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Mostrando postagens com o rótulo Contobiográfico

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Abaixo-assinado: Já assinei vários, mas nunca um tão controverso quanto o que era referente a atestar os bons antecedentes de um rapaz conhecido que havia atirado contra a sua companheira. Ele não era uma pessoa tão íntima, já havíamos conversado algumas vezes por conta de outros conhecidos em comum, mas nada que fizesse com que eu soubesse mais sobre ele do que o seu primeiro nome. Bom que esta minha assinatura não resultou em nada mesmo...

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Abacaxi: Quando doce, não tem fruta melhor no mundo, mas, quando azeda, faz com que fechemos os olhos com força, como se isso fosse diminuir o gosto forte. No terreno de um vizinho, uns vinte anos atrás, tinha muitos pés de abacaxi. Quando eles estão bem pequenos parecem flores. Infelizmente, impedi que muitos abacaxis madurassem, brincando de dar flores para namoradinhas, mãe, tias, ou por maldade mesmo. Crianças são assim...

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte Final.

(J. C. Peu) No interior do colégio a mandíbula dentro do saco plástico parecia sorrir e, se sorrir fosse mostrar os dentes, era exatamente isso que faziam aqueles 30 dentes ensangüentados. Sorriam debochando de uma sociedade que já ultrapassou a barreira entre selvageria e civilidade há muito tempo, mas que não tinha coragem o bastante de admitir este fato. Carla foi levada para casa pela própria diretora e, do interior do carro, olhava os homens armados que impediam o direito dos homens desarmados ir e vir, vir e viver. Num esforço descomunal, verteu lágrimas como sacrifício em favor dos pecados do mundo. Ela como que torcia sua retina em busca de mais algumas gotas de lágrima. Já havia chorado muito naquele dia, parecia não ter mais gota alguma de lágrima em seus olhos. Sentia-se cansada. Não lutaria mais contra o mundo á sua volta. Sentia-se pronta para conformar-se com o mundo à sua volta passivamente. Chegou á conclusão que sua luta muda contra o sistema, inevitavelmente, resul...

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 5.

(J. C. Peu) Ao dar um passo após outro adentrando na escuridão, Carla percebia que a luz, ou o alcance dela, era ritmado pelos seus passos. Á medida que dava um passo à frente, a escuridão retrocedia, também, um passo. Conseqüentemente deu um passo após outro, dançando pelo corredor, forçando a luz a bailar com ela no ritmo que escolhesse. Um passo em salsa, outro em valsa, um terceiro em bolero ou ragtime. Ao chegar ao banheiro não mais sentia tanto medo quanto antes. Abrindo a porta, sentiu um cheiro ocre, que por um segundo associou ao odor do vinagre, mas, no segundo seguinte, desconfiou que não era exatamente vinagre o cheiro que sentia. Não havia muita luz no banheiro e Carla abriu a porta com a mão esquerda e, sem demora, com a mão direita tentou encontrar o interruptor que faria o favor, se alcançado, de iluminar todo o espaço ali. Não encontrou. “Coisa estranha. Havia um interruptor aqui ainda ontem, ou antes de ontem, já não lembro exatamente de mais nada.” – Pensou ela. A...

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - Parte 4.

(J. C. Peu)    Havia pouco tempo que Carla estava estagiando no colégio Anatole France. Os longos corredores do antigo prédio, recentemente reformado, mesmo que bem iluminados causavam-na sempre certa cisma. O medo ia embora   na presença de outras pessoas que todos os dias eram quase uma multidão. Alunos, professores, merendeiras, faxineiros, inspetores, etc... Neste dia específico, não havia alunos nos corredores. As aulas foram suspensas e muitos funcionários aproveitaram para não trabalhar e voltaram para suas casas. Os corredores estavam vazios, Carla caminhava temerosa contando seus passos como quem se apega à esperança de encontrar um tesouro, rumo ao gabinete da diretora. Queria perguntar se poderia ir embora, e se aquelas horas que deveria fazer naquele dia seriam descontadas. Caminhava vacilante quando da porta de uma das salas de aula saiu um homem vestido com um guarda-pó branco, onde se lia alguma coisa no bolso do lado esquerdo do peito, mas que ela não c...

