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Mostrando postagens com o rótulo Poesia

Num Banco de Ônibus

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Num banco de Ônibus Olho para os carros Plantados no chão Sinto os pneus Penetrarem O asfalto O trânsito parado Um garoto correndo, Assalto.

O Poeta

Quem sabe porque o poeta escreve? Escreve porque existe o belo, E uma maneira ainda mais bela De dizer que o belo existe. Escreve porque existe o feio, E uma maneira especial de dizer que o feio Não é assim tão feio, Nem assim tão triste, E que se foram usadas palavras Seletamente escolhidas, O feio pode até se engolir. Escreve por que existe o belo e o feio Paradoxos, analogias e contradições. Escreve pois tem sentimentos. Porque não é uma máquina. As pessoas não são máquinas. Ele lembra-se disso o tempo todo E, com seus escritos, tenta fazer Com que os outros não se esqueçam. O poeta escreve porque o belo e o feio Existem apenas como representações Das diferenças, todas simbólicas. O poeta escreve por saber Que não somos diferentes, Por mais que todos queiram provar ao contrário. O poeta escreve para tentar fazer Com que os outros não se esqueçam...

Música

A música é o som. A música não é o som. Pois nem todo som é música. Mas, toda música é som. A música é mágica. A música não é a mágica. Pois nem toda mágica é musical. Mas, toda música é mágica pura. A música é a arte. A música não é a arte. Pois nem toda a arte é musical. Mas, toda música é arte. Assim como todo músico É um artista em potencial. A música é som, é mágica, É arte, é sonho, é verdade, É realidade, é filosofia, é religião. É tudo e muito mais. E, quando toca o coração, É metamorfose que vai se Metamorfoseando até transcender A canção.

Mais Grande

Numa caixa de fósforos Bem que cabe um carro E se ela não estiver meio torta Dá para entrar e fazer dela uma oca Outro dia vi um sorriso no rosto do sol. Gente grande não entende nada Parece que quanto mais grande, mais bobo. Olha pra nossa cara e diz: "Que bonitinho!" Meu pai não enxerga um sorriso no sol Nem na lua, nem lugar algum. Ele nem sequer olha... E ainda diz que sou a sua cara, eu não! Gente grande não entende nada Parece que quanto mais grande, mais bobo. Olha pra nossa cara e diz: "Que fofo!"

Bosom Friend

Eu queria ter o mundo ao alcance das mãos E correr mais rápido que a velocidade do som E voar mais rápido do que a velocidade da luz Só pra chegar primeiro E te contar as novidades antes delas aparecerem. A vida é um jogo que jogamos Se perdemos ou ganhamos Isso não importa O que importa é que jogamos. Se ganhamos ou perdemos A vida é tudo o que temos. Se perdemos ou vencemos O que não temos é tudo o que queremos. O que eu quero? Eu quero apenas ser seu amigo Estar ao seu lado E na hora da chuva te servir de abrigo. Eu quero apenas ser seu amigo Quando você for lutar Quero lutar junto contigo. Eu quero ir na frente E te livrar do perigo Eu quero que você me chame Como eu te chamo de amigo. Amigo!!!

Parto Normal

Quando você partir Parta de parto normal Não fique chorando Se remoendo por dentro Tornando tudo tão difícil para nós dois. Se quiser voltar Volte sem remorsos Não foi minha culpa, Nem sua, nem de ninguém. Por que ficar se lamentando Achando que suas lamentações Carregam o cerne da mudança do mundo? Conte-me seus sonhos Eu sentirei prazer em dizer O que significam. Se quiser chorar, chore. Eu também queria chorar Sem ter um motivo. Mas, o que fazer se Ainda estou vivo? No entanto, se você chorar Não molhe meus ombros Com suas lágrimas Use-as para lavar os copos E os pratos que ficaram Sobre a pia. Eu queria sorrir, Mas, não vejo motivos. O que fazer, se Ainda estou vivo? Vire a página deste livro que lês. Vire a página da tua própria vida. Faça os curativos e deixe que o tempo Cure todas as feridas. E, se quiser partir, Parta de parto normal.

