sábado, 9 de junho de 2012

Conto Fantástico: O Homem Que Não Existia

(J C Peu)

Ao despertar de um sonho perturbador, Ele percebeu-se deitado em sua cama.
Embora ao ir dormir estivesse completo, sentia que algo lhe faltava de forma
irremediável. Não sabia ainda, mas estava sumindo.
“Mas, como é possível que uma pessoa comece a sumir assim?” – Pensou ele,
fazendo esforço para que as imagens do sonho não sumissem tão rápido. Ele
sonhara, de forma premonitória, com um homem que, numa bela manhã de verão,
sumira.
Era uma bela manhã de verão, destas que o calor e a luz do sol a adentrarem
no quarto tornam impossível que continuemos na cama. Ele é um Homem de Vinte
e Poucos Anos, que mesmo muito cansado do dia de trabalho, não conseguiu
dormir bem durante a noite. Dormia e acordava a todo instante. Havia viajado
e viagens acabavam por roubar-lhe o sono, mas, mesmo assim sonhou. Ao abrir
os olhos viu o teto de seu quarto, deixou seus olhos percorrerem apressados
o cômodo. Viu o guarda-roupas de mogno num canto, uma estante cheia de
livros em outro e viu a luz e a claridade do dia. Suas pupilas se dilataram
e um choque elétrico percorreu cada centímetro de seu corpo. Esquecera-se de
por o relógio para despertar e perdera a hora exata de levantar-se visando
escapar dos engarrafamentos. “Estou atrasado! Estou atrasado!”
       Jogou com violência o lençol que o cobria para o lado e pulou da
cama como se estivesse disputando uma prova importante numa olimpíada. Por
algum motivo inexplicável haviam cavado um buraco ao lado de sua cama e, por
não ter sido avisado, caiu. Tentou levantar-se, apoiando-se com um dos
braços na beirada da cama, mas caiu novamente. Ao olhar ao redor percebeu
que tudo estava como sempre fora em seu quarto. Não havia buraco, como
pensou anteriormente. A única coisa diferente era uma incomoda sensação de
que algo lhe faltava, apesar de não conseguir distinguir ainda o que era.
Apoiou ambas as mãos na cama e repetiu o esforço anterior para levantar-se,
mas sua tentativa foi totalmente inútil. Caiu.
       O Homem de Vinte e Poucos Anos deu um grito rouco de espanto e
desespero, posto que sua voz ainda estava afetada pelo sono,  um grito
curto, mas alto o bastante para assustar a todos os que se encontravam em
casa naquele momento. O homem, desesperado, conteve os nervos e não mais
gritou. Na verdade, mesmo que ele quisesse, não conseguiria falar ou pensar
em nada além do fato de que ao olhar para suas pernas notou que uma delas
havia sumido. Achou-se no chão de seu quarto sem uma das pernas, estupefato
por isso ter acontecido como que num sonho.
       - Como isso foi acontecer comigo? O que vou fazer?
       Não sonhava, embora a sensação de falta que teimava em continuar por
perto podia sugerir a atmosfera densa de um sonho, os raios de sol negavam o
toque onírico. Olhava atentamente ao redor e parou o olhar nos títulos dos
volumes na estante. Havia livros sobre marketing, comunicação, vendas, mas
havia também Borges, Kafka, Drummond, Poe e Fernando Pessoa. Ele conseguia
ler os títulos, de onde estava caído, e se lembrar de partes inteiras de
contos e poesias. “O fator estético não pode prescindir de um certo elemento
de assombro”, lembrou desta frase de “Pierre Menard, o autor do Quixote”.
Com medo da realidade, não conseguiu conter algumas lágrimas. Olhou pela
janela e o dia continuava a sorrir parecendo não importar-se com as
tragédias cotidianas. O calor poderia infundir-lhe uma grande alegria, mas
não.
Jamais poderia acreditar se lhe contassem que coisas ruins podiam acontecer
num dia assim tão belo. Mas, o fato era que aconteciam.
