terça-feira, 23 de agosto de 2011

Auto-Oficina Literária - O Escritor

(J. C. Peu)

O escritor é o único artífice que dedica seu tempo, seus esforços, enfim, sua vida a fazer algo que não sabe ensinar. Um pedreiro, um eletricista, um médico, um engenheiro, todos conseguem ensinar a outros seu fazer, seu ofício. Porém, um escritor não tem como fazer isso, posto que nem mesmo ele tem certeza que sabe alguma coisa referente a sua arte, já que em cada nova obra, um novo desafio se apresenta corporificado pela página em branco.
Na verdade, é até difícil para todos, inclusive para o próprio escritor, acreditar em si mesmo, no seu domínio da arte da escrita. Se um médico, um carpinteiro, ou um pintor, possuem um objeto material, concreto, para se debruçarem sobre ele, o mesmo não acontece com o escritor. O que ele tem são idéias, apenas isso. Além dessas idéias, tudo o que há é o trabalho, e a obsessão. Tudo o que há de concreto no ofício do escritor é, ao mesmo tempo, evanescente.
Mas, se a escrita literária não pode ser ensinada (pense em Shakespeare ou em Machado de Assis ensinando para uma classe de novos autores como alcançarem sua excelência), isso não quer dizer que ela não pode ser aprendida. Mesmo que os cursos de escrita criativa, tão comuns em outros países, estejam chegando ao Brasil, eles nunca foram uma garantia de aprendizado real da arte da escrita para as pessoas que passam por eles. Oficinas literárias ajudam bastante a aprendermos algumas técnicas que servem como o ‘pulo do gato’ para resolvermos alguns problemas que talvez tenhamos na escrita de algum texto específico, mas, também, não são nenhuma garantia de que sairemos delas escrevendo como um Guimarães Rosa, ou um Asimov no caso da ficção científica.
Penso que não há nenhuma escola melhor para escritores que a própria vida. Parece-me que sempre há um pouco de autodidatismo em todos os escritores, ou na maioria deles. Na maioria das vezes dá até para reconhecer a vida do escritor por meio de sua obra, mesmo que seus escritos não sejam propriamente autobiográficos. Assim, na minha opinião, a melhor formação para um escritor está dentro de si mesmo, na sua experiência de vida.
Durante o ano passado, 2010, participei de duas oficinas literárias que tinham objetivos bastante diferentes, mas um traço comum entre elas foi que os autores responssáveis por elas, ambos autores publicados e com boa experiência no meio editorial e cultural, se apresentavam como conhecedores do ofício, mas, ao mesmo tempo, se mostravam menos confiantes em relação a seus trabalhos futuros, ou na própria validade dos conselhos apresentados.
Se um escritor, por melhor que ele seja, não pode ensinar a outros como se escreve bem, assim como Midas não tem como ensinar a outros como transformarem em ouro as coisas que tocam, isso não quer dizer que não se possa aprender como se escreve de forma literária. Na verdade, pode-se aprender a escrever sozinho, ou pode-se aprender pelo contato com outras pessoas, em oficinas literárias e em blogs por exemplo. E, a primeira dica de escrita, e a mais verdadeira, que se encontra em qualquer blog de autoajuda para escritores é:
“Não tem como aprender a escrever sem ler.”
Não perca tempo, comece a ler, ler, ler e ler!

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