Se eu morrer

Se eu morrer Não me acompanhe A vida é assim Não seja inane Se você me amar Eu morro bem. Se eu cair Me levante Não me deixe assim Pois sou rompante E num rompante Posso enlouquecer Mas, se você me amar Eu morro bem. Se eu chorar Me dê ouvidos Me dê também um ombro, Um ombro amigo E seque minhas lágrimas Com amor Pois se você me amar Eu morro bem. Eu morro bem, Morro bem, Mas, se você morrer Morro também.

Viagem

Quando você passar aqui Na vinda de qualquer viagem Pode perguntar por mim Mesmo que seja tarde Muito tarde para a vida Cedo demais pra morte. Quando você passar por mim Na vinda de qualquer viagem Diga pelo menos um "oi" Mesmo que seja tarde Tarde demais para desculpas Ainda há tempo de amizade. Quando você passar por mim Na vinda de qualquer viagem Diga pelo menos "tchau" Antes de seguir viagem Pare num restaurante da estrada Comida boa, bebida ruim Numa das curvas da vida T riste prólogo do fim.

Farrapo

Eu preciso de um empurrãozinho Não é comodismo É que eu tô sem força Só um empurrãozinho Estou tão sozinho. Eu preciso de uma mãozinha Divida sua sorte comigo Entorte a ferradura pro meu lado Só um pouquinho Ai!  Estou tão sozinho. Eu preciso de uma ajudinha Não é muita coisa Faça o que você faria por qualquer pessoa Sopre o meu rosto Só um ventinho Ai, ai! Estou tão sozinho. Com esses trapos Sou um farrapo humano Sujo, com sede e faminto Pedindo socorro Só um tantinho.

Repulsa

Simplificar as coisas O senso comum faz O tempo inteiro Enquanto o sensu acadêmico O que faz é complexificá-las Em igual quantidade de tempo. Veja o meu caso: Eu tinha uma ideia Mas perdi a caminho do trabalho Eu tinha um trabalho Mas perdi correndo atrás de uma ideia Por isso não acredito em nada Mas não duvido de tudo Tem muita coisa errado, Tem muita coisa errada Nesse mundo Eu sentia falta do trabalho Sem ele me sentia um nada Com ele comecei a ver Que era tudo questão de perspectiva E continuei me sentindo um nada Escancarei as portas do meu coração Passou um tempo ninguém quis entrar Um cão entrou e se acomodou Mas ele tinha sarna e carrapatos Sinto meu coração pulsando E sinto repulsa O mundo anda louco Eu às vezes ando, Às vezes corro.

Suicídio

O sol está no ápice Os pássaros cantam Uma triste canção Destas de animar enterro Que tem por estribilho: "Que dia bonito para um suicídio Um dia perfeito para se matar!" Sobre a mesinha Manteiga, torrada, Café e chá. No buquê Rosas vermelhas, samambaias, Flores do campo, chuva de prata, Que ostentam também Um outro nome vulgar. Na lápide não haverá epitafio. Ninguém mandou se matar. O céu está esplêndido Os pássaros cantam A mesma triste canção. "Que belo dia para uma prova, Um dia perfeito para se conhecer Por dentro uma cova!" Numa lápide estava escrito Um fato concreto Numa outra um fato abstrato Eu, se pudesse, escreveria apenas Suicídio.

Intuição Feminina

Ela está pensativa Ou fingindo estar Vai lavando suas roupas Lá rá lá rá lá... Certamente pensa em alguém Preocupada, preocupada Com a hora do jantar Lá rá lá rá lá... O filho chega da escola Era nele que pensava? Vai varrendo sua casa Lá rá lá rá lá... Continua preocupada Mas tudo está em seu lugar Só ela não está Lá rá lá rá lá... Daí, então, chegou a noite Janta junto com seu filho Não tem mais o Lá rá lá rá lá Lá rá lá rá lá... Toca o telefone inoportuno Atende sem vontade de atender Não há mais dúvidas Nem vocalização Apenas lágrimas. Eu sabia! Eu sabia! Intuição feminina! Intuição feminina!

A Dança

Eu não queria tocar em você Mas, sou obrigado Suas mãos são macias Meu coração calejado. Já não penso em você Tanto quanto antes Mas, não quero terminar Antes do inverno acabar. Não tenho medo de ficar só Apenas não quero te magoar. O trem saiu da estação, Você, dormindo, nem o viu chegar. Não percebeu que A música já acabou E continua a dançar. Você dança, dança e dança Sem perceber que todos foram embora. As luzes estão apagadas, Apenas você no salão. Eu não queria deixá-la Mas, sou obrigado Suas mãos são macias, Meu coração calejado. Seu coração é tão puro, O meu calejado. Você me pergunta se Não quero dançar. Eu lhe digo: "Amor, eu já dancei."