       Tentou Secar com as mãos as lágrimas que escorriam pelo rosto
pensando em voltar para cama e dormir para sempre, talvez isso poderia fazer
o tempo voltar, corrigindo todas as falhas do mundo. Mas, já não tinha o
braço direito. Era tanta coisa acontecendo que não havia percebido que seu
braço tinha começado a sumir no mesmo instante em que começara a perceber a
falta da perna. Pensou em como explicaria esta falta no trabalho. Logo seu
celular não iria parar de tocar atrás de detalhes. Iriam parabenizá-lo pelo
bom trabalho desenvolvido no dia anterior. Mas, como explicaria a ausência
de perna e braço?
       “Meu Deus!”, pensou enquanto controlava o choro. “Eu viajo e trago
lucros para a empresa, e tudo o que vou ganhar é outra viagem em busca de
lucros maiores. Irão mandar-me brindes, algum bônus no fim do mês, mas
certamente abrirão outra filial no fim do ano e logo nos pressionarão por
novos resultados. Me sinto como numa roda gigante onde o ápice é convertido
em um abismo de um dia para o outro. Será que esta não é a hora exata de
parar? Nunca se sabe. Se bem que não é de hoje que venho percebendo que este
clima constante de competição e beligerância não é o ideal para seres
humanos que estejam desejosos de cultivar boas qualidades.”
       “Sei que preciso sair, não posso ficar aqui para sempre. Mas, não
podem me ver assim!” – O Homem de Vinte e Poucos Anos começava a
desesperar-se com a ideia de sair do quarto e encarar a vida. “Como vou
conseguir dirigir com uma única perna e um único braço num veículo que ainda
não foi adaptado? Uma única perna dividida na administração de três pedais
diferentes, uma dízima periódica... E, o trânsito caótico, os moto-boys, as
pessoas falando ao celular enquanto dirigem... acho que não serei capaz de
ir dirigindo com um braço só, vou chamar um táxi. Antes mesmo de aprender a
andar de muletas, decidira que iria mandar o carro para a oficina mecânica.
Precisava de um carro adaptado para o uso de pessoas com deficiência.
       Ficou em pé com dificuldade e girou a chave, destravando o mecanismo
da tranca e saiu para o corredor. Naquele momento não havia ninguém ali.
Percebia que a sua tragédia não chegou a modificar muito o mundo ao seu
redor. Lá fora ainda brilhava o sol, e o céu estava mais limpo do que nunca.
Não havia nuvens...
       Andou pela casa pulando numa perna só, tentando equilibrar-se. Ao
entrar na cozinha, viu sem ser visto num primeiro momento, seu pai e sua mãe
sentados á mesa já tomando café. Estavam, ele a entreter-se na leitura do
jornal e ela a passar geleia de morango num pedaço de torrada, tentando
demonstrar certo grau de distração. Ao lado deles, notou que seu lugar
estava preparado a esperar a sua chegada. Mais ao fundo, Cida, a empregada,
gastava água abundantemente na pia. Ela nunca acreditou que dava para salvar
o mundo lavando louças com pouca água. Achava que as indústrias eram as
maiores poluidoras, e que poluíam apenas para terem mais lucros. Ele
conseguiu ver muitos detalhes num breve olhar e sentiu ainda mais do que
viu. Sentiu o cheiro gostoso do café fresquinho que inundava todo o
ambiente, ouviu bem baixinho o som de uma música de FM que Cida ouvia em seu
radinho que sempre era colocado sobre a pia, percebeu que este não era um
dia bom para sumir, era bonito demais, e tudo era perfeito demais para
terminar em tragédia. Foi visto pelos olhos grandes e curiosos de sua mãe.
       - Filho! Graças a Deus! Estávamos muito preocupados! - Disse ela
abandonando a mesa e pondo-se em sua direção, no que foi seguida por seu
marido e pela empregada, ambos excitados em vê-lo.
       Porém, ao olhar mais atentamente o filho, percebeu algo estranho.
Não era um momento propício a brincadeiras, mas, parecia que ele estava
decidido a brincar com os nervos de seus velhos pais. Entretanto, mal sabia
dona Márcia que não era fingimento de seu filho e que ele estava tão
atordoado quanto ela própria.