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Escola: A escola é um ajuntamento de salas vazias, a não ser por mesas e cadeiras, onde pessoas de mente vazia vão lá para depositarem o conteúdo de suas mentes nas mentes de pobres crianças, também de mentes vazias. É um lugar bem legal, caso desconsideremos que parece que todo mundo que trabalha lá se diz mais conhecedor da vida, e da forma como a vida funciona, que você.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Computador: É um caderno que podemos ligar na tomada. Se no caderno podíamos escrever nas contra-capas poesias, letras de músicas, desenhar, no computador podemos fazer a mesma coisa, e ainda mais um pouquinho, como jogar, ouvir música, o assistir a vídeos no ‘you Tube’. A vantagem do computador é que podemos viajar mais dentro dele. A desvantagem é que se faltar energia elétrica...

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Abridor: Objeto de metal, que serve para abrir latas ou garrafas de cerveja, mas, na falta, para abrir latas utilize uma faca grande, perfurando a lata e forçando a faca para produzir uma abertura. Para abrir garrafas, utilize a quina ou lateral de uma mesa, encoste a garrafa e dê uma pancada, é batata! Dá para abrir, também, com os dentes da parte de trás da boca, mesmo que este processo não seja recomendado pela Sociedade Brasileira de Odontologia.

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Celular: É uma das melhores formas de se comunicar. Serve para tirar fotos, assistir a vídeos, realizar vídeos, ouvir música, mandar e-mail. Serve para falar, vez em quando... O meu, parecia um pai de santo, só recebia. Era pré-pago, e eu só colocava créditos quando recebia mensagem informando que poderia ser cancelado. Hoje, coloco uma quantia X e ganho 5X em bônus para falar á vontade. Pena que não tenho o número de ninguém na minha agenda...

Dicionário Sentimental de Coisas (In) Úteis

(J. C. Peu) Iogurte: Para mim, o melhor de todos os iogurtes é o tipo ‘petit suisse’, e quando tinha ‘petit suisse’ na minha casa eu sabia que podia pedir dinheiro ao meu pai. Estranho é que iogurte de morango é mais gostoso do que a fruta em si, e, mais estranho ainda, é que comer iogurte com o dedo é mais gostoso do que com a colherinha.

No Trem Para Japeri 2

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(J. C. Peu) Ao correr para garantir um lugar sentado no trem para Japeri, pensava apenas em ir para casa sentado,  descansando, nada mais me ocorria. Da Central do Brasil até a estação de Comendador Soares  em Nova Iguaçu, para onde me dirigia, são aproximadamente 60 minutos, e mesmo num sábado á tarde,  o movimento de pessoas é bastante intenso.             Consegui sentar e, logo que a voz um pouco metalizada do homem do auto-falante anunciou que aquele trem, parado na plataforma 8 linha H, era o próximo com destino a Japeri, todos os lugares vagos foram ocupados como num passe de mágica.             Uma mulher, com não mais de 30 anos de idade, acompanhada de seu namorado e outro rapaz que, entendi depois, era seu sobrinho, sentou-se ao meu lado. O trem já estava lotado. Não havia lugar para os 3 viajarem sentados. O namorado ficou em pé na sua frente, enq...

No Trem Para Japeri

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(J. C. Peu)                                                                     Erick havia abandonado o segundo ano do segundo grau desde a metade do ano. Por volta do dia 10 de dezembro de 1998 eu já tinha todas as notas, todos os resultados que diziam que eu, finalmente consegui concluir o segundo grau. Era assim que se chamava o Ensino Médio na época. O Bira ainda estava no período de provas. Ele estava cursando o segundo ou o terceiro ano, não lembro direito.             Cada um de nós estudava num colégio diferente, mas, por via das dúvidas, preferimos não explicar isso muito bem ao nosso emprega...

O Dia da Caça

(J. C. Peu) Odiava ir à escola. Fora as brincadeiras, a merenda e o doce de leite pastoso ‘Xamego Bom’, servido como sobremesa numa colher de sopa bem cheia, nada mais me interessava. Eu subia numa mangueira, que tinha os galhos estrategicamente posicionados pela natureza para facilitar a fuga de alunos insatisfeitos, e sempre inventava uma desculpa para chegar mais cedo em casa.             As brigas e a bagunça da turma do ‘fundão’ também me interessavam. Ver uma garota, Luciana era o seu nome, chorando após toda a galera da bagunça decretar que o seu apelido seria ‘Xaropinho do Capeta’, inspirado no programa infantil do Sérgio Malandro, ‘A Hora do Capeta’, foi, para mim, uma alegria. Na abertura do programa, tinha um capetinha fazendo traquinagens. Dizíamos que ela se parecia com ele. Isso é uma das lembranças mais impactantes da minha infância.             Outro dia, enqu...