Cafeína

Não pense nunca estar no fundo do poço Talvez você ainda não esteja lá Mas, o caminho é perto, reze pra escapar Firme o pensamento em alguma coisa boa E tente atravessar essa deprê sem afundar Mas tente sozinho, eu não posso te ajudar Tome um pouco de café pra se acalmar. Não curto cafeína, Mas, tudo bem um pouco de café Às vezes me faz bem, Não curto cafeína, Mas, tudo bem um pouco de café Não faz mal a ninguém. Todo mundo precisa de alguém pra amar, Todo mundo precisa de alguém pra Tomar café e conversar. A noite já era, meus sonhos foram por água abaixo, Espero que saibam nadar. Se não souberem, que se danem, vou gritar: "Sonhos ao mar!" Não curto cafeína, Mas, tudo bem um pouco de café Às vezes me faz bem, Não curto cafeína, Mas, tudo bem um pouco de café Não faz mal a ninguém.

Febril

Eu queria escrever a mais bela De todas as poesias de amor Só por que você me pediu Queria te dar umas quinhentas estrelas E planetas uns mil Queria explicar de forma simples Que sinto uma paixão febril. Uma lágrima incomoda Ao descer sem pedir licença E meu coração Inexperiente nesses assuntos Acelera como se apenas isso Bastasse para dizer Com todas as letras Que no meu céu Só existe uma estrela Como se apenas isso bastasse Para dizer tudo.

Auto-retrato

Eu, faxineiro, 27 anos. Luto todo dia, só apanho. Apanho da vida, eu mesmo me arranho. Perdido na rua, coração de pano. Dando conselhos a outros, Querendo todos pra mim Eu mesmo me engano. Barriga cheia de comida, Roncando na ânsia de devorar paixões Um rio rasgando montanhas Como amor rasgando corações Na estante seu sorriso me lembra Que um erro meu deixou tudo pior. "Gauche" se lê "gôche" Mundo, mundo Vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo Não seria solução seria castigo.

Música sem som

Durante todo o dia havia Uma música em meus ouvidos Na música alguém sorria Mesmo sem haver sorrisos. Ouvi, também, um som inaudível Como aqueles de muitos prantos Que apodrecem como o que é perecível Ao não receber acalantos. Mas era vibrante o referido som Mesmo que partitura não houvesse Havia CADENZA, havia tom... Da letra inda lembro d'uma parte: "Música sem som, música sem som" De nada mais me lembro destarte.

Poe-Dia

Quero escrever poesia Co'um Deus escreve os dias E que a poeira ou a tristeza Não escondam a alegria do meu dia. Com'um poeta se debatendo co'uma rima Meus problemas são desafios com'uns Tão com'uns com'o as dúvidas Com'uns com'o as dívidas Que sempre temos Com'a vida. Quero escrever uma ode Que rejeite co'um grito Ou do jeito que pode A insânia e'a futilidade De entregar nossa vida, nosso rumo Ao destino para colocá-lá no prumo. Minha ode Que nascerá co'um espasmo Ou do jeito que pode É um dia poético Co'um P de profético Com'um dia escrevendo um poeta E não o cont'rário Eu Mesmo Tendo Nascido Ontem Pres'cindindo Maiakóvski.

Química

Química Mercúrio cromo Átomo de carbono Qualquer poeta medíocre Vale vinte químicos medianos. Mistura homogênea Solidificação Evaporação Rimando funções quimicas Só para achar a solução Que possa trazer Uma molécula de esperança. Elétron Neutron Um sopro de vida Mercúrio cromo Átomo de carbono Proton, proton, proton, Poesia.

Chove-não-molha

Chove chuva, Chove chuva, Vai enchendo o Rio. Gota d'água, Gota d'água, Pingo, Pingo, Pingo. Cada gota me pergunta: "Você ama?" "Você ama?" Queria dizer sim. Mas, você chuva, Você chuva É prática. Eu sou teórico. Mas, você chuva, Você chuva Chove. E eu, chove-não-molha. Eu chove-não-molha.