       - Santo Deus! Filho, o que aconteceu?!!! - Abraçou-o e tateou seu
corpo para ver se estava inteiro. Não estava, pois faltava-lhe uma perna e
um braço. Após a confirmação de que não era brincadeira de seu filho, a
mulher desesperou-se elevando automaticamente a voz.
       - Oh! Meu Deus! Você sofreu algum acidente enquanto esteve fora? Foi
atropelado? Me diz o que houve! - Sua mãe estava aflita e, em sua aflição,
permitiu que lágrimas banhassem o seu rosto sem parcimoniosidade.
       Seu pai, também desesperado, apesar de não falar nada e não chorar
sentia um grande pesar, uma grande perplexidade. Como isso foi acontecer com
seu filho, um garoto tão bom? Mas, realista como era, sabia que já não
podiam fazer nada para trazer de volta os membros que haviam desaparecido.
Propôs algo que era apenas um paliativo, mas, tendo em vista o absurdo da
situação, parecia ser o mais sensato a fazer. Mandou que se preparassem com
urgência para sair, pois chamaria um táxi para levar seu filho ao médico. O
que um médico poderia fazer para trazer de volta a perna e o braço ausente
de seu filho ele não tinha a mínima ideia, mas ficar parado ouvindo choros e
lamentações de sua mulher não parecia ser algo inteligente.
       Esta notícia, por mais que sinalizasse alguma esperança, não
produziu o efeito de acalmar dona Márcia que, com seu choro convulsivo,
produzia um alarido igual ao que acompanha o recebimento da notícia da morte
de alguém muito amado. Ela sentia-se mal e, por precisar de alento, jogou-se
aos braços de seu filho, que por não estar esperando por isso,
desequilibrou-se e caiu novamente. Não estava acostumado ainda com a vida em
uma perna só. Depois de conseguir sentar-se no cão e encostar-se à parede,
ficou muito triste em ver o sofrimento daquela pobre mulher e a abraçou mui
ternamente. Enquanto abraçavam-se, sentiu as lágrimas dela molharem sua
camisa e tocarem seu peito. Queria passar para ela um pouco de conforto,
mesmo sem possuí-lo completamente. O pai, apesar de não ter entrado em
desespero semelhante ao da esposa, abraçou a ambos no intuito de supri-los
com toda a proteção que fosse capaz de prover. Todos entendiam o quanto este
gesto era simbólico. Elogiável no quesito consolo, mas, inútil no fator
segurança. Foi então que o outro braço que sobrara começou, também, a sumir,
afrouxando o abraço.
       Antes de poderem se arrumar para sair, o Homem de Vinte e Poucos
Anos começou a protestar contra o excesso de zelo de seus pais que foram
irredutíveis quanto a levá-lo ao médico. Ele dizia que sentia-se bem e que
não havia necessidade real de irem correndo ao médico. Poderiam ligar e
marcar uma consulta para a parte da tarde, “até porque, ligar para a empresa
é mais importante no momento, pois há um relatório a ser feito.” Apesar de
seus protestos, não acreditavam nele, pois sua perna remanescente e todo seu
tronco também sumira. Ficaram aterrados com aquela cabeça que um dia já foi
seu filho no chão de sua cozinha, como sendo o gato de Cheshire humano.
Sabiam que jamais falaria mesmo que estivesse quase morrendo de dor, então,
desconsideravam as alegações de que não havia dor naquela condição.  Porém,
esta era a verdade, ele não sentia mal-estar, náusea, dor ou indisposição
alguma. O que prevalecia era apenas a sensação de que faltava algo em si ou
ao seu redor, mas este sentimento era muito semelhante ao que sentimos
quando sabemos que esquecemos alguma coisa, só não sabemos exatamente o quê.
A empregada conseguiu se benzer antes desmaiar, e a mãe ficou parada num
canto sem conseguir olhar novamente na direção da cabeça de seu filho.
Apenas o pai viu o inacreditável. Apenas o pai viu a cabeça sumindo. Muitas
pessoas falaram em paranormalidade, em combustão espontânea, mas o fato é
que o garoto era apenas um  homem que não existia.

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