idade, costumava brincar com outras crianças nas proximidades do velho matadouro desativado e que foi demolido a algum tempo. Certa noite, contávamos quase vinte meninos, brincamos até as onze horas da noite, quando as mães começaram a gritar seus filhos chamando-os para se recolherem. Eu e mais quatro outros meninos não fomos para casa, dirigimo-nos para o matadouro. Tínhamos o costume de pular o muro dos fundos, entrar no matadouro e tentar atravessá-lo de ponta a ponta sem sermos vistos pelo velho vigia que junto com dois dobermans tomava conta da propriedade.
“O matadouro tinha muitos setores, em alguns deles nós nunca fomos pois, muitas portas e grades se conservavam trancadas, mas, uma rota que havíamos aprendido era a que passava pelo escritório, este era composto de amplos cômodos que iluminados apenas pela luz da lua que entrava pelas pequenas janelas eram convite a aventuras, mais ainda pelo fato dos cômodos parecerem dispostos com a finalidade de se fazer um labirinto.
“Naquela noite pulamos o muro e corremos em direção à porta dos fundos que dava para o corredor que terminava no escritório. Para a nossa surpresa o vigia trocou o cadeado antigo, que servia apenas de enfeite pois se forçássemos um pouco ele abria, por um novo e grande cadeado. Poderíamos ter pulado o muro e ir para nossas casas, este era meu desejo mas zombaram de min quando propus isto, disseram que eu estava com medo e que era o filhinho da mamãe, as piadas venceram minhas resistência.
“Pulamos facilmente uma janela e começamos nossa incursão pelo matadouro abandonado. Estava mais escuro do que habitualmente, não conseguíamos enxergar um palmo à nossa frente e, como eu fui o último a pular a janela, me vi só no cômodo escuro. Os outros garotos haviam saído em disparada logo se viram dentro do prédio. Senti medo de ser pego e tive a sensação de que havia algo ameaçador no escuro, que estava prestes a esticar as mãos e me deter como seu prisioneiro. Fui guiado pela fraquíssima luz que vinha de uma porta e pelos gritos de meus amigos chamando-me. Corri para a porta me deparei em um longo corredor assustadoramente mal iluminado. No fim do corredor vi meus amigos correndo e dobrando para outro vão. Continuei sempre a correr mas era impossível alcançá-los, eles estavam muito na frente e eu, como já disse, era o menor deles. A distância entre nós aumentava, mas eu sempre conseguia vislumbrar pelo menos um dos garotos que corriam à minha frente segundos antes dele desaparecer no fundo do corredor, o que me dava a falsa impressão de que não estava sozinho, enganava-me, nunca estive tão só em toda a minha vida.
“Continuava sempre a correr como louco, chegando nos próximos cômodos apenas a tempo de ver o último dos meus amigos saindo. Devo, entretanto, ter-me cansado e quando cheguei no quinto cômodo do trajeto não vi ninguém dobrando à minha frente. Chequei à porta e tive que escolher que rumo tomaria minha fuga, direita, esquerda ou á frente. Tentei apurar os ouvidos para me guiar pelos gritos, mas foi em vão, havia os gritos dos meninos, mas eles formavam ecos que não serviam para indicar uma direção correta. O caminho que deveria ter escolhido era o da direita, mas ele pareceu-me menos iluminado que os demais, então fui em frente. O próximo cômodo que entrei era uma sala gigantesca iluminada parcamente pela luz da lua que entrava por atravessar o vidro muito sujo de uma janela. Não mais ouvia a gritaria dos meninos e senti-me só, mas continuei a correr. No outro cômodo que entrei vi que não estava só pois os dois dobermans  aguardavam-me para fazer-me companhia.

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